
Para quem deixa seu país por causa de uma guerra, conflito, desastre, perseguição ou simplesmente em busca de uma nova possibilidade de vida, a migração costuma significar muito mais do que mudar de território, mas também deixar para trás toda uma história de vida.
É nesse espaço, entre a distância geográfica e a necessidade humana de pertencer, que atua o Programa de Restabelecimento de Laços Familiares (RLF), da Cruz Vermelha São Paulo. O programa reúne uma série de ações destinadas a prevenir separações, restabelecer e manter o contato entre familiares e auxiliar na localização de pessoas desaparecidas em situações relacionadas a conflitos armados, desastres ou migração internacional.
A história desse trabalho está ligada à própria origem do movimento internacional da Cruz Vermelha, que começou no campo de batalha. A Cruz Vermelha nasceu a partir da experiência de Henry Dunant, que, ao se deparar com o conflito de Solferino, na Itália, ficou profundamente impactado com o número de feridos e com a falta de assistência. Ele, então, decidiu ajudar independentemente do lado em que os combatentes estavam e além de organizar cuidados aos feridos, recolhia cartas para que eles pudessem avisar suas famílias e para que os parentes recebessem notícias de seus entes queridos. A comunicação, portanto, já estava no DNA da ação humanitária.
No Brasil, a Cruz Vermelha foi fundada em 5 de dezembro de 1908, no Rio de Janeiro, e teve como primeiro presidente o sanitarista Oswaldo Cruz. A entidade integra o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho e tem sua atuação baseada nos princípios humanitários e nas Convenções de Genebra.
Hoje, a dimensão do trabalho humanitário ganha novos contornos diante de um cenário migratório que continua em transformação. Um Brasil que recebe quem precisou partir. Os números mais recentes ajudam a compreender o tamanho desse desafio. Em 2025, o programa realizou 2,7 mil atendimentos, além de mais de 100 ações externas junto a 29 serviços e organizações que atendem migrantes e refugiados no estado de São Paulo.
De acordo com a 11ª edição do Refúgio em Números, produzida pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), até o final de 2025 o Brasil havia reconhecido 165.774 pessoas como refugiadas. Entre 2010 e 2025, pessoas de 177 países fizeram solicitações de refúgio no Brasil. Venezuelanos, cubanos, haitianos e angolanos, juntos, responderam por 80,5% dos pedidos apresentados nesse período. Os números também mostram que existem muitas histórias por trás da palavra "refugiado". São pessoas de diferentes nacionalidades, idades, trajetórias e condições sociais, unidas pela necessidade de proteção e pela reconstrução da vida em outro território.
E reconstruir a vida não significa apenas encontrar moradia, emprego ou regularizar documentos, mas também reconstruir relações. E é justamente aí que o Restabelecimento de Laços Familiares atua. Em busca de uma ponte, a Cruz Vermelha distribuiu, em 2025, além dos atendimentos, 2,3 mil chips de telefonia móvel com internet, com apoio da Surf Telecom. A conectividade permite não apenas conversar com familiares, mas também acessar serviços públicos, acompanhar processos de regularização migratória, buscar oportunidades de trabalho e ampliar as possibilidades de integração.
O ACNUR, (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), destaca que a separação prolongada pode afetar a saúde mental e enfraquecer os laços familiares, enquanto a reunificação pode favorecer o bem-estar e a integração. Isso ajuda a compreender por que uma ligação telefônica pode ter um significado que vai muito além de alguns minutos de conversa. Não é exagero dizer que, em determinadas situações, restabelecer um laço também é uma forma de reconstruir a identidade.
Dados da Cruz Vermelha São Paulo mostram um indicador importante de vulnerabilidade, o de que 74% dos beneficiários não possuíam fonte de renda. São pessoas que, muitas vezes, estão tentando organizar simultaneamente documentação, moradia, trabalho, idioma, sobrevivência financeira e adaptação cultural. E, no meio de tudo isso, carregam a preocupação com aqueles que ficaram em outro país.

"O restabelecimento do contato entre familiares representa muito mais do que comunicação. É uma forma de preservar vínculos, oferecer segurança e contribuir para que pessoas migrantes e refugiadas reconstruam suas vidas com dignidade", afirma Giovanna Pedroni, coordenadora do Programa de Restabelecimento de Laços Familiares da Cruz Vermelha São Paulo.
Além desse acolhimento, a Cruz Vermelha, busca por pessoas desaparecidas em decorrência de conflitos, desastres e migração internacional. Em 2025, foram registradas 56 buscas em andamento e 13 buscas encerradas.
O Programa, que existe desde 2014 em São Paulo, é a ponte para uma reconstrução. O serviço é gratuito e está disponível para migrantes e refugiados que necessitem de apoio para localizar familiares ou retomar contato interrompido. Não há limite de atendimentos e as pessoas que precisem do serviço podem entrar em contato pelo e-mail rfg@cruzvermelha.org.br.
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