Buscar terapias naturais nem sempre significa apenas sessões de relaxamento

As razões que levam as pessoas a procurar terapias naturais e tratamentos de medicina complementar são tão variadas quanto o leque de opções ofertadas.

Mas é comum que, entre as motivações, esteja a ideia de evitar métodos agressivos. E como a preocupação com o bem-estar mesmo durante as aplicações é comum nesses tipos de tratamento, muitos pacientes são surpreendidos por sessões inusitadas e até dolorosas. Mesmo nos tratamentos naturais, o caminho para a cura às vezes passa pelo remédio amargo.

“Na medicina convencional tem coisas que doem, você já vai tomar uma benzetacil sabendo que aquilo dói muito. Em todo tipo de abordagem pode haver algum tipo de dor, um comprimido pode dar dor de estômago. Coisas aparentemente naturais, como exercícios físicos, no dia seguinte podem ser muito dolorosas”, explica o médico Paulo Farber, doutor em medicina pela USP e presidente da Sociedade Científica de Medicina Complementar. Isso não é diferente quando se procuram opções fora da medicina tradicional.

Paola Passadore entre radiografias das costas e o colchão que deu origem à dor
Edu Cesar/Fotoarena
Paola Passadore entre radiografias das costas e o colchão que deu origem à dor
A publicitária Paola Passadore, 33 anos, trocou de colchão há cerca de seis meses. Por causa disso, passou a sofrer com fortes dores nas costas. Foi ao ortopedista, mas não encontrou alívio. Até que o pai sugeriu um profissional que já conhecia: “o cara vai te maltratar, mas você vai ficar boa”.

O terapeuta indicado pelo pai era adepto da moxabustão, uma técnica da medicina tradicional chinesa que usa os mesmos princípios da acupuntura. Mas, para estimular os pontos pretendidos, as agulhas são substituídas pela queima de uma erva. Ou seja, por fogo.

Como Paola tinha ficado impressionada com as marcas que o tratamento tinha deixado na namorada do pai, que chegou a chorar de dor durante a sessão, preferiu continuar tentando tratamentos tradicionais e esperando que o tempo cuidasse de tudo. O que não aconteceu.

“Enrolei mais de um mês com dor antes de decidir tentar. Quando não aguentava mais, fui. Tinha ideia de que ia queimar, mas não sabia quão dolorido ia ser”, conta. Depois de perguntar onde doía, ele não explicou o procedimento, pediu que Paola se deitasse e começou a marcar os pontos em suas costas. “Ele me avisou que ia doer e eu tinha que aguentar. Aí começou a queimar”, conta. No tempo de duração do tratamento, Paola sofreu e gemeu de dor. “Fiquei resistindo, como se fosse uma injeção, um tratamento médico tradicional”.

Quando terminou de tratar as costas, ele sugeriu aplicações também no pescoço e cabeça. Ela aceitou. “Mas aí começou a cair cabelo queimado a balde. Cheguei a ficar com casquinhas de ferimento na cabeça, e falhas no cabelo”. Apesar de ter achado a experiência desagradável, Paola diz que se sentiu imediatamente melhor. “Depois passa, tanto a dor do tratamento como a que você tinha antes. Eu recomendo, mas só para quem não está mais aguentando de dor, como último recurso mesmo”, afirma.

Dói mesmo

O médico Paulo Farber explica que os tratamentos da medicina tradicional chinesa, assim como os da medicina ocidental, nunca são necessariamente indolores. Pelo contrário. “Acupuntura auricular, por exemplo, se não doer é porque está errado. Isso faz parte da técnica original, é a diferença entre o ponto certo e o placebo”, diz. No caso da moxabustão, a dor também é inevitável na técnica direta, que queima a erva artemísia direto na pele. Mas, de acordo com Farber, pode ser amenizada com a técnica indireta, que usa isolantes para evitar o contato da chama com o corpo.

Acupuntura auricular: vai doer
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Acupuntura auricular: vai doer
Por isso, o tratamento deve ser adequado aos limites de cada paciente. A ideia de ter algo em brasa na própria pele foi demais para a advogada Cristiane Rocha, 35 anos. As constantes dores nas costas fizeram com que ela buscasse tratamento sem antes se informar sobre a profissional ou fazer perguntas.

“Trabalhando no centro de São Paulo, peguei um folheto de massagem e fui. Era um prédio que tem tudo, pão de queijo, contador e massagem. Ela pediu para eu deitar, fez massagem, colocou essências, me mandou ver cores diferentes. Por fim, colocou uns dez moxas nas minhas costas”, conta. “Sem saber o que estava acontecendo, comecei a sentir um queimadinho, como quando você encosta o fósforo na pele. Só aí perguntei o que era”. Depois da explicação, Cristiane pediu que o tratamento fosse interrompido.

Como a dor nas costas voltou, a advogada resolveu buscar ajuda novamente, mas escolheu fazer uma massagem para evitar o sofrimento. Desta vez, procurou um amigo terapeuta que sabia que era um bom profissional. Assim que chegou, ele ouviu suas queixas e explicou em detalhes como seria o procedimento. Mas nada disso significava que a sessão seria indolor.

“Quando ele começou a apertar com a ponta dos dedos, doía como se fosse uma chave Phillips. Eu urrava. Ele então me disse para gritar expelindo o ar, e essa forma de grito realmente aliviava”, relata. “Agora até uso a técnica no meu cotidiano”. Cristiane diz que ficou satisfeita com o resultado e costuma recomendar o profissional. Mas ela mesma nunca voltou. “Fiquei muito impressionada, mas e a coragem de passar aquela dor novamente?”

Para o presidente do Sindicato Nacional dos Terapeutas Naturistas, Milton Alves, não existe massagem obrigatoriamente indolor nem necessariamente dolorida. Tudo depende da sensibilidade do paciente. “Não pode generalizar que tem que doer nem que não pode doer. Existem pontos de comando que, quando vamos tonificar, doem. Às vezes a própria pessoa passando a mão sente alguma dorzinha. Com o tratamento, a tendência é que essa sensibilidade diminua”.

O tal martelinho

O hábito de correr da arquiteta Samara Araújo de Paula, 28, acabou rendendo a ela muita dor na panturrilha há cerca de seis meses. “A perna ficava travada, dura mesmo. Meus amigos corredores então comentaram de um fisioterapeuta que resolvia tudo, mas que usava um tal martelinho”, conta. Ela então marcou uma consulta com o profissional.

“Logo ele começou a fazer uma massagem que doía demais, parecia que estava me amassando com um rolo de macarrão. Eles ficavam em dois: enquanto um trabalhava na panturrilha, outro massageava minhas costas e de certa forma impedia que eu reagisse, porque o reflexo é muito forte”, conta. Samara diz que, apesar da dor, na mesma hora ela já sentiu a perna melhor e mais solta. “Foi então que ele falou que estava muito melhor, mas ainda tinha alguns pontos com problema e que teria que usar o martelinho”, diz. “Eu estava disposta a tudo e aceitei, mas não quis olhar. Não entendia o princípio da coisa, e ele me avisou que ia doer”.

Quando o procedimento começou, a sensação que a arquiteta teve foi bem diferente da que esperava. “Esperava um instrumento chato, mas a hora que ele começou a bater parecia cheio de agulhas. Depois de bater repetidas vezes nos mesmos pontos, vinha com uma ventosa e eu sentia sugando. Como doía muito, parecia uma eternidade. Foi dor de dar uma lacrimejada mesmo”.

Só depois do fim do procedimento é que Samara pediu para ver o instrumento. Ela se assustou ao descobrir que se tratava de um martelo com três agulhinhas, um método de terapia tradicional chinesa. “Saí de lá com três rodelas roxas de dez centímetros na panturrilha. Até agora não entendi bem o princípio, mas o negócio funciona. Melhorou na hora”. O que não passou na hora foram os hematomas, que duraram mais duas semanas.

Desmaio e hematomas

Mas nem tudo faz parte do tratamento. A professora universitária Priscila Duval, 38, teve uma experiência muito mais grave do que um simples desconforto durante o procedimento. Adepta de tratamentos com fins estéticos, como drenagem linfática e massagem modeladora, ela diz que está habituada a sentir alguma dor nas primeiras sessões. “Dói um pouquinho no começo para quem tem celulite, mas depois vai desinchando e passa”, diz.

Depois de três visitas a um SPA em Sorocaba (interior de São Paulo), Priscila finalmente conseguiu agendar horário com o profissional mais disputado do lugar. “Sempre ouvia falar de um profissional que fazia uma modeladora ótima, punha tudo no lugar, mas que doía. Nunca conseguia vaga”, conta. No final do ano passado, conseguiu.

“O cara era um baixinho, mas forte. Foi superintenso, superdolorido, ele chegou a subir na maca para fazer força. Assim que acabou, fui sair com pressa para não perder o horário do almoço. Desmaiei na hora”, diz. “Eu estava em um SPA, em uma dieta com poucas calorias, provavelmente fraca. Mas foi a intensidade da massagem que me fez desmaiar”. Priscila foi levada para um posto médico, e no dia seguinte quase não se mexia. “Não conseguia andar, não pude ir à academia. Passei dez dias toda roxa, tinha hematomas em lugares que nunca tinha tido antes”. Logo, ela descobriu que tudo isso era tratado com normalidade. “Outra profissional me disse que tem gente que já toma analgésico antes da massagem com ele. Achei uma loucura, fiquei chocadíssima”, fala. “Minha mãe diz que eu paguei para apanhar. É verdade, fui espancada”.

Milton Alves diz que, no caso da massagem modeladora com fins estéticos o procedimento deve ser superficial, nunca profundo. Além disso, é dever do bom terapeuta individualizar o procedimento, ou seja, adaptar a massagem aos limites de cada paciente.

O presidente do sindicato alerta ainda que a massagem não é uma prática sem riscos como muitos imaginam. “Tem que passar por um diagnóstico médico antes. Um paciente que vem com uma dor violenta na lombar, por exemplo, pode estar com uma hérnia de disco bem avançada que pode ser agravada. Mas se chegar com diagnóstico, posso usar a técnica de acordo. Mesmo quando eles não passam pelo médico antes, eu encaminho sempre que desconfio de uma possível hérnia ou lesão”. Por isso, ele faz campanha para a criação de um Conselho Federal que padronize cursos e requisitos para o exercício da profissão. “Nossa preocupação é que os terapeutas tenham conhecimento realmente de anatomia, patologia e fisiologia”.

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