Estatísticas do Instituto Sou da Paz apontam o Grajaú como o terceiro distrito com mais casos de violência sexual e feminicídio em São Paulo, mas uma iniciativa corajosa utiliza o esporte para promover a reeducação social e conscientizar jovens de toda uma comunidade para construir um futuro melhor. Estou falando do projeto Rugby pela Igualdade, que há mais de quatro anos, ensina o esporte para crianças e adolescentes de 6 a 14 anos.
O projeto reúne alunos através do Centro da Criança e do Adolescente do distrito e as atividades são oferecidas no Instituto Anchieta Grajaú, organização social fundada em 1994, que nasceu da mobilização de um grupo de amigos que passaram a pensar em soluções para oferecer acesso à moradia, educação e cultura na periferia, com a missão de acolher crianças, jovens e as famílias deles em situação de vulnerabilidade. Assim, se tornaram referência comunitária, atuando de forma integrada nas áreas de desenvolvimento humano, meio ambiente e profissionalização.
Todo esse trabalho conta com uma parceria com a ONG Hurra, Associação sem fins lucrativos, fundada em 2009, que usa metodologia que ratifica que educação através do esporte contribui diretamente para ajudar crianças e jovens nos quatro pilares da educação integral proposta pela UNESCO: aprender a SER, aprender a CONVIVER, aprender a CONHECER e aprender a FAZER. Essa mobilização viabiliza transformação social, com uma equipe de mais de 90 profissionais que realiza atividades socioeducativas, culturais, esportivas, ambientais e assistenciais. Dentre as práticas esportivas propostas pelo projeto está o Rugby, que chegou pra quebrar paradigmas e provar que qualquer pessoa pode praticá-lo. Vale lembrar que o Rugby foi criado em 1823, chegou ao Brasil 68 anos depois e lá Grajaú se tornou instrumento de reflexão e inclusão social.
As aulas do Rugby pela Igualdade acontecem duas vezes por semana, para 265 alunos, sendo a maioria meninas. Vale lembrar que a o início do Rugby feminino no Brasil é datado de 1997 e lá no Grajaú conta com a Gabriela Borba, educadora na Associação Hurra, que é responsável pelo projeto no Instituto Anchieta Grajaú desde 2024 e com a aluna Emily Dias, que hoje está com 12 anos, quatro praticando o esporte.
Gabriela é bacharel em Educação Física, especialista em condicionamento Físico aplicado à Prevenção Cardiológica, mestre em Atividade Física Adaptada e atleta de rugby desde os 16 anos. No projeto, desenvolve aulas de rugby com crianças e adolescentes utilizando o esporte como ferramenta educativa e de formação de valores. Além disso, participa da iniciativa Rugby Pela Igualdade, que busca incentivar e ampliar a participação de meninas e mulheres na modalidade por meio de encontros, eventos e espaços seguros de troca.
Ela conta que o que há de mais precioso na execução desse projeto é perceber o potencial que as meninas têm quando encontram um espaço seguro para se expressar e se desenvolver. Lá, o rugby acaba sendo muito mais do que um esporte, ele se torna uma ferramenta de formação, construção de identidade e fortalecimento pessoal. "Trabalho com jovens tão determinadas, mas que muitas vezes vivem em contextos de vulnerabilidade. Meu sonho é que elas reconheçam suas próprias forças, aprendam a se posicionar no mundo e percebam que têm capacidade de ocupar diferentes espaços na sociedade.”, conta a educadora. Através do esporte, o projeto busca desenvolver lideranças, fortalecer a autoestima, além de mostrar que elas podem acreditar em suas próprias potencialidades.
Uma das atletas do projeto é Emily Dias dos Santos, que tem 12 anos, cursa o 8º ano e participa das atividades de Rugby todas as quintas-feiras. Emily mora em uma ocupação na região do Grajaú, na zona sul de São Paulo. Ela conta que gosta de praticar esporte desde criança. “Quando conheci o Rugby, percebi que, é diferente do futebol, porque meninos e meninas jogam juntos. Isso me chamou muita atenção.” Ainda ressalta que jogar traz mais calma do que quando está em casa e que o esporte lhe trouxe amigos e acolhimento, principalmente da educadora Gabriela, que: “nunca deixou que um menino tratasse nenhuma menina de forma diferente”, pondera a aluna.
Para o futuro, ela espero continuar tendo a oportunidade de estar nesse meio, pois quer se tornar uma atleta profissional. “Mesmo que isso não aconteça, meu desejo é continuar trabalhando com esporte, porque é algo que eu realmente amo”, conclui Emily.
Que a união de esforços permita mais do que reflexões, mas se transforme sempre em ações como essa, que incentiva, mostra caminhos, empodera e conscientiza toda uma comunidade e uma nova geração.