
Hoje vamos falar de inclusão através de um trabalho que chegou para fazer a diferença. Entrevistei Rafael Anselmo, fundador e CEO de uma plataforma digital destinada a apoiar professores na tarefa de ensinar estudantes com deficiências e transtornos do neurodesenvolvimento, como TEA, TDAH, dislexia e discalculia de aprendizagem.
Rafael tem 43 anos, formado como técnico em mecatrônica, pós-graduado em administração de empresas, pai do Bernardo, que tem 10 anos de idade e Síndrome de Down, e idealizador dessa solução com inteligência artificial que adequa escolas à Lei de inclusão, uma grande dificuldade na educação brasileira atualmente.
Só para se ter uma ideia desse cenário, o Brasil ampliou a garantia a direitos à educação para esses estudantes com a Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão – LBI), sancionada em 6 de julho de 2015 e que passou a valer 180 dias após sua publicação oficial, ou seja, em 2 de janeiro de 2016. Ela prevê que todas as escolas do país, públicas ou privadas, aceitem como alunos pessoas com deficiência, da educação infantil ao ensino superior, garantindo não apenas matrícula, mas acesso, permanência, participação e aprendizagem.
Já Decreto nº 12.686/2025, que instituiu a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e entrou em vigor na data da sua publicação, prevê que as escolas brasileiras passem a preparar o Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE), que visa sistematizar estratégias, adaptações pedagógicas, recursos de acessibilidade e apoios individualizados, buscando assegurar não apenas a matrícula do estudante, mas também a infraestrutura da escola, para garantir a participação efetiva, a permanência e a aprendizagem.
Na última segunda-feira, 18 de maio, o Ministério da Educação (MEC) publicou, a Portaria nº 421/2026, que regulamenta a implementação da Política Nacional de Educação Especial Inclusiva (PNEEI) e operacionaliza a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva (Reneei), fortalecendo a educação inclusiva em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino. A portaria prevê ações como formação continuada de professores, criação de centros de referência, apoio técnico às escolas, produção de materiais acessíveis e tecnologias assistivas, combate ao capacitismo e articulação entre diferentes setores. A portaria também reforça a oferta do Atendimento Educacional Especializado (AEE) de forma complementar ao ensino regular e amplia o suporte às redes públicas de ensino, com investimentos destinados à formação docente e à estruturação de recursos de acessibilidade. A iniciativa complementa os Decretos nº 12.686/2025 e nº 12.773/2025, consolidando a educação especial como modalidade transversal ao ensino regular e reafirmando o compromisso com uma educação inclusiva baseada na igualdade de oportunidades.
Diante de tantos desafios e do aumento exponencial de alunos com deficiência dentro do ambiente escolar regular, Rafael Anselmo trouxe uma ferramenta prática para professores e profissionais de psicopedagogia das escolas que personaliza o plano de aula para cada aluno, levando em conta o laudo médico e os relatórios pedagógicos.“A demanda só cresce. Cada vez mais estudantes chegam às escolas com TEA, TDAH, dislexia, e a escola ainda não sabe como responder. O professor sai da faculdade sem saber como trabalhar com um estudante com TEA ou dislexia. Isso é uma falha grave na formação. As universidades que estão na frente já entenderam que inclusão não cabe numa disciplina optativa. Precisa estar no centro da formação docente”, alerta o empresário.
Visando ampliar os resultados dessa iniciativa, a plataforma concedeu o uso gratuito para três colégios com perfis diferentes no município de Osasco, em São Paulo (EMEIEF Luiz Bortolosso, EE Coronel Antônio Paiva de Sampaio e EMEIEF Profª Jeanete Beauchamp) e para o Instituto Jô Clemente, referência em deficiência intelectual no Brasil, onde será feita uma pesquisa liderada pela Doutora Mamary Lopes. Rafael acredita que: “Trabalhar com eles nos obriga a ter rigor técnico, não só boa intenção. Essa parceria garante que o que a plataforma entrega está ancorado em conhecimento real, com responsabilidade sobre o impacto que gera”.

Segundo a pesquisadora, será analisado se a inteligência artificial do aplicativo da Vínculo, está acertando nas sugestões que faz. A pergunta central é: O que a IA sugere para um estudante faz sentido para o perfil real dele? “Vamos comparar as sugestões do nosso assistente virtual, chamado de Apoio Inteligente, com a avaliação de profissionais da educação especial. Queremos saber se o que a IA entrega é relevante e aplicável na prática. Depois das conclusões, a expectativa é ter base para evoluir a IA com mais precisão e também contribuir para um debate que ainda é muito novo no Brasil, sobre como usar inteligência artificial na educação inclusiva de forma responsável. Poucas ferramentas se submetem a esse tipo de análise”, explica Mamary Lopes.
O investimento para uso da ferramenta é baixo e o criador dela, inspirado nas dificuldades com o filho Bernardo, acredita que escolheu uma causa. “Existem crianças que chegam à escola e simplesmente não são vistas. Esses estudantes estão nas salas agora e entendo que muita gente não se moveu por falta de ferramenta, não por falta de vontade. Mas hoje tem recurso, tem lei, tem tecnologia. O que falta é dar o primeiro passo”, conclui Rafael Anselmo.
Segue um resumo explicativo que pode dar uma ideia dos desafios educacionais que temos:
Deficiência:
Condição física, intelectual, visual, auditiva ou múltipla que pode gerar barreiras para participação plena na sociedade e no ambiente escolar. Dependendo do tipo de deficiência, a pessoa pode precisar de adaptações, acessibilidade ou apoio para aprender e participar das atividades.
Transtorno do Espectro Autista:
Condição do neurodesenvolvimento que influencia a forma como a pessoa se comunica, interage socialmente, percebe estímulos do ambiente e organiza comportamentos. As características variam entre as pessoas, por isso é chamado de espectro.
Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade:
Transtorno do neurodesenvolvimento relacionado principalmente à dificuldade de manter atenção, controlar impulsos e/ou lidar com hiperatividade. Pode afetar organização, concentração e desempenho escolar.
Dislexia:
Transtorno específico da aprendizagem que afeta principalmente leitura, escrita e reconhecimento de palavras. Pessoas com dislexia podem apresentar dificuldade para ler com fluência ou compreender textos, apesar de terem inteligência preservada.
Discalculia:
Transtorno específico da aprendizagem relacionado à compreensão de números, cálculos e raciocínio matemático. Pode gerar dificuldade em operações matemáticas, interpretação de quantidades e resolução de problemas.
Neurodivergência:
Termo utilizado para descrever pessoas cujo funcionamento cerebral acontece de forma diferente do considerado padrão ou típico. Inclui condições como Transtorno do Espectro Autista, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, dislexia e outras diferenças neurológicas.