
Quando a aposentadoria chega, muitos imaginam mais tempo livre, mas também se deparam com um novo desafio: manter a mente ativa e preservar a autonomia ao longo dos anos. O envelhecimento da população brasileira tem aumentado a preocupação com a saúde cognitiva e com a qualidade de vida na terceira idade.
Nesse contexto, a estimulação cognitiva tem ganhado espaço como uma estratégia para preservar funções como memória, atenção, raciocínio e linguagem, além de contribuir para o bem-estar emocional e social dos idosos.
Um ensaio clínico conduzido por pesquisadores do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), com colaboração do Departamento de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP) e do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Divisão de Neurologia Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, acompanhou 207 pessoas com 60 anos ou mais ao longo de dois anos para avaliar os impactos da estimulação cognitiva.
Como resultado, foram observados maior fluência verbal e flexibilidade mental, aumento da segurança cognitiva, ganhos nas funções executivas, melhora significativa da cognição global, impacto funcional na autonomia e, sobretudo, manutenção desses ganhos por até 12 meses após o período de acompanhamento.
Na prática, a estimulação cognitiva pode acontecer por meio de jogos, desafios mentais, exercícios de memória, atividades de raciocínio e tarefas que estimulem linguagem e atenção. Em muitos casos, essas atividades são realizadas em grupo, o que também contribui para reduzir o isolamento social, um dos fatores associados ao declínio cognitivo e à depressão em idosos.
“Os benefícios observados se aplicam a idosos saudáveis sem diagnóstico de demência. Nos casos de doenças neurodegenerativas, a estimulação cognitiva atua como preservação das funções ainda mantidas. Ainda assim, a recomendação é clara: começar cedo, cultivar curiosidade e inserir desafios cognitivos na rotina ajuda a manter autonomia e prazer com o passar dos anos”, explica Patrícia Lessa, neuropsicopedagoga com especialização em gerontologia e diretora pedagógica do programa Supera.
Programas de estimulação cognitiva, como o método Supera, utilizam atividades como jogos de tabuleiro, cálculos, desafios mentais e exercícios de fluência verbal em encontros semanais que combinam treino cognitivo e interação social.
Para muitos participantes, a experiência vai além dos ganhos cognitivos. “É o nosso músculo genial que exercitamos”, diz Rosangela Marcondes, participante do método, ao descrever as atividades como curiosas, divertidas e instigantes. Segundo ela, o compromisso semanal também ajuda a combater a solidão e a criar uma rotina com mais propósito.
Especialistas reforçam que manter o cérebro ativo ao longo da vida é uma das estratégias mais importantes para o envelhecimento saudável. Atividades que estimulam a mente, associadas à socialização, podem contribuir não apenas para a memória, mas também para o humor, a autonomia e a qualidade de vida.
