Estudo avalia exame simples e não invasivo que identifica sinais metabólicos da doença ainda em fases iniciais
I.A
Estudo avalia exame simples e não invasivo que identifica sinais metabólicos da doença ainda em fases iniciais

Detectar o câncer de pâncreas precocemente ainda é um dos maiores desafios da medicina. Silenciosa nos estágios iniciais, a doença costuma ser diagnosticada quando já está avançada, o que reduz significativamente as chances de tratamento curativo. Agora, um novo estudo internacional reacende a esperança ao testar um exame simples: a análise do ar expirado.

O ensaio clínico, iniciado no Reino Unido, envolve milhares de pacientes e avalia um teste de respiração capaz de identificar compostos químicos liberados pelo organismo em decorrência do metabolismo alterado das células cancerígenas. A proposta é usar o próprio hálito como uma pista precoce da doença.

Segundo o gastroenterologista Eric Pereira, do Hospital e Clínica São Gonçalo, o diagnóstico tardio do câncer de pâncreas está ligado a fatores anatômicos e clínicos. “O pâncreas fica em uma região profunda do abdômen, chamada retroperitônio, o que impede a detecção por exame físico. Além disso, no início da doença, os sintomas são inexistentes ou muito inespecíficos”, explica.

Quando surgem, os sinais costumam ser vagos, como má digestão, dor nas costas, perda de apetite e emagrecimento, o que frequentemente atrasa a investigação. Outro obstáculo é a limitação dos métodos atuais. Marcadores sanguíneos como o CA 19-9, por exemplo, não são eficazes para rastreamento populacional e podem gerar falsos resultados quando usados indiscriminadamente.

O novo teste em estudo parte de uma lógica diferente. De acordo com o especialista, células cancerígenas apresentam um metabolismo alterado e produzem perfis específicos de compostos orgânicos voláteis, conhecidos como VOCs. Essas substâncias circulam pelo sangue, passam pelos pulmões e podem ser identificadas no ar exalado.

Na prática, o exame é simples: o paciente respira em um dispositivo por cerca de 30 segundos e a amostra coletada é analisada por sensores ou técnicas como a espectrometria de massa. “É um método não invasivo, rápido e potencialmente de baixo custo, o que o torna promissor como ferramenta de triagem”, afirma o médico.

Apesar do entusiasmo, o teste ainda está em fase de validação científica. Não há, até o momento, evidência suficiente para que ele seja usado como exame de rotina na população geral. Para isso, será necessário comprovar alta precisão diagnóstica em grandes grupos de pessoas sem sintomas.

A expectativa é que, se os resultados forem consistentes, o exame seja inicialmente aplicado em pacientes com sintomas inespecíficos persistentes ou em grupos de maior risco. “É improvável que se torne um exame anual universal de imediato. O caminho mais realista é o uso direcionado, como apoio à decisão clínica”, avalia Dr. Eric.

Quanto à chegada da tecnologia aos hospitais, o processo ainda demanda tempo. Padronização, validação em larga escala e aprovação regulatória são etapas obrigatórias. “De forma otimista, podemos pensar em algo entre 2028 e 2030, inicialmente em países com maior investimento em inovação médica”, conclui.

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