
A obesidade deixou há muito tempo de ser um tema restrito à balança. Hoje, ela é reconhecida como uma doença crônica, inflamatória e multifatorial que impacta praticamente todos os sistemas do corpo, inclusive o cérebro. Estudos recentes têm associado o excesso de gordura corporal ao envelhecimento cerebral mais rápido e ao aumento no risco de quadros demenciais, como o Alzheimer.
Para o Dr. Matheus Alencar, a chave para entender essa relação está no processo inflamatório contínuo que acompanha o ganho de peso.
“A obesidade é uma doença inflamatória de baixo grau e crônica. O paciente passa muito tempo sob esse estresse inflamatório e isso impacta diretamente o sistema nervoso central”, explica.
Como a obesidade afeta o cérebro
Segundo o profissional, essa inflamação sistêmica pode causar danos diretos aos neurônios, aumentando a chance de desenvolvimento de demências e alterações de memória e cognição.
O médico destaca três mecanismos principais:
- Inflamação constante, que agride neurônios ao longo dos anos.
- Resistência à insulina no cérebro, que prejudica o uso de glicose pelos neurônios.
- Alterações na barreira hematoencefálica, que se torna mais permeável em pessoas inflamadas.
"Quando o paciente está muito inflamado, esse filtro fica mais permeável. Passam mais substâncias para o cérebro, o que impacta diretamente a cognição”, afirma Alencar.
Peso ou metabolismo: o que pesa mais no risco?
Na prática clínica, surge uma dúvida frequente: o maior problema é o peso em si ou as alterações metabólicas associadas?
Dr. Matheus explica que o excesso de peso importa, mas o risco parece estar muito relacionado ao “pacote completo” de complicações, como hipertensão, resistência à insulina e alterações do colesterol.
"Pacientes com obesidade que ainda não desenvolveram todas essas alterações têm risco menor. Ou seja, o risco está mais ligado às complicações metabólicas do que ao IMC isolado”, afirma.
É possível reverter danos ao cérebro?
Sim, especialmente quando o tratamento começa cedo. "Revertendo o excesso de peso e as alterações metabólicas, conseguimos não só frear a progressão, como alguns estudos mostram regressão de danos, principalmente em fases iniciais”, explica.
Mudanças de estilo de vida, sono adequado, alimentação balanceada, atividade física e manejo do estresse compõem a base da recuperação metabólica e cerebral.
Medicamentos modernos podem proteger o cérebro?
Nos últimos anos, análogos de GLP-1 como Ozempic e Mounjaro se tornaram opções eficazes no tratamento da obesidade.
Segundo Alencar, essas medicações apresentam potenciais benefícios que vão além da perda de peso.
"Há estudos mostrando que essas drogas podem frear a evolução de quadros demenciais e, em casos iniciais, reduzir a progressão. Isso ocorre pelo efeito anti-inflamatório, neuroprotetor e pela melhora da resistência à insulina”, detalha.
O médico reforça que os remédios não atuam sozinhos: "Tudo precisa estar associado a bons hábitos e a uma perda de peso saudável, sempre com acompanhamento médico.”
