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O mercado de trabalho dos dentistas mudou. Até pouco tempo, quem terminava a faculdade de Odontologia precisava montar o próprio consultório ou trabalhar em clínicas privadas para iniciar a carreira. O serviço público está se tornando a porta de entrada na profissão. Quase um terço dos 220 mil dentistas que atuam no país possui vínculo trabalhista com o setor público. Entre 2002 e 2009, o número de dentistas contratados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) saltou de 40.205 para 59.958, o que representa um aumento de vagas de 49%.

O grande crescimento ocorreu no Programa Saúde da Família. Em 2002, o programa possuía 4 mil equipes de saúde bucal. Agora, são 19 mil equipes. Cada equipe possui um dentista e um auxiliar técnico, responsáveis por desenvolver atividades de prevenção e tratamento em 1 mil famílias. As áreas de trabalho são divididas por regiões em cada município. Com isso, o perfil do trabalho do dentista também mudou. Em vez de esperar o paciente chegar ao consultório, ele precisa mapear a região onde atua e planejar as ações de atendimento às famílias.

A maioria dos dentistas que trabalham no Programa de Saúde da Família (68%) tem menos de 40 anos. Dos 19 mil profissionais que atuam nas equipes de saúde bucal, 34% (6.499) têm menos de 30 anos. Os números mostram que o serviço público está sendo o primeiro emprego de muitos dentistas. É a primeira vez que isso acontece no Brasil. O SUS se tornou o grande empregador da odontologia no país, afirma o coordenador nacional de Saúde Bucal do Ministério da Saúde, Gilberto Pucca.

Com a ampliação dos postos de trabalho no serviço público, o Ministério da Saúde decidiu pesquisar o perfil dos dentistas que atuam no SUS. O levantamento faz parte da pesquisa Perfil Atual e Tendências do Cirurgião Dentista Brasileiro, realizado pela estação da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo da Rede de Observatório de Recursos Humanos em Saúde do Brasil, órgão vinculado ao ministério. A pesquisa foi feita com base em dados de diferentes órgãos como IBGE, Ministério da Saúde e Ministério da Educação.

Ana Estela Haddad, uma das autoras da pesquisa, a mudança do profissional de odontologia ligado ao SUS traz um novo desafio: melhorar a formação deles. O estudo mostrou que 92% dos dentistas do SUS possuem apenas a graduação. Para ela, é preciso aumentar o número de cursos de especialização em saúde da família para atender esses funcionários.

Hoje, estamos oferecendo essa especialização para 4,5 mil dentistas na Universidade Aberta do SUS. O importante agora é ampliar esse atendimento, defende Ana Estela, que também é diretora do Departamento de Gestão da Educação na Saúde do Ministério da Saúde.

Nas universidades

Gilberto Pucca afirma que outro desafio será modificar a formação dos futuros dentistas. Os currículos das universidades ainda precisam ser ajustados às necessidades do serviço público de saúde.

As universidades brasileiras não adequaram os currículos de Odontologia às necessidades epidemiológicas do país. Precisamos de profissionais com formação clínica geral, que consigam fazer planejamento de serviço e conheçam o SUS. Até hoje, estávamos especializando os universitários ainda na graduação, o que é um problema, ressalta.

Os dados da pesquisa também revelam que as vagas dos cursos de Odontologia estão se descentralizando no país. Um ponto considerado extremamente positivo pelos especialistas. Ana Estela Haddad lembra que, apesar do grande contingente de dentistas do país, a distribuição deles pelo território brasileiro não é a ideal. No Sudeste, se formam muito mais dentistas do que na região Norte. Mas o aumento da interiorização dos cursos já pode ser percebida, comenta.

Em 2004, concluíram o curso de Odontologia 5.252 universitários da região Sudeste. Em 2008, o número caiu para 4.131. Na região Norte, ao contrário, a situação se inverteu. Em 2004, 288 estudantes se formaram dentistas.

Em 2008, a quantidade de profissionais formados saltou para 540. Cruzamos dados de todas as entidades odontológicas do país e percebemos também que as perspectivas de emprego e salários são melhores no Norte do país, porque o mercado está saturado em regiões como a Sudeste, enfatiza Ana Estela.

Pucca espera que as equipes de saúde bucal do SUS aumentem ainda mais este ano. A meta é alcançar 110 milhões de pacientes atendidos até o final de 2010. Para isso, serão montadas mais 1,5 mil equipes de dentistas e técnicos em odontologia. É importante que ressaltar que, com a expansão dos serviços de saúde bucal no SUS, a população passou a exigir do Estado brasileiro o direito ao atendimento odontológico, que historicamente estava distante da maioria, diz Pucca.

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