Roberta Nuñez

Édina Vendrame alerta para cuidados com odontologia digital

Especialista explica como scanners, imagens 3D e novos sistemas estão mudando tratamentos e quais são os limites dessas ferramentas

Especialista em Endodontia, Édina Vendrame destaca que a odontologia digital exige tecnologia, capacitação e critérios clínicos.
Foto: Acervo Pessoal / Divulgação
Especialista em Endodontia, Édina Vendrame destaca que a odontologia digital exige tecnologia, capacitação e critérios clínicos.

As doenças bucais atingem quase 3,7 bilhões de pessoas , segundo a Organização Mundial da Saúde. Além do impacto sobre a qualidade de vida, o problema movimenta recursos expressivos: em 2019, os gastos diretos com saúde bucal chegaram a US$ 387 bilhões, equivalentes a aproximadamente 4,8% das despesas globais em saúde. As perdas de produtividade foram estimadas em outros US$ 323 bilhões.

Parte da estrutura assistencial passa por uma transformação tecnológica. Escaneamentos intraorais, tomografias de feixe cônico, programas de modelagem tridimensional, sistemas CAD/CAM e impressão 3D vêm alterando a maneira como informações são registradas, compartilhadas e utilizadas no planejamento odontológico.

O fluxo digital permite substituir determinadas etapas manuais, integrar exames e preparar modelos ou dispositivos personalizados. A tecnologia já aparece na fabricação de próteses, coroas, alinhadores, guias e outros produtos odontológicos. Documentos da Food and Drug Administration (FDA) mostram sistemas que reúnem escaneamento, software de desenho, impressão e pós-processamento em uma mesma cadeia de produção.

A incorporação, porém, ainda é desigual. Pesquisa do painel Clinical Evaluators da American Dental Association, realizada com 369 dentistas, mostrou que 53% utilizavam scanner intraoral. Entre os usuários, 70% apontaram a eficiência clínica como principal razão para a aquisição; entre os que não utilizavam a tecnologia, 66% indicaram o investimento financeiro como a maior barreira.

Com 11 anos de atuação clínica e acadêmica, Édina Vendrame passou pela University of Manitoba, no Canadá, onde participou de pesquisa em Materiais Dentários, e construiu uma trajetória reconhecida e respeitada no meio acadêmico. Especialista em Endodontia e mestre em Odontologia com concentração em Saúde Coletiva, ela acompanha a digitalização a partir da prática clínica, da pesquisa e da gestão da Amici Odontologia, em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul.

Para a especialista, a aquisição de equipamentos representa apenas uma parte da mudança. “A odontologia digital não se resume à substituição de procedimentos convencionais por equipamentos mais recentes. O avanço acontece quando imagens, escaneamentos e informações clínicas são integrados com critérios técnicos e utilizados para responder a uma necessidade real do tratamento”, afirma Édina.

Limitações

As limitações são especialmente relevantes nas imagens tridimensionais. Na Endodontia, a American Association of Endodontists reconhece que a tomografia de feixe cônico pode acrescentar informações em casos complexos, mas sustenta que o exame não deve ser empregado rotineiramente sem sinais, sintomas ou justificativa clínica.

A responsabilidade pela decisão permanece com o cirurgião-dentista. Programas de modelagem e serviços de processamento podem auxiliar na organização dos dados, sem substituir diagnóstico, prescrição ou avaliação do paciente. “Uma imagem tridimensional pode oferecer informações valiosas, mas sua utilidade depende da qualidade da aquisição, da integração correta dos arquivos e da interpretação do profissional responsável. Quando não há protocolo e treinamento, a tecnologia pode aumentar a complexidade sem necessariamente melhorar o cuidado”, acrescenta Édina.

A digitalização pode trazer ganhos de organização e previsibilidade, mas não garante redução de custos nem melhores resultados em qualquer procedimento. O retorno depende do volume de utilização, da capacitação, da compatibilidade entre sistemas e da seleção dos casos nos quais a ferramenta oferece benefício real.

Experiência

Essa experiência inspira e orienta um novo projeto profissional de Édina. A dentista planeja estabelecer em Orlando a Amici Digital Services, voltada ao processamento tridimensional, à organização de fluxos digitais e ao treinamento de profissionais e clínicas licenciadas. “A empresa atuará exclusivamente como provedora de serviços técnicos e tecnológicos para profissionais licenciados”, registra o plano do negócio, que não prevê diagnóstico, prescrição ou atendimento direto a pacientes.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG