Tamanho do texto

Andréia Ferraresi é a paciente mais velha a mudar de sexo via cirurgia. Em SP, um procedimento do tipo é realizado por mês

Andréia, no salão onde trabalha: fim dos rótulos e vida nova no corpo feminino
Fábio Setimio/Fotoarena
Andréia, no salão onde trabalha: fim dos rótulos e vida nova no corpo feminino
A data da alta hospitalar foi emblemática para ela: 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. Andréia Ferraresi deixou o Hospital das Clínicas em São Paulo, entrou no ônibus rumo a casa na zona norte paulistana, fechando um ciclo que começou exatamente no dia em que nasceu. Estava pronta para receber as homenagens em referência às conquistas femininas. Pela primeira vez iria agradecer aos parabéns e às flores entregues nos semáforos como “uma mulher de fato”.

“Precisei viver 68 anos para me sentir completa”, diz ela.

A certidão que aponta 1944 como ano de nascimento só há 12 meses – após autorização judicial – passou a estampar o nome Andréia Ferraresi e a palavra “feminino” no espaço destinado ao sexo. Até então, exibia a grafia Orlando e o gênero masculino.

“Nasci presa em um corpo de homem”, define.

Primeiro, a adequação foi no registro civil. Há quase 30 dias, veio a solução cirúrgica, custeada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Andréia deitou na maca hospitalar para deixar para trás os rótulos de “menino estranho”, “mariquinha”, “bicha louca” e “mulher diferente” que a acompanharam por toda a vida. Levantou dela, quatro horas depois, para carregar o título de transexual mais velha do Brasil a ser submetida a uma cirurgia de mudança de sexo.

“Desta referência, sim, eu tenho o maior orgulho”, diz ela, passando as mãos nos cabelos tingidos com mexas loiras – a tática é para cobrir a cabeleira “todinha branca” – e retocando o brilho nos lábios e a sombra pastel nas pálpebras.

“Estou tão plena que me sinto Brigitte Bardot nos tempos áureos”, brinca, ao citar a sua musa de sempre, desde os tempos em que era Orlando.

“Posso ter quase 70 anos, mas o corpo e a alma são de uma jovem de 30. Minha vida começa agora. Agora que sou mulher dos pés à cabeça.”

Saiba mais sobre a cirurgia de mudança de sexo

Uma por mês

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define os transexuais como portadores de um transtorno de gênero, que para ser classificado precisa de diagnóstico médico. Não são gays, lésbicas ou travestis. “Não existe relação com a orientação sexual. O que há é uma inadequação entre sexo de nascimento e a cabeça, as sensações, o que acarreta muitos conflitos, muito sofrimento”, explica a diretora do primeiro Ambulatório estadual de Travestis e Transexuais de São Paulo, Rosa de Alencar Souza.

Geraldo Bubniak/ Fotoarena
Carla Amaral, 37 anos, espera pela cirurgia de mudança de sexo "desde que nasceu"
“Nem todos os pacientes têm indicação cirúrgica de adequação do sexo, que é um procedimento complexo e definitivo” complementa Maria Filomena Cernitchiaro, que também atua no Ambulatório, recebendo os novos pacientes. “É preciso um acompanhamento minucioso com especialistas de várias áreas, por prazo mínimo de dois anos.”

Atualmente, 850 pessoas estão cadastradas para passar por este processo, a maioria na faixa etária entre 30 e 40 anos. “A Andréia foi a primeira paciente do nosso ambulatório (inaugurado em 2009) que encaminhamos ao Hospital das Clínicas para fazer a operação”, diz Maria Filomena.

O HC paulista é o único hospital do SUS do Estado credenciado para fazer esta cirurgia, que consiste em construir a vagina por meio dos tecidos do pênis extirpado. No Brasil, outros cinco complexos hospitalares também fazem a operação, que desde 2008 passou a ser oferecida de graça no País.

Além do Ambulatório de Transexuais, onde foi atendida Andréia, outras unidades de referência também podem fazer o encaminhamento para a operação. De 2010 para cá, já foram realizadas 21 cirurgias de mudança de sexo no HC de São Paulo, uma média de uma por mês (uma a cada 34 dias).

No Brasil, a cada 16 dias uma pessoa muda de sexo

O pós-operatório é complicado e as restrições são importantes. A vida sexual precisa ficar suspensa por 40 dias e há um controle rigoroso para evitar trombose e necrose das partes íntimas. “A partir de agora, eu vou precisar visitar o ginecologista uma vez a cada quinze dias... E o engraçado é que eu me sinto muito feliz em precisar consultar um ginecologista... um médico de mulher”, afirma Andréia.

Vestido vermelho

Até agendar sua bateria de consultas no ginecologista, Andréia fugia de médico. A primeira experiência com o “doutor” não foi agradável, lembra. “Sou a caçula de 11 irmãos e meus pais sabiam que eu era diferente de todos os outros filhos”, diz.

Andrea Ferraresi é a paciente mais velha a mudar de sexo via cirurgia
Fabio Setimio/ Fotoarena
Andrea Ferraresi é a paciente mais velha a mudar de sexo via cirurgia
Quando tinha 12 anos, aquele menino frágil e delicado, de cabelos lisos na altura dos ombros “e que em nada combinava com o nome másculo Orlando”, lembra Andréia, começou a desenvolver mamas. Eram maiores até mesmo do que os das meninas da escola e de mesma idade.

“Meu pai me levou ao pediatra porque, em suas palavras, não queria que seu garoto virasse uma franguinha. Já naquela época, mesmo sem fazer nada, foi constatado que eu tinha hormônios femininos em excesso. Queriam me mudar a força, brigar com o meu organismo. Eu nunca mais quis ir ao médico.”

A vontade era brincar de boneca, fazer comidinha, ter cintura fina e perna grossa. “Então, com 14 anos, em uma terça-feira de carnaval, resolvi colocar o vestido vermelho com bolinhas brancas da minha irmã mais velha. Olhei no espelho e me achei linda. Os vizinhos ficaram encantados, acho que foi a primeira vez que fui paquerada”, conta. “Estava andando pela Praça Roosevelt, com aquela roupa que tanto me fazia bem, e um artista de rua, com seu violão, disse que eu tinha cara de Andréia. Ele fez uma música para mim, dizendo lá vem Andréia no fim de tarde.”

Naquele instante, o Orlando foi aposentado. “O apelido pegou e virou minha identidade. Até meu pai passou a me chamar de Andréia.”

Diagnóstico e espera

Com o tempo, os cabelos foram crescendo até a cintura. As bermudas, esquecidas e substituídas pelas saias. Um dos irmãos berrava mensagens de ódio em qualquer almoço de domingo. O pai sentia vergonha. A mãe só queria dar colo para a caçula, mas a proteção materna não poupou os abusos sexuais dos vizinhos e colegas da escola de freiras.

Arquivo pessoal
O transexual Xande Santos espera a cirurgia para a retirada das mamas e do útero no SUS
“Tentei trabalhar em escritório como secretária, mas era muito preconceito. Aprendi sozinha o ofício de cabeleireira e passei a fazer bicos em salões. Em 1974, recebi o diagnóstico de transexual e a indicação para cirurgia. Mas ganhava 500 cruzeiros por mês e a operação, só feita no Exterior, custava 10 mil cruzeiros na época.”

Andréia foi vivendo “presa em um corpo de homem” e esperando que o bisturi um dia trouxesse a solução. Foi casada seis vezes e sempre ouvia dos companheiros, em momentos de despedidas, que não era uma mulher completa. “Eles, com as mãos, apontavam a região da genitália e diziam que faltava o principal. Batiam a porta e sumiam no mundo”, relembra com tristeza.

Em 2000 Andréia foi viver em Vitória, no Espírito Santo, tentando fugir da solidão que sentiu após a morte repentina da mãe, sua única guardiã. “Mas em 2008, a notícia de que o SUS passaria a fazer a operação de graça reascendeu minha esperança. Fiz as malas, voltei a São Paulo e entrei na fila de espera para fazer a cirurgia.”

Macarronada

Depois dos “dias intermináveis” de espera, no último 27 de fevereiro, Andréia foi para o Hospital das Clínicas. Teve alta no dia 8 de março e, na cozinha, preparou a sua especialidade gastronômica que é a “macarronada da mama”, com muita almôndega e molho vermelho. Celebrou o Dia da Mulher “em glória” e achou justas todas as homenagens que recebeu. Afinal, mesmo com todo o preconceito e a violência, ela sempre se sentiu, assim, plena, passando batom e defendendo o gênero feminino como seu.

Siga lendo

A fonoaudióloga Denise Mallet atende, no SUS, travestis e transexuais. Ensina este grupo a falar como mulher
Edu Cesar/Fotoarena
A fonoaudióloga Denise Mallet atende, no SUS, travestis e transexuais. Ensina este grupo a falar como mulher

A fonoaudióloga das travestis
Denise Mallet é especializada em modulação da voz para o tom feminino e atende as pacientes que o sistema de saúde costuma excluir

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.