O psicólogo Rossandro Klinjey, especialista em  comportamento humano e saúde mental, analisa a chegada da NR-1
Fotógrafo: Jader Bertino
O psicólogo Rossandro Klinjey, especialista em comportamento humano e saúde mental, analisa a chegada da NR-1


Na última terça-feira, dia 26 de maio, entrou em vigor a nova atualização da NR-1, que torna obrigatória a gestão de riscos psicossociais no ambiente de corporativo. Ela deve impactar diretamente a forma como as empresas brasileiras lidam com saúde mental, pois elas passam a ser obrigadas a identificar e gerenciar riscos psicossociais dentro da gestão de segurança do trabalho.

Entrevistei um especialista, extremamente respeitado em relação ao tema, para trazer ainda mais reflexões sobre essa mudança que deve alterar bastante as relações trabalhistas no país. Trata-se do psicólogo Rossandro Klinjey, uma  referência em comportamento humano e saúde emocional, que tem um olhar bem realista sobre o que está por vir. Segundo ele: “Muita gente ainda não percebeu o tamanho disso. Até aqui, saúde mental era pauta de outubro amarelo, brinde de campanha, agora virou risco com peso jurídico dentro do PGR, no mesmo lugar onde mora capacete e extintor”, explica.

Falar de saúde mental ainda é um tema distante para muitos gestores, mas Rossandro avalia que: “O primeiro desafio é parar de tratar adoecimento como anedota individual. Tem empresa que ainda fala "o fulano não aguentou", quando o que aconteceu foi um ambiente que adoeceu o fulano. A norma obriga a olhar pro ambiente, não pro “coitado” que não deu conta. O segundo é técnico. Como se mede assédio moral? Como se mapeia carga emocional? Muita empresa vai contratar consultoria, encher relatório de gráfico bonito, e continuar fazendo a mesma coisa por dentro. O terceiro é a liderança. Os números da Previdência mostram que afastamento por burnout saiu de 823 em 2021 e chegou em 7.595 em 2025. É sintoma de uma gestão que envelheceu mal, pois boa parte dos gestores foi formada num modelo que confundia exigência com humilhação, meta com chicote", analisa com precisão e pisa fundo em lugares que não costumam se ver vulnerabilizados.

Quando eu pergunto sobre quem terá mais dificuldade pra compreender que saúde mental impacta diretamente nos números e resultados das empresas, o psicólogo é bem direto: “Serão três tipos de gestor. Aquele formado na escola do "no meu tempo a gente aguentava", aquele executivo que entrou na carreira nos anos 80 e construiu currículo em cima de ignorar o próprio cansaço. Ele não cuida da equipe porque não se cuida e pra admitir que saúde mental impacta resultado, teria que admitir que a vida dele passou por cima de quem ele amava. O dono de empresa familiar, sobretudo no setor produtivo, que confunde o negócio com a casa, e a casa com o purgatório. Ali, fragilidade emocional é vista como falha de caráter. E tem um terceiro perfil, mais novo, mas perigoso de outro jeito. Trata-se do gestor que adora a estética da saúde mental. Faz post sobre vulnerabilidade, fala em programa de bem-estar, contrata mindfulness no horário de almoço e cobra entrega impossível às onze da noite. É a empresa que aprendeu a linguagem terapêutica sem mudar a prática gerencial. Resumindo: vai resistir mais quem nunca teve coragem de olhar pra própria dor. Ninguém cuida lá fora do que não suporta sentir dentro”, analisa.

Avanço na busca da percepção do especialista em comportamento humano e pergunto se as pessoas já entenderam o que é adoecimento mental e Rossandro Klinjey é direto: “Não entenderam. Estamos num momento curioso da história brasileira em que o vocabulário avançou e a compreensão ficou pra trás. A consequência disso é cruel, pois banaliza o sofrimento real e estigmatiza qualquer reação humana. Por outro lado, no nosso país, sobretudo no interior, ainda é comum o sujeito ir adoecendo em silêncio. Cuidar da saúde emocional não é estoque de frases prontas, nem muito menos hashtag de mês colorido. Passa mais por uma revisão de hábito, de vínculo, de uso do tempo. É procurar profissional sério quando precisa, e não influenciador de Instagram. É admitir que a gente é finito e vulnerável, e que isso não diminui ninguém”, alerta.

Para finalizar, procuro entender a visão do também escritor sobre os principais problemas emocionais e psicológicos enfrentados pelos trabalhadores brasileiros e ele mapeia da seguinte forma:

“Tenho enxergado quatro frentes recorrentes nas escutas que faço em palestras corporativa.

A primeira é a ansiedade antecipatória, esse mal-estar de viver a segunda-feira já no domingo à tarde. O trabalhador brasileiro não está exausto pelo que faz, mas pelo que ele teme que vão pedir e ele não vai dar conta. É a antecipação do colapso, não o colapso em si que está adoecendo.

A segunda é a perda de sentido. Pós-pandemia, muita gente olhou pra dentro e perguntou "o que eu tô fazendo da minha vida?", e voltou pro escritório no dia seguinte sem nenhuma resposta. Trabalhar dez, doze horas em algo que não significa nada produz uma fadiga que não passa com férias.

A terceira é o sequestro psicológico do trabalho sobre a vida pessoal. Smartphone fez do quarto uma extensão da sala de reunião. A pessoa janta com a família e responde mensagem da chefia. Vai pra praia e revisa relatório. Cérebro não descansa porque o trabalho não vai embora. E aí entra o que chamo de metástase psicológica. O trabalho deixa de ser uma área da vida e contamina todas as outras.

A quarta é a solidão dentro da equipe. As pessoas trabalham juntas e não se conhecem. Times híbridos, reunião por tela, gente que não sabe se o colega tem filho. A pertença sumiu. E ser humano sem pertencimento adoece”.

Diante disso, não dá para negar que há um impasse difícil de resolver, que é estabelecer o limite entre verdade e abuso quando o assunto é pleitear cuidados relacionados à saúde mental dentro das empresas e a resposta é, no mínimo, necessária: “O limite entre verdade e abuso passa por uma coisa que ninguém quer dizer em voz alta: nem todo desconforto é doença. Trabalhar incomoda. Chefia ruim incomoda. Meta apertada também. Nada disso, por si só, é transtorno. A psicologia séria sabe disso.  A NR-1 não veio pra acabar com o desconforto, veio pra prevenir adoecimento. Tem diferença. Quem confunde os dois compromete a norma e atrasa o debate. O cuidado verdadeiro com saúde mental no trabalho começa quando a empresa para de tratar adoecimento como traição e o trabalhador para de tratar o sofrimento como currículo. Os dois lados precisam crescer ao mesmo tempo, senão a norma vira perseguição ou vira desculpa e os dois caminhos custam caro, em gente, em dinheiro e em legitimidade”, afirma o psicólogo.

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