
O primeiro domingo do ENEM 2025, realizado em 9 de novembro, levou 4,8 milhões de inscritos às salas de prova, segundo o INEP. Mas, para milhares de jovens autistas, o desafio vai muito além das cinco horas de avaliação: envolve barreiras sensoriais, emocionais e sociais que atravessam toda a vida escolar e ajudam a explicar por que a permanência no ensino superior ainda é um dos maiores obstáculos dessa geração.
De acordo com o Censo 2022 do IBGE, o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, e apenas 25,4% dos adultos autistas concluíram o ensino médio. Os dados revelam que, mesmo quando conseguem chegar ao vestibular, muitos não permanecem na universidade por falta de apoio, adaptação adequada e acolhimento institucional.
O que o ENEM revela sobre o futuro desses jovens
Para Sarita Melo, mãe atípica e idealizadora da Jornada do Autismo, o exame reforça a urgência de políticas que acompanhem o autista para além da infância.
“Quando vejo esses jovens enfrentando o ENEM, penso em tudo que ainda precisa mudar até minha filha chegar lá. A inclusão precisa atravessar a vida inteira, da escola ao mercado de trabalho”, afirmou à coluna.
Sarita lembra que, ao organizar a programação do Congresso Jornada do TEA, prioriza debates sobre autonomia e vida adulta. “A sociedade fala muito sobre diagnóstico e pouco sobre autonomia. As famílias precisam ser preparadas para o agora, mas também para o depois.”
Sobrecarregados pela transição para a vida adulta
Para o neurologista Thiago Gusmão, pesquisador em habilidades sociais no autismo, o período entre o fim do ensino médio e a universidade é crítico. “Essa fase é marcada por rupturas: perda de previsibilidade, maior exigência social e excesso de estímulos. O jovem autista tem diferenças no funcionamento cerebral, especialmente nas áreas ligadas à regulação emocional, à empatia e ao controle comportamental”, explica.
Segundo o especialista, essas características tornam o adolescente mais vulnerável ao estresse, ansiedade e depressão, problemas que se intensificam quando o ambiente não compreende suas necessidades sensoriais e emocionais.
Ele reforça que o Enem concentra os maiores gatilhos da rotina escolar: “Pressão social, quebra de rotina, ruídos, tempo limitado e expectativas elevadas. É fundamental que esses jovens tenham acompanhamento clínico e psicológico, e conheçam seus direitos. O exame possui cartilha específica para pessoas com TEA, mas ainda é pouco divulgada.”
Tarso Enrique S. dos Santos, 16 anos, candidato autista que prestou o Enem pela primeira vez, descreve a experiência como a porta para novos caminhos. “O que mais me anima é poder escolher o que estudar e encontrar disciplinas do meu interesse. Também espero conviver com colegas sem conflitos”, afirma.
A travessia que o país ainda não aprendeu a fazer
Segundo especialistas, a exclusão do jovem autista ocorre em camadas sucessivas: começa no diagnóstico, passa pela escola e pelas terapias, e chega à universidade na forma de evasão ou baixa permanência.
Para a psicóloga Dra. Leila Bagaiolo, referência nacional em comportamento e cognição social, o problema não está na capacidade do estudante autista, mas no despreparo das instituições. “O ensino superior ainda é desenhado para o aluno típico. Faltam salas sensoriais, tutores de regulação, professores capacitados e planos de aprendizagem individualizados. O sistema exige daqueles jovens exatamente o que ele não oferece: estrutura, previsibilidade e escuta.”
Leila aponta caminhos possíveis:
“Universidades podem começar com três eixos: tutores de referência no primeiro semestre, flexibilização de prazos com planos individualizados e formação contínua de professores em comunicação clara e manejo de crises. Pequenas ações geram grandes transformações.”
Ela reforça que a autonomia depende da cognição social. “O jovem autista precisa entender as regras sociais e ser compreendido nelas. Treinar habilidades de autorregulação, autoconhecimento e comunicação assertiva aumenta a sensação de pertencimento e garante permanência.”
Preparação adequada faz diferença no desempenho

Gusmão acrescenta que cuidados preventivos influenciam diretamente a saúde mental e o desempenho na prova:
“Rotina estruturada, sono regulado, alimentação previsível e simulações do ambiente ajudam a reduzir o impacto do inesperado. O autista precisa de previsibilidade e apoio multiprofissional. Quando corpo, mente e ambiente estão organizados, o cérebro autista responde com foco.”
No fim, o Enem evidencia uma questão urgente: como transformar presença em permanência. O Brasil aprende, aos poucos, que inclusão não pode terminar no diagnóstico, precisa atravessar toda a vida.
