Renan Bastos, especialista no mercado de luxo, relata como decisões que envolvem altos valores mudaram sua relação com sono, descanso e trabalho
Acervo Pessoal / Divulgação
Renan Bastos, especialista no mercado de luxo, relata como decisões que envolvem altos valores mudaram sua relação com sono, descanso e trabalho

Dormir pouco, trabalhar até tarde e permanecer disponível praticamente 24 horas ainda são comportamentos associados à produtividade e ao sucesso profissional. Mas existe um outro lado dessa rotina: o que acontece com a capacidade de tomar decisões quando cansaço, pressão e sobrecarga se acumulam?

A discussão coloca a saúde mental dentro de um contexto que vai além do bem-estar. Em profissões que exigem atenção constante e decisões rápidas, reconhecer os próprios limites também pode fazer parte da prevenção de erros.

Foi convivendo diariamente com esse tipo de responsabilidade que Renan Bastos passou a enxergar de outra maneira a relação entre trabalho, descanso e saúde mental. Brasileiro que atua no mercado atacadista de relógios de luxo nos Estados Unidos, ele participa de negociações que podem envolver peças avaliadas em dezenas ou centenas de milhares de dólares.

Nesse ambiente, uma decisão tomada em poucos minutos pode ter consequências financeiras significativas.

“Quando você trabalha diariamente com ativos de valores muito altos, um pequeno erro pode custar muito dinheiro. E muitas vezes o problema não acontece porque a pessoa não sabe o que deveria fazer. Ela sabe. O problema é estar cansada, preocupada ou sobrecarregada e acabar pulando uma etapa que normalmente jamais pularia.”

Quando o cansaço entra na tomada de decisão

O desgaste nem sempre impede alguém de continuar trabalhando. Uma pessoa cansada ainda pode responder mensagens, participar de reuniões, analisar documentos e executar tarefas. A questão é que atividades que dependem de atenção, concentração e avaliação de diferentes informações podem se tornar mais difíceis quando o descanso é insuficiente.

Em trabalhos de grande responsabilidade, pequenas falhas podem ganhar proporções maiores. Uma informação não conferida, uma etapa realizada com pressa ou um detalhe ignorado podem ser suficientes para comprometer um processo.

No mercado de relógios de luxo, Renan convive justamente com essa necessidade de atenção. Uma negociação pode exigir verificações sobre referência, documentação, procedência, estado de conservação da peça, valores, contraparte, informações bancárias e procedimentos de segurança.

Quanto maior o valor envolvido, menor tende a ser o espaço para distrações.

“Eu posso ter criado os melhores procedimentos de segurança dentro da empresa. Mas, se na hora de executar eu estiver mentalmente esgotado e decidir fazer tudo com pressa, o procedimento perde parte da sua função. Às vezes, o maior risco não está no processo. Está no estado de quem está executando o processo.”

Dormir pouco ainda é tratado como sinal de sucesso

A preocupação esbarra em uma cultura bastante presente no ambiente profissional. Durante anos, jornadas excessivas, poucas horas de sono e disponibilidade permanente foram transformadas em símbolos de comprometimento, principalmente entre executivos e empreendedores.

A ideia de que é necessário estar sempre produzindo pode fazer com que momentos de descanso sejam vistos como perda de tempo.

Para Renan, a experiência com decisões de alto valor fez com que essa lógica perdesse sentido.

“Existe uma cultura no empreendedorismo que muitas vezes glorifica dormir pouco, trabalhar sem parar e estar disponível 24 horas. Eu penso diferente. Dependendo do nível de responsabilidade que você carrega, estar descansado não é luxo. É responsabilidade.”

A percepção muda também o significado de produtividade. Em vez de observar apenas quantas horas uma pessoa permanece trabalhando, entra em discussão a qualidade dessas horas e as condições em que determinadas decisões estão sendo tomadas.

Pressão para decidir rápido pode aumentar o desafio

A velocidade acrescenta outra camada ao problema.

No mercado secundário de relógios de luxo, determinadas oportunidades podem aparecer e desaparecer rapidamente. Quem participa dessas negociações precisa equilibrar dois movimentos: responder em pouco tempo e, simultaneamente, conferir uma série de informações antes de avançar.

A pressão pode favorecer justamente aquilo que os protocolos tentam evitar: a vontade de encurtar caminhos.

Foi também por essa razão que Renan passou a investir na criação de sistemas de conferência, automação e procedimentos que diminuam a dependência exclusiva da memória e da atenção de uma única pessoa.

A lógica é criar barreiras para que um momento de distração não seja suficiente para produzir uma consequência maior.

Tecnologia ajuda, mas o fator humano permanece

Automatizar processos pode reduzir tarefas repetitivas. Checklists podem ajudar a evitar esquecimentos. Sistemas podem exigir uma segunda conferência antes que determinada operação seja concluída.

Ainda assim, nenhuma ferramenta elimina completamente a presença humana.

Em algum momento, existe alguém interpretando informações, avaliando riscos e autorizando uma decisão. Por isso, para Renan, discutir a qualidade de um processo também significa olhar para as condições de quem precisa executá-lo.

“No final, empresas são feitas de pessoas tomando decisões. Quanto maior o valor e a velocidade dessas decisões, mais importante se torna proteger a qualidade mental de quem está por trás delas.”

A reflexão também amplia a discussão sobre saúde mental no trabalho. Nem toda prevenção depende exclusivamente de uma mudança individual. Processos bem definidos, divisão de responsabilidades e mecanismos de conferência podem reduzir situações em que tudo depende da atenção de uma única pessoa.

Uma discussão que vai além do mercado de luxo

Embora a experiência de Renan aconteça em um setor bastante específico, o dilema está presente em diferentes profissões.

Executivos, profissionais da saúde, motoristas, operadores de máquinas, empreendedores e trabalhadores responsáveis por atividades críticas podem enfrentar rotinas em que decisões importantes precisam ser tomadas sob pressão.

Nesses contextos, discutir saúde mental não significa apenas falar sobre como alguém se sente depois do expediente. Significa também observar como sobrecarga, descanso insuficiente e pressão podem atravessar a própria rotina profissional.

Reconhecer os próprios limites, organizar pausas e evitar transformar jornadas exaustivas em sinônimo de sucesso entram nessa conversa.

Saber parar também faz parte da responsabilidade

Para Renan, a experiência modificou principalmente a maneira de enxergar a relação entre quantidade de trabalho e desempenho.

Trabalhar durante mais horas não significa, necessariamente, estar nas melhores condições para tomar uma decisão. Da mesma maneira, estar permanentemente disponível não representa obrigatoriamente maior produtividade.

Em uma rotina cercada por operações de alto valor, ele passou a considerar o próprio estado físico e mental como mais uma variável antes de decisões importantes.

No universo da alta relojoaria, precisão e tempo são dois conceitos inseparáveis. A experiência de Renan nesse mercado acabou trazendo uma reflexão que pode ser aplicada para muito além dos relógios: quando a mente está no limite, reconhecer que não é a melhor hora para decidir também pode ser uma forma de responsabilidade.

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