
Vivemos mais do que qualquer outra geração da história. A expectativa de vida aumentou, a medicina evoluiu, os hábitos mudaram e, felizmente, cada vez mais pessoas chegam aos 70, 80 ou até 90 anos mantendo autonomia, projetos e qualidade de vida. Mas existe um detalhe que é pouco falado, o de que o coração também envelhece.
Assim como tudo no corpo, o sistema elétrico cardíaco sofre um desgaste natural com o passar dos anos. Esse processo faz com que milhares de brasileiros precisem recorrer a um dispositivo que, durante décadas, foi cercado por medo, preconceito e desinformação, que é o marcapasso.
Hoje, mais de 300 mil brasileiros convivem com o aparelho, e aproximadamente 49 mil novos implantes são realizados anualmente no país. Ainda assim, basta alguém receber esse diagnóstico para surgirem as mesmas perguntas: "Vou poder fazer exercícios?", "Posso usar celular?", "Passar no detector de metais do aeroporto?" ou "Minha vida vai mudar completamente?". A boa notícia é que, na maioria dos casos, a resposta é muito mais positiva do que as pessoas imaginam.

Segundo o cardiologista e especialista em arritmias cardíacas Dr. Cristiano Faria Pisani, presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC), o aumento do número de implantes acompanha justamente o envelhecimento da população.
Mas o maior problema diante dessa realidade nem sempre está no coraçãoe sim no preconceito. Quando ouvimos a palavra "marcapasso", ainda é comum associá-la à fragilidade, à limitação física ou até à proximidade da morte. Essa imagem, porém, já não corresponde à realidade. "O principal mito envolve a associação do aparelho à terminalidade e na grande maioria das vezes, após o implante, os pacientes apresentam uma melhora significativa da qualidade de vida", explica Dr. Pisani.
Essa percepção equivocada acaba produzindo um impacto emocional importante. Não é raro que pacientes passem a enxergar o próprio corpo como frágil ou sintam vergonha do aparelho.

Foi exatamente esse preconceito que o corredor Fernando Munhoz, de 63 anos de idade, enfrentou. Atleta há quatro décadas, ele jamais imaginou que precisaria de um marcapasso, afinal, durante anos, correu provas de longa distância sem apresentar sintomas importantes. Em um exame Holter de rotina, entretanto, descobriu que seu coração havia parado por 9,4 segundos durante o sono, consequência de um bloqueio atrioventricular total (BAVT).
O diagnóstico veio acompanhado de um choque emocional, mas dias depois, recebeu o implante: "Quando disseram que eu precisava colocar um marcapasso, fui procurar imagens na internet. O aparelho aparecia muito sob a pele e parecia algo destinado apenas a pessoas muito idosas. Aquilo me assustou, mas a experiência prática mudou completamente sua percepção. O dispositivo foi implantado sob o músculo, praticamente imperceptível, e, pouco tempo depois, eu já estava novamente nas pistas", conta Fernando Munhoz.
O medo pode ser mais limitante do que o diagnóstico.
"Em um ano e três meses com marcapasso já corri mais de cinco mil quilômetros. Descobri que algo silencioso estava limitando meu desempenho e eu não fazia ideia. Já percorri milhares de quilômetros correndo e caminhando."
Durante a internação, Fernando conheceu outros pacientes que escondiam o marcapasso por vergonha. Um deles contou que precisou fazer terapia após ser chamado de "Homem de Ferro". A experiência fez com que tomasse a decisão de criar um perfil nas redes sociais dedicado exclusivamente a mostrar sua rotina como atleta usuário de marcapasso. Segundo ele, começaram a surgir mensagens de pessoas que haviam abandonado completamente a atividade física por medo. "As pessoas passaram a entender que o maior perigo era antes do implante. Depois dele, voltaram a acreditar que era possível viver normalmente, conta."
Esse aspecto talvez seja um dos mais importantes quando falamos de saúde. Não basta cuidar do corpo, mas também é preciso tratar a maneira como interpretamos o diagnóstico.
Afinal, quem precisa de um marcapasso?
O aparelho é indicado quando existe uma alteração na geração ou na condução dos impulsos elétricos responsáveis pelos batimentos cardíacos. Segundo o Dr. Pisani, isso pode ocorrer por diferentes motivos: "Pode acontecer pelo envelhecimento natural das células que comandam esses batimentos ou por doenças que acometem o sistema elétrico cardíaco, inclusive em pacientes jovens", explica.
Apesar da fama, o marcapasso não "faz o coração funcionar sozinho". Sua função é monitorar continuamente o ritmo cardíaco e estimular o coração apenas quando percebe que os batimentos estão excessivamente lentos ou interrompidos.
Outra dúvida frequente diz respeito às limitações. "As limitações geralmente estão muito mais relacionadas à doença cardíaca de base do que ao aparelho. Após as primeiras semanas de recuperação, o paciente costuma retomar suas atividades normalmente. Hoje, inclusive, muitos dispositivos permitem a realização segura de exames de ressonância magnética", explica o cardiologista.

Também houve uma evolução importante na tecnologia. Os aparelhos ficaram menores, mais resistentes às interferências externas e contam com baterias que costumam durar entre seis e oito anos, sendo necessária apenas a substituição do gerador, sem troca dos eletrodos na maioria das vezes.
Em uma sociedade mais longeva, o desafio é viver melhor.
Abaixo, uma série de informações adicionais, com alguns mitos sobre o marcapasso, com base nas orientações do cardiologista e especialista em eletrofisiologia Dr. Cristiano Faria Pisani, presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC):
1. O aparelho só é indicado para idosos
MITO
Embora o envelhecimento seja uma das principais causas, pessoas jovens também podem precisar de marcapasso devido a doenças do sistema elétrico do coração ou alterações congênitas.
2. Detectores de metais podem desligar o marcapasso
MITO
Os equipamentos atuais possuem alta proteção contra interferências. Ainda assim, recomenda-se avisar sobre o implante e evitar permanecer parado junto aos portais magnéticos por tempo prolongado.
3. O celular pode interferir no funcionamento do aparelho
MITO
Os smartphones atuais podem ser utilizados normalmente. Como precaução, recomenda-se evitar carregá-los diretamente sobre o local do implante.
4. Quem usa marcapasso nunca poderá fazer ressonância magnética
MITO
Grande parte dos modelos mais modernos é compatível com exames de ressonância magnética. Antes do exame, basta informar a equipe médica sobre o dispositivo.
5. O implante significa que o paciente está em estado grave
MITO
O marcapasso é um tratamento, não uma sentença. Na maioria dos casos, ele permite que a pessoa retome uma vida praticamente normal.
6. O estresse pode fazer alguém precisar de um marcapasso
MITO (com ressalvas)
O estresse, isoladamente, não leva à necessidade do implante. Entretanto, ele pode contribuir para doenças cardiovasculares, como a doença coronariana, que, em algumas situações, podem evoluir com alterações do sistema elétrico cardíaco.