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Expectativa de sofrer ainda mais disparou o gatilho de regiões cerebrais que controlam a ansiedade e o estado de ânimo

Atitude: pensamento negativo pode afetar o tratamento
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Atitude: pensamento negativo pode afetar o tratamento
Para o cirurgião de coluna Anders Cohen, as expectativas do paciente em relação ao alívio da dor são de extrema importância. Ele prefere operar somente aqueles que “o agarram pelo colarinho” dizendo: “Eu não aguento mais!”. Novas pesquisas sobre o cérebro provam que médicos como Cohen têm razão: o pessimismo pode anular os efeitos de potentes tratamentos.

Muita gente já ouviu falar do efeito placebo, o poder curador de acreditar em algo positivo. Este é o efeito contrário, o outro lado da moeda, quase que o irmão “vilão” do placebo.

E mesmo que pouquíssimos estudos tenham sido dedicados à profecia autogratificante do pensamento negativo, alguns cientistas dizem que já é hora dos médicos começarem a prestar muito mais atenção nas expectativas de seus pacientes.

“Todos nós sabemos que diversos tratamentos que funcionam para alguns não funcionam para outros pacientes”, disse Randy Gollub, neurocientista do Hospital Geral de Massachusetts (EUA). Em vez de prender-se aos percentuais de resultados, ela diz que tem todas as razões para acreditar que um paciente pode ser do tipo que responde ao tratamento.

Os cientistas já sabem que o efeito placebo é real. Ele pode ser medido por meio de estudos que comparam medicamentos verdadeiros a pílulas fictícias, quando pacientes que recebem as segundas percebem melhoras na dor e em outros sintomas.

Poderia uma perspectiva nebulosa realmente ser prejudicial? Pesquisadores ingleses e alemães realizaram o mais sofisticado dos estudos para responder a esta pergunta. Eles prenderam um dispositivo emissor de um feixe de calor às pernas de 22 voluntários saudáveis, ajustando o calor ao máximo até que, em uma escala de 1 a 100, os participantes avaliaram o nível de dor em 70.

Em seguida, os pesquisadores fixaram um equipamento para administração intravenosa nos pacientes, que receberiam o potente analgésico remifentanil, semelhante à morfina. Tipicamente usado no pós-cirúrgico, o medicamento tem rápida ação e metabolização, podendo ser acionado e interrompido para que os pesquisadores pudessem alternar o medicamento e o soro comum.

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Uma tomografia do cérebro dos voluntários foi realizada ao mesmo tempo em que eles descreviam o nível de dor e alívio que sentiram em diferentes momentos do teste. Quando os pesquisadores induziram o feixe de calor e secretamente acionaram o medicamento, os voluntários relataram um alívio claro da dor. Ou seja, o analgésico estava funcionando, independentemente das expectativas dos voluntários.

Em seguida, os voluntários foram informados que a equipe de pesquisa estava prestes a injetar o analgésico, que na verdade não foi acionado. Os níveis de dor caíram ainda mais, o que significa que as expectativas de alívio dobraram os benefícios do medicamento.

E mais uma vez os pesquisadores mentiram aos voluntários, ao dizer que o medicamento seria interrompido – o que provavelmente aumentaria a sensação de dor. E foi o que aconteceu: os níveis de dor dos voluntários subiram novamente quase se equiparando ao nível anterior ao tratamento – as expectativas negativas anularam o efeito de um analgésico de ação potente e comprovada. Foi observada flutuação semelhante nos níveis de ansiedade.

A razão? As tomografias cerebrais dos voluntários mostram alterações nas redes neurais da dor que provam que eles realmente passaram pelas mudanças em relação à dor por eles relatadas. Além disso, a expectativa de sofrer ainda mais dores disparou o gatilho de regiões cerebrais que controlam a ansiedade e o estado de ânimo, relataram os pesquisadores recentemente à revista Science Translational Medicine. Por outro lado, a expectativa do alívio da dor despertou outras regiões cerebrais que anteriormente haviam mostrado atividade nos voluntários que receberam o placebo.

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O novo estudo é pequeno e trata unicamente da dor. Mas, os resultados podem ser aplicados em diversos tratamentos medicamentosos, principalmente no caso de doenças crônicas, pois muitos pacientes há meses ou anos estão condicionados aos mesmos tratamentos, ou ainda passaram por experiências fracassadas, é o que concluiu Ulrike Bingel do Centro Médico da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, que conduziu a pesquisa em parceria com pesquisadores da Oxford University.

"Aprender como a ansiedade exerce influencia sobre a dor é crucial para compreendermos este efeito placebo. Sofremos a dor que esperamos sofrer”, disse a neurocientista Irene Tracey, uma das autoras do estudo, em uma análise sobre a ciência das expectativas publicada na revista Nature Medicine.

Este, porém, não é um conceito novo. Pesquisas anteriores constataram que pessoas que tomam pílulas de placebo podem passar por efeitos colaterais de medicamentos que eles acreditavam estar tomando.

Mesmo que ainda tenhamos muito a aprender, por enquanto os médicos deveriam pelo menos tentar desenvolver relacionamentos mais próximos com seus pacientes para encorajá-los a confiar nos tratamentos recomendados, crê Gollub.

“O desenvolvimento destas expectativas fortes e positivas para alcançar bons resultados faz parte de acreditar na pessoa que trata de você como alguém que se importa com você”, disse ela. Pesquisadores norte-americanos identificaram que pacientes cardíacos estão mais propensos a sobreviver se tiverem uma percepção otimista do mundo .

Cohen afirma que lidar diretamente com as expectativas, esclarecendo exatamente o que irá acontecer em diferentes momentos para desvencilhar-se da dor também pode ajudar. O chefe de cirurgia da coluna do Centro Hospitalar do Brooklyn, de Nova York, ensina novos médicos a não prometer a pacientes aguardando por uma cirurgia que eles despertarão livres da dor, pois mesmo que a velha dor nas contas pode estar enfraquecendo, eles sentirão as dores da operação.

Cohen explica: “Quando escuto alguém dizendo: ‘Nossa, é exatamente como ele tinha dito, esse cara me falou mesmo a verdade!’, é nesse momento que percebo que desenvolvi o vínculo de confiança, tornando-me parceiro do paciente”.

* Por Lauran Neergaard

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