Bip Bip, como é conhecido, se orgulha das duas carreiras que construiu para se sustentar
Arquivo pessoal
Bip Bip, como é conhecido, se orgulha das duas carreiras que construiu para se sustentar


Nos últimos anos, o Brasil tem vivido uma transformação silenciosa, mas profunda, na forma como as pessoas ganham dinheiro e constroem as trajetórias profissionais. A ideia de seguir uma única carreira ao longo da vida já não reflete a realidade de milhões de brasileiros. Hoje, reinventar-se deixou de ser exceção e passou a ser estratégia.

Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas mostram que cerca de 30% da população adulta já está envolvida em algum tipo de empreendedorismo, enquanto milhões de brasileiros planejam abrir seu próprio negócio nos próximos anos. Esse movimento não nasce apenas do desejo de autonomia, mas também da necessidade diante de um mercado de trabalho instável e cada vez mais seletivo.

Nesse cenário, as pessoas acima dos 50 anos têm se destacado nesse processo de reinvenção. Muitos, diante da dificuldade de recolocação formal, frequentemente atravessada pelo preconceito etário, encontram no empreendedorismo, na informalidade e nas novas formas de trabalho uma alternativa viável para encontrar o sustento.

O que esses dados revelam é que o mercado de trabalho está deixando de ser linear e surge um modelo mais dinâmico, em que coragem, flexibilidade e aprendizado contínuo são tão importantes quanto a experiência acumulada.

Mais do que buscar um novo meio de ganhar dinheiro, o que está em jogo é uma mudança de mentalidade. Reinventar-se não significa abandonar o passado, mas ressignificar a própria trajetória, transformando conhecimento, vivências e habilidades em novas possibilidades.

Conversei com duas pessoas com trajetórias inspiradoras: Marco Antônio Corrêa, 67 anos, divulgador de talentos desde 1978 e Ana Cristina Bidu, 51 anos, produtora artística desde 1995. Ambos vêm passando por um momento de adaptação do mercado de trabalho e buscaram atividades complementares para continuarem economicamente ativos.

Marco Antônio é conhecido no meio artístico, como Bip Bip, já trabalhou em grandes gravadoras e, hoje, atua de forma autônoma divulgando artistas e profissionais de diversas áreas. Ao longo da carreira, decidiu estudar algo que sempre gostou de fazer: cozinhar e, em 2015, se formou como gastrólogo pela HOTEC (Faculdade de Tecnologia em Hotelaria, Gastronomia e Turismo de São Paulo) e fez diversos cursos complementares para preparar massas e molhos, ceviches e sushis. Mas, o que era apenas um hobby, acabou se tornando fonte de renda, diante dos desafios ligados a sua principal atividade profissional.  Mas Bip é uma pessoa corajosa e  sempre tem fé de que vai dar certo: “Eu não vou parar de trabalhar nunca, nem morto. Tenho muitos boletos pra pagar e eu preciso me virar. Um deles é o da escola da minha filha, de 10 anos. Isso é o meu maior motivo para sair às ruas e buscar recursos”, conta.

Ele, que já teve fábrica de massas artesanais, continua assessorando artistas, faz marmitas e oferece o serviço de “chefe em casa”, onde leva a experiência de fazer comidas japonesas, ceviches e pokes havaianos, com sua simpatia e suas diversas histórias de vida.

Ana Bidu se reinventa profissionalmente sempre com muita coragem
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Ana Bidu se reinventa profissionalmente sempre com muita coragem



Já Ana Bidu, como é conhecida, conta que tem sempre coragem pra seguir em frente, mesmo depois de uma tempestade. Ela relatou que sempre teve desafios na vida e nunca teve medo de atuar em outras frentes em momentos difíceis, como fazer limpeza nas casas, ser motorista de aplicativo ou vendedora de roupas e joias: “Minhas contas, meu sustento e meus sonhos não podem parar. Tenho um Deus que me rege e ele nunca me deixa cair, nunca”.

Ana é formada em jornalismo e rádio e tv e tem pós-graduação em teoria da comunicação, mas nem sempre consegue o sustento de trabalhos nessas áreas e precisa retornar às atividades complementares, como agora: “Sempre haverá preconceito por parte das pessoas, mas ninguém me sustenta. Quem criou uma filha sozinha, sem ter ajuda, como eu, sabe o que estou dizendo. Sofri preconceito desde que resolvi ser mãe solteira, mas ergui minha cabeça e sigo lutando”, E hoje, voltou a trabalhar como motorista de aplicativo e vender roupas da loja de uma amiga até conseguir se recolocar na profissão que tanto ama.

Ana Bidu faz questão de agradecer ao marido e à filha, que estão sempre ao lado dela para abraçar e apoiar e depois finaliza: “A vida sempre terá desafios, mas com força, fé, foco e sabedoria, conseguimos chegar onde queremos.  Nunca maltrate ou despreze ninguém e saiba que um dia sua hora de reconhecimento chegará”, conclui.

Em um cenário assim, talvez a pergunta mais importante não seja “qual é a sua profissão?”, mas sim: “quantas versões de você ainda podem surgir ao longo do caminho?”. 

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