Roberta Nuñez

Anvisa investiga casos de perda de visão ligados a canetas

Dra. Nubia Vanessa explica condição rara que pode causar perda súbita da visão e sua possível relação com a semaglutida

Anvisa investiga casos de perda de visão ligados a canetas
Foto: Canva
Anvisa investiga casos de perda de visão ligados a canetas

A Anvisa investiga notificações de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA), uma condição rara que pode provocar perda súbita da visão e deixar sequelas permanentes.

Os casos chamaram atenção pela possível associação com o uso de canetas emagrecedoras, especialmente medicamentos à base de semaglutida, embora a relação de causa e efeito ainda seja investigada.

A condição ocorre quando há redução do fluxo sanguíneo para a porção anterior do nervo óptico.

Segundo a oftalmologista Dra. Nubia Vanessa, do CBV-Hospital de Olhos, uma das características da doença é justamente o aparecimento repentino das alterações visuais, geralmente sem dor.

“A NOIA é uma lesão do nervo óptico causada pela redução do fluxo sanguíneo em sua porção anterior. Geralmente provoca perda visual súbita, indolor e em um olho. Nos casos associados à semaglutida, foram observados edema do disco óptico e, posteriormente, atrofia das fibras nervosas, mas ainda não há um padrão específico comprovado nem relação causal estabelecida”, explica.

Quais são os sinais de alerta?

A perda de visão relacionada à NOIA pode ser percebida de maneira repentina, principalmente em um dos olhos.

Entre os sinais estão visão borrada, alteração no campo visual e redução da percepção das cores.

A oftalmologista explica que alguns sintomas merecem atenção especial entre pessoas que utilizam medicamentos à base de semaglutida.

“Os principais sinais são visão borrada ou perda visual em um olho, sombra ou ‘cortina’ no campo visual, defeitos na metade superior ou inferior da visão, redução da percepção de cores e diferença importante entre os olhos. A perda costuma ser súbita, frequentemente percebida ao acordar, mas também pode piorar ao longo de horas ou alguns dias. Esses sintomas exigem avaliação oftalmológica urgente”, alerta.

Como é feito o diagnóstico?

A investigação começa com uma avaliação oftalmológica detalhada.

O médico pode realizar exames para verificar a acuidade visual, o funcionamento das pupilas, o fundo de olho e o campo visual, além de utilizar exames de imagem para analisar o nervo óptico.

“O diagnóstico é feito por avaliação oftalmológica, incluindo acuidade visual, exame das pupilas, fundo de olho, campo visual e tomografia de coerência óptica. Exames laboratoriais e de imagem podem ser solicitados para excluir outras causas, especialmente a forma arterítica da doença. Não existe tratamento comprovado que reverta o dano; é necessário controlar os fatores de risco e discutir o uso da semaglutida com o médico. Pode haver alguma recuperação, mas defeitos de campo visual e outras sequelas permanentes são frequentes”, ressalta.

Relação com as canetas ainda é investigada

A possível associação entre a semaglutida e a NOIA vem sendo analisada a partir de notificações, relatos de casos e estudos observacionais.

Até o momento, os dados não permitem estabelecer de maneira definitiva que o medicamento seja a causa da doença.

“Há relatos de casos e estudos observacionais que sugerem uma possível associação entre semaglutida e NOIA, mas os resultados ainda são conflitantes. A relação de causa e efeito não foi comprovada. Diabetes, hipertensão, apneia do sono, doença cardiovascular, hipotensão noturna e características anatômicas do nervo óptico também podem contribuir. Por isso, a Anvisa e pesquisadores continuam investigando o sinal de segurança”, explica Dra. Nubia Vanessa.

A existência das notificações não significa que todas as pessoas que utilizam esses medicamentos estejam sob o mesmo risco.

O principal alerta é para o surgimento de alterações repentinas na visão.

Diante de perda visual súbita, visão borrada importante ou mudanças no campo visual, a orientação é procurar atendimento oftalmológico com urgência.

Quem utiliza semaglutida também não deve interromper o tratamento por conta própria.

A decisão sobre manutenção, substituição ou suspensão do medicamento deve ser discutida com o médico responsável, considerando os benefícios do tratamento, os fatores de risco individuais e qualquer alteração apresentada durante o uso.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG