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Pesquisa realizada durante a Copa de 2006 revelou que número de infartos atendidos foi maior durante os jogos da Alemanha

Os jalecos brancos e os estetoscópios escondem corações verde e amarelos que também vão se emocionar a partir do dia 15, estreia do Brasil na Copa do Mundo. Quando a Seleção estiver em campo, cardiologistas apaixonados pelo esporte terão de tomar para si as orientações passadas aos pacientes: controlar-se para evitar que a tensão da partida se reverta contra eles e cause um problema cardíaco, como enfarte.

Um desses cardiologistas é o santista Roberto Kalil, que cuida do presidente Luis Inácio Lula da Silva, corintiano roxo. "Sou daqueles que sofrem, gritam, choram. Minhas filhas ficaram com vergonha da minha torcida quando fomos ao estádio." Quando se trata da Seleção Brasileira, Kalil não sofre tanto. "Mas como parte do Santos está em campo, sofrerei mais", diz, referindo-se ao atacante Robinho. Para Kalil, o escritor Nelson Rodrigues e tantos outros torcedores, "futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes".

Uma prova disso está num estudo que analisou a ocorrência de enfartes em dias de jogos do Mundial. A pesquisa foi feita em 2006, durante a última Copa, na Alemanha, e será realizada no Brasil este ano (leia boxe abaixo). O resultado mostrou que, em dias sem jogos, entre nove e 22 casos de enfarte foram atendidos. Na primeira partida da Alemanha, foram 44.

Para o cardiologista do Instituto do Coração (Incor) Luiz Antônio Machado César, os enfartes são provocados por uma descarga de estresse. "Em situações agressivas, o organismo libera adrenalina. E isso pode provocar o rompimento de uma placa. O músculo fica sem receber sangue e acontece o enfarte." O perigo é o mesmo para os que têm fatores de risco para a doença (como tabagismo, sedentarismo e pressão alta) e para os que nunca foram ao cardiologista, mas podem ter problema cardíaco ainda não confirmado.

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Mas como torcer para o Brasil sem ter a saúde abalada? O cardiologista Ari Timermam, corintiano, acha que torcedores devem mudar o olhar sobre o futebol. "Esporte não é guerra. A derrota faz parte e a vida segue", diz. É essa filosofia, incorporada a sua rotina e a seu bom humor, que impede Timermam de se abalar quando seu time perde uma partida. "Também me cuido há anos. Faço caratê e tenho uma alimentação saudável, o que diminui o risco de problema cardiovascular."

Aos torcedores fanáticos, os três especialistas recomendam que não deixem o futebol interferir em suas vidas. Os que já têm problemas cardíacos diagnosticados devem continuar seu tratamento, evitar muito sal e álcool. O mesmo vale para os que acreditam ser saudáveis - com a ressalva de procurar um especialista para conferir a saúde do coração.

Torcedores do bairro da freguesiá do Ó exibem bandeirão que será usado durantes os jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo, zona norte de São Paulo
AE
Torcedores do bairro da freguesiá do Ó exibem bandeirão que será usado durantes os jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo, zona norte de São Paulo

Pesquisa rastreará ocorrência de enfartes durante a Copa

O impacto dos jogos da Seleção Brasileira no coração dos torcedores será avaliado este ano durante a Copa do Mundo. A Sociedade Brasileira de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) fará uma pesquisa em 15 hospitais para verificar as ocorrências de enfartes um dia antes de partidas brasileiras, no dia da disputa e dois dias depois do jogo. "A ideia é verificar se o número de eventos cardíacos aumenta em dias de jogos da Seleção", explica o presidente da entidade, Álvaro Avezum.

O cardiologista afirma que a intenção do estudo também é verificar se a emoção provocada por uma vitória ou derrota causa impacto negativo no coração dos torcedores. A previsão é que os dados sejam coletados em hospitais de diferentes cidades do País. Será montada uma ficha com o perfil de cada paciente, que terá informações como: se é fumante, se bebe e se sofreu algum estresse intenso no último ano. Avezum diz que optou-se por fazer a coleta dos dados um dia antes do jogo, no dia da disputa e até dois dias depois porque o enfarte pode não acontecer durante a partida. "Mas, se o torcedor remoer aquela emoção negativa, o enfarte pode vir antes ou depois do jogo. Por isso é preciso vigilância."

Comparativo

O cardiologista acrescenta que essa pesquisa servirá de base comparativa para a Copa do Mundo de 2014, que será realizada em território brasileiro, quando será feito um levantamento semelhante sobre o tema. "Sendo aqui, poderemos monitorar os números de acidentes cardíacos com uma abrangência maior. Esta primeira pesquisa não serve de base para refletir a realidade brasileira", diz.

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