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Nova linha de pesquisa aposta que a comida pode virar remédio se levar em conta a genética

O mel é um santo remédio para a prisão de ventre da vizinha, mas a receita não faz o menor efeito para você. O mesmo vale para a linhaça que resolve o colesterol alto da prima, mas não controla este inimigo do seu coração. O que antes era explicado só com "falta de sorte” agora encontra respaldo em uma nova linha de pesquisas sobre nutrição.

As pesquisas que relacionam dieta e DNA projetam para o futuro a prescrição de alimentos para curar doenças
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As pesquisas que relacionam dieta e DNA projetam para o futuro a prescrição de alimentos para curar doenças
Os cientistas do mundo todo – incluindo os do Brasil – estão empenhados em relacionar o efeito dos alimentos ao DNA de cada pessoa. O foco não é encontrar apenas a “dieta perfeita” com o objetivo estético e, sim, aproveitar ao máximo o potencial de cada nutriente, tanto na prevenção de doenças quanto na cura de problemas sérios, como diabetes e câncer.

Os ensaios ainda são embrionários e não há expectativa de que a nutrição "sob medida" saia dos laboratórios e chegue aos consultórios clínicos antes de uma década. Ainda assim, os resultados já conquistados conseguem explicar porque alguns componentes como o ômega 3, a vitamina A ou a vitamina D – três queridinhos dos nutricionistas – são mais efetivos para uma parcela da população e para outras não têm o efeito esperado. Os genes, descobriram, influenciam no resultado.

Outra conclusão já bem difundida entre os pesquisadores é: se ainda é preciso tempo para que a nutrição baseada no DNA chegue à população, já existem indícios suficientes para pedir cautela à população na hora de, por conta própria, recorrer aos suplementos alimentares vendidos em farmácias e supermercados.

“Não podemos suplementar uma população inteira com doses de nutrientes e sais minerais iguaais para todo mundo. Os brasileiros consomem estes produtos que foram feitos com base em necessidades de populações norte-americanas e europeias. Não podemos tratar as pessoas como se fossem gado”, afirma a professora da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Lúcia Ribeiro, uma das organizadoras da Conferência Latinoamericana de Nutrigenômica (a ciência que estuda a genética e a nutrição).

Comida vira remédio

A variação individual dos efeitos dos nutrientes citada por Lúcia Ribeiro também é estudada sob um outro prisma pela farmacêutica e fisiologista Renata Gorjão, da Universidade Cruzeiro do Sul. Enquanto uma parte dos cientistas avalia como cada perfil genético responde aos nutrientes, Renata pesquisa como as vitaminas e sais minerais são capazes de alterar os genes de quem as consome.

“Em nossos experimentos com ômega 3 já constatamos que a suplementação individualizada pode moldar os genes e com isso, a longo prazo, podemos pensar em conseguir melhorar a respostas dos indivíduos aos medicamentos ou a outras intervenções terapêuticas”, diz.

O Centro de Nutrigenômica dos Estados Unidos tem se dedicado a descobrir as alterações genéticas provocadas pelos alimentos, para o bem e para o mal. Ao mesmo tempo em que os estudos tentam demonstrar como uma dieta rica em gorduras pode tornar o organismo suscetível a vários problemas de saúde – e com isso detectar minuciosamente quais genes precisam ser trabalhados para evitar estas reações – os estudiosos também estão empenhados em demonstrar como a alimentação saudável é capaz de prevenir geneticamente o aparecimento de problemas.

Desvendar o mecanismo de ação de cada nutriente em paralelo aos avanços das pesquisas que já conseguiram identificar os genes responsáveis por várias doenças – infarto, anemia, diabetes, Parkinson são só alguns exemplos – enche os nutricionistas de esperança para que, em um futuro não tão distante, a medicina possa ser capaz de dizer a cada indivíduo com quais doenças ele deve se preocupar, de acordo com o seu mapa genético. Então, quem sabe, será possível fazer um cardápio sob medida para que estas doenças nunca se manisfestem.

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