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Quando escrever se torna uma forma de manter o bem-estar e não sucumbir à doença

O que fazer quando o que médico tem a dizer não é aquilo que você esperava? Quando sua própria vida parece ameaçada por um diagnóstico que você ainda não entende? Para dar conta do desespero, da ansiedade e do medo que aparecem neste momento algumas pessoas escolhem um caminho: escrever.

Bruna aprendeu a lidar com a doença a partir do momento que conseguiu falar sobre ela diarimente
Arquivo pessoal
Bruna aprendeu a lidar com a doença a partir do momento que conseguiu falar sobre ela diarimente
A vida da publicitária gaúcha Bruna Rocha Silveira, 24 anos, mudou totalmente há 10 anos com apenas duas palavras: esclerose múltipla, a doença autoimune que ataca o sistema nervoso central. Os sintomas são diversos e podem ir da fraqueza muscular ou falta de coordenação motora temporária à cegueira e perda de audição.

Foi no início da adolescência, aos 14 anos, que Bruna descobriu o nome da doença que lhe causava formigamentos estranhos na mão. Seus pais, fisioterapeutas, conviviam de perto com a esclerose e não tinham experiências positivas. Assustada, pesquisou o termo na internet.

“Pelo que achei lá, eu estava morta. Ou estaria logo. E me apavorei”, relata. Foi o primeiro de muitos sustos que ela levaria dali por diante.

O maior deles aconteceu, sem dúvida, dois anos depois. Bruna acordou paralisada do pescoço para baixo. “Fiquei dois meses sem poder me mexer sozinha. Precisava de ajuda para comer, para tomar banho, para tudo e não sabia se os movimentos voltariam”, conta.

Fisioterapia e tratamento adequado foram, aos poucos, devolvendo suas habilidades. Cada passo era valorizado, qualquer pequeno movimento, comemorado. “Levei seis meses para voltar a caminhar, mas consegui. O dia mais feliz foi quando consegui levar uma colher à boca sozinha”, recorda.

Com a plenitude dos movimentos de volta, ela também retornou ao colégio, voltou a sair com os amigos e sua vida foi voltando à normalidade. No entanto, a aceitação da doença e sua convivência com ela só se tornaram menos dramáticas quando, em 2009, começou a escrever um blog sobre sua “vida de esclerosada”.

As atualizações diárias no “ Esclerose e Eu ” são relatos de suas dificuldades e suas conquistas, mas principalmente são uma forma de aprendizado. “É uma ajuda, porque coloco tudo para fora. É preciso aprender a lidar com isso no dia a dia.”, relata. “Agora, com o blog, posso dizer que estou preparada para falar da doença todos os dias.”

Com comentários

Assim como Bruna encontrou no blog uma forma de lidar com a doença, outras mulheres também se utilizam dessa experiência. É o caso de Mariana Zanuto, 33 anos, há cinco travando uma dura batalha contra um tipo de câncer complicado por trazer muitas recidivas. O diagnóstico, primeiro de um câncer de mama, veio durante a gravidez de seu filho mais novo, Enzo. A opção pela mastectomia não foi fácil, mas livrar-se da doença era mais importante. O que ela ainda não sabia é que, mesmo com a cirurgia, o câncer ainda faria parte de sua vida durante muitos anos.

Mariana Zanuto posa de lenço ao lado dos filhos:
Arquivo pessoal
Mariana Zanuto posa de lenço ao lado dos filhos: "é uma forma de compartilharmos essa experiência"


Em 2008, uma tosse incessante levou-a novamente ao hospital. Mesmo com seu histórico, depois de fazer um raio-x, o médico receitou medicamentos para asma. Mas nada parecia fazer efeito.

“Um médico amigo meu resolveu fazer uma tomografia. Foi então que descobrimos novas lesões no pulmão, nos ossos e no fígado”, relata, com a tranqüilidade de quem há muito conhece a doença.

Foram dois anos e meio de quimioterapia e, principalmente, de saudades do marido e dos filhos. “Eu morava em Assis, mas lá não tinha uma assistência adequada ao meu caso. Tive que me mudar para Campinas em busca de tratamento. Desde então, fico longe dos meus filhos constantemente. O Enzo convive com a minha doença e com a minha ausência desde que nasceu”, diz.

Com tantas idas e vindas, a filha mais velha, Ana Laura, de 12 anos, teve uma ideia: criar o “ blog da Mari ”. Ana Laura acompanha de perto a página e dá pitacos no design e nas partes técnicas. “É uma forma de compartilharmos essa experiência, é importante para ela entender o que está acontecendo”, acredita Mariana. A página funciona como um diário e a família atesta os benefícios da escrita.

“Muitas vezes o blog ajuda a mante-la viva, em contato com outras pessoas, diz o pai das crianças.

Pacientes que sofrem de câncer podem realmente se beneficiar dessa prática. Um estudo realizado com 71 pessoas em uma clínica norte-americana constatou que, em três semanas, 53% deles havia mudado suas concepções sobre o problema depois de escrever sobre o assunto. Outros 38% afirmaram se sentir diferentes – para melhor – depois do período. A pesquisa foi publicada na revista científica norte-americana “The Oncologist”, que trata do assunto.

“O blog ajuda bastante. Faz você pensar um pouco no assunto, ver que não é tão grave quanto está pensando, ajuda a achar soluções”, conta. Apesar de não ter uma rotina de atualizações, Mariana tenta não se afastar mais de uma semana. Mesmo no frio, quando em geral fica mais desanimada, procura escrever.

Agora que Mariana se prepara para mais uma cirurgia no fígado, para retirar a parte danificada pela doença, outro aspecto da internet tem auxiliado nesse momento: o contato com pessoas diferentes. “Os comentários me ajudam muito.”

Estou com câncer, e daí?

Claudia Bessa, 47 anos, também encontrou nos comentários uma maneira de discorrer mais abertamente sobre o câncer. “Falei coisas que não dizia normalmente com meus amigos. Ali, eu podia falar com interlocutares similares e com pessoas interessadas no assunto Encontrei meus pares, pude trocar experiência com outras pessoas”, diz.

Com todo bom humor inerente à sua personalidade, a produtora carioca criou o blog “ Estou com câncer, e daí? ” para não importunar os amigos. “Não queria ficar falando sobre isso com as pessoas e quando você descobre, não consegue pensar em outra coisa. Para não levar um ‘passa fora’ dos meus amigos, comecei a escrever. Foi um momento para extravasar, desabafar”, relata.

Claudia passou por dois cânceres: o seu e o do pai. O dela, descoberto em 2008, foi tratado com sessões de quimioterapia que lhe levaram os cabelos, mas não a perseverança. “Sou mãe solteira, profissional liberal. Não sou do tipo de pessoa que desiste. A doença me trouxe uma nova perspectiva: pegue um limão e faça uma caipirinha”, ri. Mas, no início de 2009, seu pai adoeceu. O diagnóstico, já vivido pela família, não reduziu o impacto da notícia. E em setembro, a doença venceu e S. Bessa morreu, cercado pelos filhos e pela esposa.

Claudia Bessa, momentos antes de ir para a cirurgia de reconstrução de mama
Arquivo pessoal
Claudia Bessa, momentos antes de ir para a cirurgia de reconstrução de mama

“Botar para fora” as experiências traumáticas ajuda tanto o psicológico quanto o sistema imunológico. Já na década de 1990, o psicólogo norte-americano James Pennebaker realizou diversas pesquisas sobre a relação da escrita com o sistema imunológico. Suas descobertas foram publicadas em mais de cem artigos científicos e nove livros, entre eles, “Abra seu coração” (Ed. Gente), em que menciona especificamente seus estudos sobre saúde.

Em uma das pesquisas, 50 voluntários foram divididos em dois grupos: metade deveria escrever durante 20 minutos por dia sobre seus sentimentos mais profundos ligados a algum trauma. A outra metade sobre amenidades cotidianas. Durante o processo, amostras de sangue de cada participante foram coletadas. O resultado foi impressionante. Todos aqueles que haviam escritos sobre seus traumas apresentaram uma melhora no sistema imunológico se comparados ao outro grupo. O resultado persistiu durante seis semanas depois de finalizada a pesquisa.

Na Universidade de Dakota do Norte, nos Estados Unidos, o professor de psicologia Joshua Smith conduziu um estudo semelhante. Ele pediu a um grupo de 70 pessoas com artrite ou asma que escrevessem, durante 20 minutos, sobre situações estressantes. Outro grupo com as mesmas características escreveu sobre o cotidiano.

No primeiro grupo, após quatro meses, 50% tiveram melhoras. Houve aumento da capacidade pulmonar nos asmáticos e diminuição da dor nos que sofriam com artrite. No segundo, 24% também tiveram algum tipo de melhora.

Claudia diz que "cientificamente não sabe se escrever melhora mesmo o sistema imunológico". Ela prefere acreditar no poder dos medicamentos. De vez em quando, no entanto, continua dando um passadinha pelo blog, que há alguns meses ganhou o subtítulo "Eu tive câncer".

"Estou curada, de peito novo. Agora faço acompanhamento de três em três meses, depois passa para seis em seis. Tenho que ficar atenta, sei que estarei sempre próxima desse universo, mas continuo levando com bom-humor", relata. A produtora quer continuar escrevendo, só que sobre outros assuntos.

"Quem sabe sobre cinema, amores, culinária, criação de filhos, enfim, milhares de outros assuntos que me cercam todo o dia."

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