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Claustrofobia e medo inviabilizam a realização de diversos procedimentos médicos. Conheça alternativas para contornar o problema

O aparelho de ressonância está no topo da lista da síndrome do pânico em exames
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O aparelho de ressonância está no topo da lista da síndrome do pânico em exames
As mãos suam, o calafrio é constante. Em menos de 10 minutos, o coração bate acelerado e descompassado. O estômago revira, falta ar, dá desespero. Os sintomas típicos de pânico, para algumas pessoas, têm data, hora e local certo para ocorrer. Máquinas modernas de tomografia, ressonância magnética ou agulhas finas são responsáveis por desencadear medo, descontrole e inviabilizar a realização de exames.

Embora a tecnologia caminhe a favor da medicina, segundo especialistas, a síndrome do pânico para a realização de exames é comum e acomete 5% dos pacientes. A ressonância magnética encabeça a lista dos aparelhos mais temerosos. Na avaliação de Marcos Menezes, radiologista e coordenador ambulatório de imagens do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), o barulho da máquina, o formato - uma espécie de túnel - e a necessidade do paciente de manter-se imóvel estimulam o pânico em pessoas claustrofóbicas.

Estes fatores têm sido respeitados tanto por médicos quanto pelos fabricantes. Menezes explica que as máquinas, hoje, são menos assustadoras. A tecnologia conseguiu reduzir o barulho e deixar o túnel mais curto e arejado. Os hospitais também tentam diminuir o impacto do procedimento, investindo em ambientes claros, quentes, aconchegantes e com música ambiente.

O Icesp se esforça para contornar o problema e evitar a sedação. Além da decoração da sala, o hospital oferece um fone de ouvido que pode ser utilizado durante o exame. “Tentamos ao máximo não anestesiar. A sedação exige a presença de um anestesista, preparo e acompanhamento do paciente. Os riscos são controláveis, mas reações podem ocorrer.”

Em média, os hospitais e laboratórios realizam no máximo cinco ressonâncias magnéticas com anestesia geral por semana. O agendamento também tende a ser mais demorado. “O paciente precisa ficar em recuperação após o exame. Não há local que comporte leitos para que esse tipo de procedimento seja realizado com uma freqüência maior.”

O medo da dor

Aparelhos robustos, que limitam o movimento, não assustam menos que agulhas finas, usadas para realizar exames de punção. A diferença, segundo o radiologista do Icesp, é o tempo de duração. “Não tem sentido sedar um paciente para realizar o líquor, por exemplo. A picada é dolorida, mas o procedimento é rápido.” Nesses casos, o especialista explica que há um trabalho psicológico intenso para acalmar e tentar diminuir a ansiedade do paciente. “Muitos pacientes choram, ficam nervosos. O medo do resultado também se mistura com o receio do exame. Quando o caso é muito extremo, sugerimos o uso de anestésicos utópicos.”

Para domar a fobia é preciso entender a espiral desse processo. O organismo reflete aos estímulos provocados pelo cérebro. Os pensamentos despertam e retroalimentam a ansiedade, provocando os sintomas do pânico, ensina Antônio Hélio Guerra Vieira filho, psicanalista do Hospital Sírio Libanês. Segundo ele, técnicas de terapia comportamental estabilizam a ansiedade e minimizam a carga dramática que o paciente dá a uma determinada situação.

“Há estudos que comprovam a capacidade e os efeitos de exercícios com palavras. É possível mexer com o funcionamento cerebral, principalmente no sistema límbico – ligado as fobias. Os pensamentos geram ansiedade, e é também com eles que a controlamos.”

Nesses casos, pondera o psicanalista, um acompanhamento de dois meses, com duas sessões semanais, é capaz de trabalhar o enfrentamento do problema e o controle da fobia. O processo parece simples: a cada consulta, o médico busca aproximar o objeto ou a situação de risco do paciente, controlando os níveis de ansiedade.

Tal técnica é recomendada àqueles que percebem, face à realização dos exames, a dificuldade de lidar com determinados medos. Guerra comenta que algumas fobias são genéticas. O medo de sangue e seringas, ou heritrofobia, uma vez constatado na família, passa a ser presente em outras gerações.

Hipnose

Induzir pensamentos positivos, que transmitam conforto e tranqüilidade, é um dos princípios da hipnose. A técnica tem sido usada pelo Hospital São Camilo, em São Paulo, para tratar náusea e dor crônica, provocadas pela quimioterapia, auxiliar pacientes em tratamento na câmara hiperbárica e realizar exames de imagem como a ressonância magnética.

Falando baixinho, pausadamente, com um tom suave e desenhando verbalmente a idéia de uma praia, cachoeira ou um belo jardim, o cardiologista Luiz Velloso mantém seus pacientes em uma espécie de transe durante o tempo necessário para a realização dos exames.

Há relatos de hipnose desde o Egito antigo. A estratégia ganhou popularidade e perdeu credibilidade ao ser apresentada em espetáculos circenses no século 20. Incorporada à medicina, a técnica não tem contra-indicação tampouco riscos, mas nem todas as pessoas são suscetíveis a ela. Segundo o especialista, 10% da população não conseguem ser hipnotizadas.

“A hipnose é a indução de uma convicção. Sugestionamos uma sensação de paz. Aquele que está disposto, sente o que foi sugerido. É preciso ética, confiança do médico e vontade. Se o paciente tem alguma doença cardíaca grave, a técnica não deprime a respiração, não acelera o coração. É muito segura. O único risco é não dar certo.”

O cardiologista explica que o método leva ao chamado de estado crepuscular. O paciente não dorme, fica consciente, mas não está totalmente acordado. “Do ponto de vista do organismo, é muito parecido ao sono”, esclarece.

Para a ressonância magnética, o procedimento já é usado há dois anos pelo Hospital, na unidade da Pompéia, na zona oeste da capital paulista. O especialista revela que, nesses casos, o sucesso é de 90%. “A maioria dos pacientes gosta e aprende a meditar. A hipnose é uma forma de meditação.”

Os resultados são ainda mais animadores quando é necessário o uso da câmara hiperbárica. O equipamento não permite sedação e é uma espécie de cápsula de oxigênio. É utilizado para tratar infecções bacterianas graves. O paciente recebe doses diárias de oxigênio puro dentro da máquina.

“Antes de usarmos a hipnose, os claustrofóbicos não tinham acesso a esse tratamento. A câmara é toda fechada, pequena, assustadora para quem tem fobia.”

Desde janeiro deste ano, o método tem sido feito no equipamento e, de acordo com o cardiologista, o resultado é fantástico: “Conseguimos sucesso em todos os pacientes.”

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