Clínica de desintoxicação tem um dia mais caro que no Copacabana Palace

Aumenta a procura da classe média alta por tratamento contra o crack

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro | 05/07/2010 16:30

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Nos últimos anos o crack deixou de ser uma droga restrita a moradores de rua e pessoas de baixa renda e chegou à classe média brasileira. O fato é uma constatação de clínicas de desintoxicação química, que passaram a receber pacientes com este quadro de dependência. Estes lugares, que antes atendiam a pacientes, em sua maioria, viciados em cocaína e heroína, têm se adaptado a uma nova realidade: a elite está procurando tratamento para combater o vício dessa droga que é, segundo os médicos, dez vezes mais violenta do que a cocaína. Segundo o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas - Nepad/UERJ, os casos de dependência por crack aumentam ano após ano.

A reportagem do iG visitou o Núcleo Integrado de Psiquiatria, uma clínica de desintoxicação voltada para um público de classe média alta, disposto a pagar mais de R$ 800 de tratamento por dia – incluindo aí a diária (R$ 400), gastos com medicação e honorários de médico individual. Para efeito de comparação, uma diária numa suíte simples do Copacabana Palace, um dos mais luxuosos hotéis do país, custa a partir de R$ 700. Apesar do preço, nesta primeira semana de julho a ocupação é de 100%. E há uma lista de espera.

Foto: Hélio Motta

Psiquiatra Marcos Gebara, da NIP: "Vem crescendo número de dependentes de crack"

A internação para o processo de desintoxicação varia de 15 a 20 dias. Ou seja, o valor do tratamento pode chegar a R$ 16 mil. Não há parceria com planos de saúde ou com o SUS. O pagamento é à vista. E este é apenas o começo de um grande percurso. “Depois que a pessoa passa por aqui, dependendo do quadro clínico, ela é encaminhada para um tratamento ambulatorial ou para clínicas de internação. É bom ressaltar que é muito comum o dependente de crack ter várias recaídas, a chance de recuperação total é muito pequena”, afirma o psiquiatra Marcos Gebara, diretor-técnico da NIP.

O usuário de crack de classe média alta é “novidade”, por isso mesmo as clínicas de desintoxicação têm, aos poucos, se aperfeiçoado para receber este tipo de paciente. A clínica, que funciona desde 1993, fica localizada na Barra da Tijuca, bem próxima às mansões do Joá, na zona oeste do Rio. São 14 suítes disponíveis em quatro andares de um discreto prédio em uma rua residencial do badalado bairro carioca, a uma quadra da 16ª DP. Logo na entrada, vê-se a diferença da NIP para uma outra clínica qualquer. A recepção parece com a de um hotel, com atendentes atrás de um balcão, sorridentes e discretas. Revistas antigas de semanais que já abordaram o tema das drogas em suas capas ficam dispostas sobre uma mesinha de centro, no hall de entrada: “Como afastar os jovens das drogas”, “A vida após a morte”, “Como vai a nossa saúde”...

Perfil dos pacientes

O perfil do paciente viciado em crack que procura ajuda no local é de jovens entre 20 e 30 anos, alta escolaridade e, por pouca diferença, homens em sua maioria. Não são raras as vezes em que o paciente chega na clínica obrigado pela família e, em alguns casos, com auxílio da força policial. “Neste caso, comunicamos ao Ministério Público. Temos também ambulância para buscar a pessoa em casa, quando tem alguma crise grave de abstinência ou de overdose”, conta Marcos Gebara.

Foto: Hélio Motta

Um centro de tratamento intensivo faz parte da clínica que recebe pacientes para desintoxicação

O diretor conta que o paciente viciado em crack, assim como o de outras drogas pesadas, tem alucinações, perde a consciência do convívio social e, a médio prazo, não tem mais a capacidade de manter um emprego ou qualquer relação saudável. “O crack é mais forte porque é feito a partir da essência bruta da cocaína. No primeiro uso, já age diretamente no cérebro humano de forma negativa. A medicina diz que é possível regenerar neurônios mortos, mas é um processo lento e demorado”, afirma.

Gebara explica que o crack mexe com a estrutura emocional de todos os envolvidos próximos ao viciado. “Para uma família, só o fato de saber que ele passará por aqui e terá uma, duas, três semanas de descanso e tranquilidade, já basta”, diz. Não é possível prever, ele diz, quando será a próxima recaída. “Nestes casos, ele sai daqui e vai para outro tipo de tratamento, de internação”, continua.

O NIP não atende apenas a casos de dependentes de crack. “Eles correspondem a 20% das internações mensais, mas também temos gente com transtorno bipolar, depressão e idosos com esquizofrenia”, diz o diretor-técnico. Famosos, empresários e até estrangeiros já foram internados ali. Em outubro do ano passado, foi lá que o cantor Felipe Dylon se internou por uma semana. “Não tinha hora para acordar ou

Foto: Hélio Motta

Discrição e bom atendimento na clínica voltada ao público classe A

dormir. Não cheguei a compor, mas tocava muito violão. Me alimentava muito bem. No pátio do primeiro andar, podia pegar vários tipos de sanduíche, era como estar numa padaria. Tinha bolinhos, doces, muffins”, disse o cantor em recente entrevista ao iG.

Luxo com limites

No NIP, o paciente é tratado com todos os cuidados de um hospital, mas sem se sentir internado. Os corredores são amplos e iluminados. As janelas contêm grade, mas receberam um tratamento de acrílico que alivia o efeito de “prisão”. Um jardim interno muito bem cuidado permite que eles se relacionem entre si em determinadas horas do dia. Ali mesmo, uma lanchonete vende refrigerante, salgadinhos, bolo de chocolate, sanduíches e doces em geral. A atendente é uma das cozinheiras que, como as demais, usa toca e luvas. Os cuidados de higiene são extremos. “Só não há carpete, como em hotéis, porque a Anvisa proíbe este uso em unidades de saúde”, explica a enfermeira-chefe Graziella Barreto. Dois elevadores funcionam com chaves, para evitar que os internados usem sem autorização prévia.

Os suportes de cortina são de plástico, para evitar que haja tentativas de suicídio. O cano do chuveiro não tem parafusos e também é de plástico, evitando que pacientes se pendurem no alto. As suítes não têm fechadura. Os quartos são decorados com mobília em tons claros. Cama de solteiro, armário amplo, criado-mudo, frigobar, uma poltrona e, se o médico permitir, também têm televisão e aparelho de DVD. Na sala de terapia ocupacional, uma mesa de ping-pong divide espaço com telas para pintura. Na sala de leitura, enciclopédias e revistas. Telefone só nos corredores e na recepção. Há ainda um espaço para exercícios corporais e um refeitório com TV de plasma de 42 polegadas. Por fim, um Centro de Tratamento Intensivo (CTI), com capacidade para quatro pessoas.

Foto: Hélio Motta

Quadros do humorista Chico Anysio decoram uma das salas

A sala de um dos médicos é decorada com dois quadros do humorista Chico Anysio. Móveis com design moderno e cadeiras de couro para receber parentes dos pacientes completam o consultório.

Comida personalizada

Esqueça os pratos sempre iguais, de pouco – ou quase nenhum – tempero, servidos em hospitais. Na NIP, o paciente, assim que dá entrada, recebe um formulário para responder sobre seus gostos alimentícios. Se prefere carne vermelha, peixe ou frango; tipo de tempero, frutas e modo de preparo dos ovos, além de sucos e refrigerante. A nutricionista Sandra Moura fica atenta a cuidados adicionais. “Tem gente que é diabética, hipertensa. Tudo isso tem que se levar em conta, a hora de preparar cada prato”. O bom cheiro da comida varre os corredores próximos, na hora do almoço. Como em um restaurante, se não fosse por um detalhe: os talheres, claro, são todos de plástico.

Em época de Copa do Mundo, os pacientes são convidados a verem os jogos na sala do pátio externo, no jardim. É permitido comprar, na lanchonete, salgadinhos para embalar as partidas da Seleção.

Enquanto caminhava pelos andares, mostrando as dependências do local para esta reportagem, o psiquiatra Marcos Gebara cumprimentava os pacientes pelo caminho. Chamando todos pelo nome. Como se fosse o gerente de um bom hotel. Atrás dele, portas pesadas, de ferro, com duas grandes fechaduras, iam sendo fechadas por funcionários.

Foto: Hélio Motta

Comida preparada de acordo com o gosto de cada paciente


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