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Novo índice da ONU revela insatisfação na relação de pacientes com médicos. Região Norte recebeu a pior nota

Dados inéditos divulgados nesta terça-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) revelam que o brasileiro não se sente respeitado pelo atendimento médico oferecido no País, tanto na esfera pública quanto na privada.

O levantamento foi feito com base na opinião de duas mil pessoas, de diferentes faixas salariais, selecionadas pelo Ibope, em 24 estados e 148 cidades para tentar mensurar experiências vividas pela população sobre o que a instituição considera fundamental ao desenvolvimento humano, nos pilares de Educação, Trabalho e Saúde – este último, batizado de IVH-S, obteve com os piores resultados da avaliação geral.

Os números compõem o Índice de Valores Humanos, um novo relatório sobre política de valores do PNUD, que reflete, de forma bastante subjetiva, a metodologia do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), publicado no Relatório de Desenvolvimento Humano elaborado pela Instituição.

Segundo Flávio Comim, economista chefe do PNUD, a intenção foi mudar os critérios dos indicadores sociais e propor um novo conceito de avaliação, baseado na psicologia social e em relatos da experiência do cidadão. “Queremos sugerir um indicador de processos, não de resultados. Olhar todos os níveis e classes sociais e conhecer a opinião da população sobre o atendimento na saúde, a qualidade da educação e o sofrimento no trabalho.”

Para mensurar a opinião da população em relação à saúde, a instituição questionou três pontos: o tempo de espera para atendimento, a linguagem utilizada pelos profissionais e o interesse da equipe médica. Os entrevistados deveriam dar uma nota de zero a 1 para as questões relativas aos três temas principais. A região norte foi a que obteve a pior nota (0, 31) no quesito “relação entre médico e paciente".

Dissecados, os dados são ainda mais representativos. De acordo com o relatório divulgado, 66,9% da população consultada no norte do País considerou demorado o tempo de espera no atendimento, 44,6% relataram dificuldade em compreender a linguagem utilizada pelos profissionais e 43,5% afirmaram sentir pouco interesse da equipe médica durante as consultas.

No Sudeste, região que obteve a maior nota (0,51), os números são expressivamente melhores, mas não o suficiente para mudar o quadro de insatisfação da população em relação ao trato da saúde no Brasil. Nesta região, mais de 43% avaliaram o tempo de espera no atendimento como demorado. A diferença pontual está na compreensão da linguagem usada pelos médicos. Apenas 7% pontuaram dificuldades na comunicação com os profissionais. Sul (0,47), Sudeste (0,51) e Centro-Oeste (0,48) tiveram médias razoáveis. Norte (0,31) e Nordeste (0,36) brigam pelo último lugar no ranking do IVH-S.

IVH-S: sudeste tem a maior média

As notas dadas pela população em cada região do País

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Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)

Na avaliação filtrada por estados da federação, a classificação ganha novos vencedores e vencidos. Minas Gerais recebeu a melhor nota (0,548) e a Bahia ocupa o último lugar, com média final de 0,207.

Embora pouco surpreendente, o resultado endossa uma realidade já conhecida pela grande maioria dos brasileiros. À medida que a renda aumenta a experiência com o setor da saúde melhora. E ainda assim, a avaliação global é insatisfatória. O PNUD buscou um perfil homogêneo de entrevistados, mas há uma expressiva maioria de pessoas com pós-graduação e ensino superior completo.

Sem objetivos pontuais, o PNDU acredita que os dados possam, de maneira geral, representar uma mudança de postura dos governos e incitar a população a buscar por direitos e reivindicar melhorias. Na área da saúde, a instituição espera que os números suscitem debates sobre a necessidade de humanização do Sistema Único de Saúde ou contribuam para melhorar e fortalecer a relação entre os profissionais de saúde – especialmente os médicos – e população que usufrui dos serviços de saúde.

“O potencial de uso desse índice ainda não foi construído. Queremos, por ora, que o governo avalie como pensa a sociedade e busque novas alternativas, formas de mudar esses cenários, e que a população questione, ajude a reformular a realidade em que vive", afirma Flávio Comim, economista chefe do PNUD.

Procurado pela reportagem do iG para comentar sobre os números, o Conselho Federal de Medicina (CFM) respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa, que vai aguardar a liberação do material para depois elaborar “uma opinião formada sobre um índice de tal magnitude.”

Veja o ranking completo:

Fonte: Pnud

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