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Tenho 57 anos de idade, trabalho há 41 anos. Estou ainda longe de uma aposentadoria formal e sempre vi minha mãe trabalhar, do início ao fim da vida dela. A diferença pra um homem está nos detalhes, pois historicamente o homem foi incumbido de prover e a mulher de cuidar da casa. Mudar a regra desse jogo tem um custo alto e pedir licença pra ocupar lugares masculinos nos levou para as estatísticas. Dados do levantamento do 3º Relatório de Transparência Salarial, divulgado pelo Governo Federal e baseados nos números do Relatório Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024, com análise de 19 milhões de vínculos, mostram que mulheres recebem 20,9% a menos que homens no Brasil.

Quando o assunto é saúde mental, chegamos a dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Eles mostram que mulheres têm aproximadamente 1,7 a 2 vezes mais chance de desenvolver transtornos de ansiedade ao longo da vida em comparação com homens e um fator social relevante é a dupla jornada. Os números provam que descansamos menos. Há alguns anos li uma tirinha que brincava com a realidade de um casal na hora de ir dormir. Apesar da mulher dizer que ia dormir, antes, separava o uniforme do filho, tirava comida do freezer, adiantava os itens pro café do dia seguinte, entre outras coisas. Em contrapartida, o homem dormia primeiro. Pois apenas trocava de cômodo, saindo da sala para o quarto, se deitando em seguida.

Há séculos, mulheres pioneiras lideram transformações no Brasil e no mundo. E a parceria com homens, que não se sentem pressionados pelo estilo diferente de atuar, facilita a reconquista de um posto que pode ser de qualquer pessoa qualificada e preparada, independente do gênero. O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é uma data histórica, oficializada pela ONU em 1975, que visa combater a desigualdade, o machismo e a violência contra a mulher.

O Brasil registrou 1. 518 casos de feminicídio em 2025, o maior número da série histórica desde que a Lei do Feminicídio foi criada, em 2015. Isso representa em média cerca de 4 mulheres mortas por dia por razão de gênero.

Cansa essa disputa por espaço e poder. Mas, já estivemos outras vezes na ponta mais forte. A história antiga foi moldada por mulheres que, assumiram o poder, lideraram exércitos, governaram impérios e influenciaram a política e a cultura. Marylène Patou-Mathis é reconhecida como uma das principais especialistas em pré-história e é diretora de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) da França, vinculada ao Departamento Homem e Meio Ambiente do Muséum national d'Histoire naturelle (Museu Nacional de História Natural) em Paris.  É autora do livro "O homem pré-histórico também é mulher" (título original: L'homme préhistorique est aussi une femme), onde contesta visões tradicionais sobre os papéis de gênero na pré-história.

Na obra, a autora esmiúça como o imaginário coletivo, criado por arqueólogos e historiadores do século XIX e início do XX, relegou a mulher ao segundo plano, evidenciando a força e a importância das mulheres ancestrais. Diferente das sociedades modernas, Patou-Mathis sugere que as sociedades nômades de caçadores-coletores eram muito mais igualitárias, pois acreditavam que a sobrevivência dependia da colaboração de todos, sem subordinação estrutural da mulher.

Basta uma busca para encontrar nomes de outras mulheres, como Boudica, falecida em 60/61 d.C., foi Rainha da tribo celta dos Icenos e liderou uma grande revolta contra o Império Romano. Enheduanna foi considerada a primeira autora e poetisa conhecida na história, exercendo imenso poder religioso e político na Mesopotâmia no século XXIII a.C., Joana d'Arc viveu entre 1412e 1431 e liderou tropas na Guerra dos Cem Anos, crucial para a coroação de Carlos VII.

E dessa forma, avançamos na busca de histórias que mostram o quanto tempos que brigar para sermos ouvidas. Caso de Alice Ball, química que desenvolveu um tratamento eficaz contra a hanseníase (então chamada de lepra) em 1916. Morreu pouco tempo depois, aos 24 anos e, Arthur L. Dean, presidente da Universidade do Havaí e supervisor do trabalho dela, continuou a pesquisa e renomeou o tratamento como "Método Dean", sem dar o crédito par Alice.

Segundo Cristiane Boog, psicóloga clínica e terapeuta integrativa, o apagamento das mulheres é uma estratégia da cultura machista para manter o poder e a soberania do homem na sociedade. Para ela, “isso acaba sufocando as forças da alma, da arte, da espiritualidade, da sacralidade do corpo, do prazer e da magia. O processo de cura feminina é uma trajetória que precisa abranger processos pessoais juntamente com o entendimento das questões socioculturais, fatores que, muitas vezes, validam os traumas sofridos. O retorno a si é gradual e não há um pódio de chegada e sim uma espiral de desenvolvimento constante”.

Em pleno século XXI, ainda nos deparamos com comportamentos similares, onde as mulheres ainda lutam por mais voz, mais espaço, mais apoio, mais autonomia, quando já deveríamos ter entendido que não há necessidade de competir e que deveríamos aproveitar essa data ainda necessária, que é o oito de março, pra fazer algo diferente para as mulheres, ou seja, oferecendo muito mais do que uma rosa.

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