
Receber o diagnóstico de câncer de próstata costuma abalar profundamente o emocional dos homens. Para a coluna, a psicóloga Luciana Bricci (CRP 06/57982), especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), explicou que esse impacto é ainda maior porque muitos têm dificuldade em expressar vulnerabilidade — algo que, culturalmente, ainda é visto como fraqueza.
"Sabe aquela ideia de que homem tem que ser forte o tempo todo? Pois é, o câncer de próstata balança tudo isso. Muitos sentem medo, tristeza e até a sensação de terem perdido parte da própria identidade, especialmente quando surgem dúvidas sobre sexualidade, futuro e papel na família”, contou Luciana à coluna.
Segundo a psicóloga, na TCC o objetivo é ajudar o paciente a identificar e questionar pensamentos negativos, como “minha vida acabou” ou “não sou mais homem”, substituindo-os por ideias mais realistas e saudáveis. Aos poucos, o paciente aprende a lidar melhor com o medo, retoma rotinas, fortalece vínculos e reconstrói a autoestima.
Tabus e masculinidade ainda são barreiras
Apesar dos avanços em campanhas de conscientização como o Novembro Azul, o tabu em torno da masculinidade ainda faz com que muitos homens evitem procurar ajuda médica e psicológica.
"Infelizmente, ainda ouvimos frases como ‘homem aguenta’ ou ‘homem não chora’. Esse tipo de crença leva muitos a esconderem o medo e a evitarem ajuda. Na terapia, mostramos que cuidar da saúde é um ato de coragem — e não de fraqueza”, destacou Luciana.
A especialista ressaltou que o medo do exame e do diagnóstico também são fatores que contribuem para a negligência com a própria saúde. “O cérebro tenta evitar o desconforto, mas, na prática, isso só aumenta o risco e o sofrimento. O trabalho terapêutico ajuda a enfrentar esses medos passo a passo, até que a prevenção vire parte natural do autocuidado”, afirmou.
Apoio psicológico e reconstrução da autoestima
Os efeitos do tratamento, como impotência sexual e queda da autoestima, exigem atenção especial. O acompanhamento psicológico é fundamental para que o homem ressignifique sua imagem e redescubra a própria sexualidade com empatia e confiança.
"A terapia ajuda o paciente a perceber que afeto e prazer vão muito além do desempenho físico. Trabalhamos a comunicação com o parceiro, o valor pessoal e novas formas de viver a intimidade”, explicou Luciana.

Luciana Bricci
A psicóloga reforçou ainda o papel da família e dos amigos nesse processo. “Apoiar é estar junto, sem invadir. O ideal é ouvir sem julgamento e respeitar o tempo de cada um. O afeto silencioso, o convite leve e a escuta genuína fazem toda a diferença.”
Um novo significado de ser homem
Após o tratamento, muitos pacientes precisam reconstruir sua identidade e autoconfiança. Para Luciana, é essencial compreender que a masculinidade não se resume ao corpo, mas também a valores, afetos e propósito.
"É hora de redefinir o que é ser homem. De buscar atividades, relações e projetos que tragam prazer e sentido. A TCC ajuda nesse recomeço, traçando pequenas metas e celebrando cada conquista. Assim, o paciente recupera autonomia e confiança”, concluiu.
