
Após o relato do padre Fábio de Melo sobre o “zumbido terrível” que o acompanha há anos, o tema gerou uma curiosidade sobre o que é a Doença de Ménière — distúrbio crônico que afeta o ouvido interno e pode provocar crises de vertigem, perda auditiva e sensação de pressão no ouvido. Durante participação no programa Angélica ao Vivo, o religioso contou que enfrenta os sintomas há mais de 20 anos e foi diagnosticado oficialmente há seis, revelando ainda que, após retirar o açúcar da dieta, notou melhora significativa.
"Tenho perda de audição que vai e volta e convivo com um zumbido terrível. Quando tirei o açúcar da alimentação, melhorei demais”, afirmou à coluna.
Para explicar melhor o que está por trás dessa condição, o otorrinolaringologista João Pedro Cantarini (CRM-RJ 52.1049879 / RQE 35064), conversou com a coluna e detalhou como a doença se manifesta, quais os fatores de risco e os cuidados que ajudam a aliviar os sintomas.
O que acontece no ouvido interno
Segundo o médico, a Doença de Ménière é provocada por um acúmulo anormal de líquido na parte do ouvido interno responsável pelo equilíbrio e pela audição.
"Esse excesso de líquido altera a pressão e o funcionamento das células sensoriais, causando vertigem, zumbido e perda de audição. Esses sintomas costumam variar de intensidade com o tempo”, explica o Dr. Cantarini.
Os principais sintomas incluem: episódios de vertigem (sensação de mundo girando), zumbido (ouvidos “chiando” ou “tocando”), sensação de ouvido “cheio” ou “pressionado”, e perda de audição flutuante, que pode evoluir para permanente.
O diagnóstico pode demorar porque os sintomas se confundem com outras doenças do ouvido. “Muitos pacientes passam anos acreditando que têm apenas tontura comum. É importante procurar um otorrinolaringologista sempre que houver episódios repetidos de tontura, zumbido ou sensação de ouvido tampado”, orienta o Dr. Cantarini.
Fatores de risco e disseminação
Embora a causa exata seja desconhecida, acredita-se que vários fatores contribuam, como problemas de drenagem do ouvido interno, infecções virais, distúrbios autoimunes, genética e alergias.
Epidemiologicamente, trata-se de doença rara: em estudos, a prevalência estimada varia entre 0,3 e 1,9 por 1.000 pessoas. Em estudos brasileiros, por exemplo, foi observada alta porcentagem de pacientes com queixa de vertigem em amostras de hospital otorrinolaringológico (71,9% tiveram mais de seis episódios nos últimos seis meses).
Além disso, em cerca de 5% a 20% dos casos há histórico familiar, o que sugere predisposição genética.
Alimentação e estilo de vida: qual a relação?
A retirada do açúcar da dieta como relatado pelo padre encontra respaldo médico. O otorrino explica que o controle glicêmico pode interferir no equilíbrio dos líquidos do ouvido interno.
"Em alguns casos, doenças metabólicas como o diabetes provocam crises semelhantes às da Doença de Ménière. Quando o açúcar no sangue está descontrolado, há impacto na pressão do ouvido interno, o que favorece tontura e zumbido”, afirma o especialista.
Além disso, hábitos como consumo excessivo de sal, cafeína ou álcool podem agravar o quadro. “Essas substâncias retêm líquido e afetam o sistema vestibular. Por isso, a alimentação equilibrada é uma parte essencial do tratamento”, reforça. Estudos recomendam dieta com baixo teor de sódio e evitar substâncias que favoreçam retenção de líquidos.
Hábitos que ajudam na prevenção e acompanhamento
Manter rotina saudável, alimentação equilibrada, evitar longos períodos de jejum e estar atento à hidratação são atitudes que ajudam a reduzir as crises.
"Uma dieta rica em frutas, vegetais e antioxidantes, aliada à boa hidratação e horários regulares de alimentação, ajuda a estabilizar o organismo e reduzir as crises”, orienta o médico.
Ele também ressalta que o tratamento vai além da dieta: medicamentos, fisioterapia vestibular e acompanhamento contínuo são fundamentais.
Quando procurar ajuda médica

João Pedro Cantarini
O alerta é claro: tontura, zumbido ou sensação de ouvido tampado persistentes não são normais.
"Esses sinais não devem ser ignorados. O diagnóstico precoce melhora as chances de controle e devolve qualidade de vida ao paciente”, conclui o Dr. Cantarini.
