
Quem já precisou passar por diferentes serviços de saúde provavelmente conhece a situação: explicar novamente quais medicamentos utiliza, contar quando realizou determinado exame, procurar uma receita antiga ou tentar lembrar o resultado de um atendimento anterior. Quando os sistemas não estão integrados, informações importantes podem ficar espalhadas ao longo do caminho percorrido pelo paciente.
O problema vai além da burocracia. Ter acesso ao histórico de atendimentos, exames e medicamentos pode ajudar profissionais de saúde a compreender melhor a trajetória daquele paciente e dar continuidade ao cuidado com mais informações disponíveis.
É nesse contexto que prontuários eletrônicos integrados ganham espaço nas discussões sobre digitalização da saúde. A ideia é relativamente simples: fazer com que a informação acompanhe o paciente durante sua passagem pela rede, em vez de permanecer fragmentada entre diferentes unidades e serviços.
Uma das propostas nessa direção é o Saúde na Palma da Mão, apresentado por Mauro Campos, que prevê reunir prontuário, consultas, exames, receitas, medicamentos e acompanhamento de pacientes em uma plataforma voltada à rede municipal.
O que acontece quando os sistemas não conversam?
Na prática, cada etapa do atendimento produz informações. Uma consulta pode resultar em uma receita e em uma solicitação de exame. O resultado desse procedimento, por sua vez, pode determinar a necessidade de retorno ao médico ou de encaminhamento para outro profissional.
A proposta apresentada por Mauro pretende criar um prontuário eletrônico atualizado desde o primeiro contato do morador com a rede. Profissionais autorizados poderiam consultar o histórico e verificar informações anteriores durante novos atendimentos.
O modelo também prevê que, ao final de uma consulta, pedidos de exames e prescrições sejam registrados no mesmo ambiente digital.
Com isso, a receita poderia ser encaminhada à farmácia municipal e a solicitação de exame direcionada ao serviço responsável.
Da consulta ao resultado do exame
Outra etapa considerada pela proposta é justamente o período que começa depois que o paciente deixa o consultório.
O projeto prevê que exames possam ser agendados a partir do próprio sistema. Nos casos em que houver fila, o usuário poderia acompanhar o andamento da solicitação.
Depois da realização do procedimento, o resultado seria incorporado ao prontuário e ficaria disponível para acompanhamento médico.
Se uma nova avaliação fosse necessária, o retorno poderia ser organizado a partir das informações já registradas.
O objetivo é evitar que consulta, exame, resultado e acompanhamento funcionem como etapas completamente independentes dentro da mesma rede.
E depois que o paciente volta para casa?
A continuidade do cuidado também aparece entre os pontos previstos.
O projeto propõe um contato automatizado após o tratamento para verificar como o paciente evoluiu. As informações fornecidas seriam registradas e, diante da persistência de sintomas, poderiam indicar a necessidade de uma nova avaliação.
A medida tenta responder a outro desafio da assistência: acompanhar o que acontece com o paciente depois que ele deixa a unidade de saúde.
Informações de saúde exigem cuidado redobrado
Reunir tantos dados em um mesmo ambiente digital também traz uma questão fundamental: quem poderá acessar essas informações e como elas serão protegidas?
Prontuários médicos concentram dados particularmente sensíveis. Diagnósticos, medicamentos utilizados, resultados de exames e histórico de tratamentos exigem mecanismos de segurança, definição de níveis de acesso e proteção da privacidade.
Por isso, qualquer iniciativa de integração precisa considerar não apenas a facilidade oferecida ao usuário, mas também requisitos de segurança da informação e as regras brasileiras de proteção de dados.
A interoperabilidade é outro desafio. Para que a integração funcione, diferentes unidades, profissionais e serviços precisam conseguir registrar e consultar informações de maneira compatível.
Dados também revelam problemas da própria rede
Quando analisadas de maneira agregada, as informações produzidas durante os atendimentos também podem ajudar a compreender as necessidades de uma população.
Aumento na procura por determinado exame, crescimento de uma doença, consumo elevado de um medicamento ou longos períodos de espera podem indicar pontos que exigem atenção da gestão.
A proposta de Mauro Campos prevê utilizar indicadores como doenças mais recorrentes, demanda por exames, consumo de medicamentos, tempo de espera e retorno dos pacientes para auxiliar no planejamento dos serviços municipais.
A ideia ainda está no campo da proposta e seus resultados dependeriam de eventual implementação. O desafio central, porém, já existe: fazer com que as informações produzidas durante o cuidado deixem de acompanhar apenas unidades e sistemas e passem a acompanhar, de fato, o paciente.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG