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O Conselho Federal de Medicina (CFM), de forma inédita, convocou um grupo de representantes de sociedades médicas, universidades e cirurgiões com o objetivo de atualizar os procedimentos usados na cirurgia bariátrica. Entre as decisões está o aval para a utilização de técnicas semelhantes à já usada na redução de estômago para o controle do diabetes, uma das doenças que mais mata a população.

Esta técnica ainda não é regulamentada, mas, mesmo sem aprovação do CFM, algumas clínicas e hospitais realizam o procedimento. O apresentador de televisão Fausto Silva, por exemplo, foi um dos que se submeteu a ela. Ontem, no entanto, a Justiça Federal de Goiás proibiu o médico de Faustão, Áureo Ludovico de Paula, de operar mais pacientes com previsão de R$ 100 mil pagos por cada cirurgia realizada sem permissão. A estimativa é que 400 pessoas já tenham sido operadas por Ludovico.

Enquanto a técnica cirúrgica não passar por avaliação da junta médica reunida pelo CFM, a prática permanece irregular no País. Será responsabilidade desta câmara de médicos avaliar se, além dos obesos, os diabéticos também podem ser beneficiados pela cirurgia bariátrica, além de modernizar outras práticas da cirurgia. As reuniãoes já começaram, mas ainda não há um prazo para que as decisões sejam anunciadas.

No Brasil, a cirurgia bariátrica foi aprovada como procedimento médico no ano 2000. Na última década, a ciência trouxe muitas novidades, entre elas, a possibilidade de usar os procedimentos bariátricos como solução para os que precisam controlar diariamente a insulina e são privados do consumo de diversos alimentos.

A necessidade de uma cirurgia como esta é reforçada pelo número de pessoas que sofrem da doença. Hoje, segundo o último diagnóstico nacional, feito em novembro, 21 milhões de brasileiros convivem com o diabetes. Só no público feminino, o problema metabólico ocupa o 10º lugar no ranking de mortalidade, ao lado de problemas como infarto, derrame, HIV e câncer, informou o Ministério da Saúde.

Pesquisas clínicas

Em paralelo à polêmica em volta da cirurgia feita em Fausto Silva, pesquisas clínicas sérias estão em andamento para avaliar a eficácia desse tipo de cirurgia bariátrica no controle do diabetes. Existem hoje ao menos três grandes estudos do tipo (dois no Estado de São Paulo e um Pernambuco) sendo conduzidos por universidades.

As conclusões iniciais, ainda muito embrionárias, indicam que ao reduzir o estômago a anatomia do órgão é modificada, em uma técnica chamada interposição de íleo. Com isso, a produção de hormônios ligados ao diabetes também é alterada, culminando no controle da doença.

Os resultados, no entanto, não são conclusivos. Não há comprovação de que a técnica resolva o problema a longo prazo, não se sabe de que forma o fígado é comprometido no processo após cinco anos de cirurgia ou quais as outras seqüelas da técnica no organismo.  Um dos objetivos do novo grupo formado pelo Conselho Federal de Medicina, inclusive, é justamente separar de forma clara o que é pesquisa clínica do que é experimento médico não regulamentado e irregular.

Ao mesmo tempo em que não querem que a ciência saia prejudicada com o fim dos estudos clínicos, os especialistas temem que a população seja ludibriada com informações sobre a cura do diabetes e acabem pagando por cirurgias ainda sem risco e benefício comprovados.

Pacientes X cobaias

Luiz Vicente Berti, médico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, diz que os primeiros passos da pesquisa sobre o controle cirúrgico do diabetes projetam um caminho promissor a ser seguido, mas todos os procedimentos precisam seguir à risca os protocolos de pesquisa científica realizadas em seres humanos. Isso inclui, ressalta, autorizações de comissões de ética e também dos pacientes submetidos ao estudo. Nos protocolos que trabalhamos, fazemos deste jeito, diz Berti.

Mesma ressalva faz o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ruy Lyra da Silva Filho. O Brasil é um dos países que mais burla evidências científicas. Os procedimentos vêm sendo utilizados sem a validação da ciência. Achismo não tem lugar na medicina, afirma Filho.

Ele diz que as pesquisas feitas em universidades são importantes para o avanço da medicina, mas que os resultados precisam ser avaliados a longo prazo. Essa cirurgia para o diabetes ainda não pode ser usada na sociedade em geral. As pessoas que são submetidas não deixam de ser cobaias, até que passemos a ter evidências sólidas do resultado. Isso leva anos, alerta o presidente da SBD. Mesma cautela tem Ricardo Meirelles, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Ainda é preciso esclarecer qual ou quais as técnicas cirúrgicas mais apropriadas, quais os eventuais riscos e efeitos adversos, quais os pacientes que poderiam se beneficiar da cirurgia e se os resultados desta operação representam alguma vantagem sobre os atuais tratamentos clínicos disponíveis, que têm evoluído bastante, pondera Meirelles.

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