
A evolução dos aparelhos de ultrassom trouxe imagens mais detalhadas, maior capacidade de processamento e novos recursos para auxiliar diagnósticos. Mas, na ecografia vascular, contar com equipamentos modernos não é, sozinho, garantia de um exame de qualidade.
Parte importante do resultado depende das decisões tomadas pelo profissional durante a própria investigação. Posicionamento e angulação do transdutor, ajustes do equipamento, reconhecimento da anatomia, escolha dos segmentos examinados e interpretação dos padrões encontrados interferem diretamente na informação que chegará ao médico.
“O aparelho entrega informação, mas é o profissional que precisa saber como procurá-la. Você pode ter uma tecnologia excelente à disposição e ainda assim não aproveitar tudo o que ela oferece se não houver domínio da técnica, da anatomia e da fisiologia vascular”, afirma o cirurgião vascular Dr. Vinicius Cruz Majdalani .
Formado em Medicina pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Majdalani concluiu residências em Cirurgia Geral e Cirurgia Vascular e obteve certificação de atuação em Ecografia Vascular com Doppler. Ao longo de mais de 17 anos de atuação profissional na área vascular, passou a combinar o atendimento aos pacientes com a formação de outros profissionais.
O médico participou da implantação do primeiro curso de Ultrassonografia Vascular da Bahia, no qual permaneceu durante sete anos como coordenador e instrutor. Nesse período, o desafio deixou de ser apenas executar exames e passou a envolver também a transformação da experiência prática em conhecimento que pudesse ser compreendido e reproduzido por outros profissionais.
Por que o ultrassom depende do profissional?
Diferentemente do que pode parecer para quem observa apenas a imagem pronta no monitor, a ultrassonografia é construída durante sua execução. O profissional precisa localizar estruturas, obter imagens adequadas, realizar medidas, reconhecer alterações, modificar parâmetros quando necessário e decidir quando um achado exige investigação adicional.
Isso ajuda a explicar por que Majdalani passou a dedicar parte de sua trajetória à formação prática. A experiência acumulada entre a realização de exames e o ensino levou o médico a organizar o treinamento em torno da aproximação progressiva entre conhecimento teórico, observação, execução supervisionada e interpretação.
“Eu não acredito que alguém aprenda ecografia vascular apenas memorizando um protocolo. O protocolo é indispensável, mas o profissional precisa entender o que está vendo e saber o que fazer quando o exame não se apresenta exatamente como estava no livro”, diz.
Durante os anos em que esteve à frente da formação em ultrassonografia vascular, Majdalani realizou também centenas de exames em contexto de ensino. A experiência ajudou a transformar situações encontradas na rotina clínica em material de treinamento, aproximando a formação técnica das decisões que surgem diante de um paciente real.
“Existe uma diferença entre repetir etapas e compreender o exame. Quando ensino, quero que o profissional consiga justificar por que fez determinada manobra, por que mudou um parâmetro e por que decidiu investigar um segmento com mais atenção. É isso que transforma a execução em raciocínio clínico”, explica Majdalani.
Da experiência individual à formação de outros médicos
A transferência de conhecimento não ficou restrita à ultrassonografia. Majdalani também acumulou experiência na disseminação de procedimentos vasculares, incluindo atividades de treinamento e acompanhamento técnico de cirurgiões vasculares na Bahia, em Sergipe e no Rio Grande do Sul.
Esse tipo de atuação ajudou a definir uma característica de sua trajetória: utilizar a experiência adquirida na prática não apenas no atendimento individual, mas também na capacitação de outros profissionais.
“Quando uma técnica nova chega, o impacto não deveria terminar no primeiro médico que aprendeu a utilizá-la. Existe uma responsabilidade de transmitir conhecimento, discutir indicação, mostrar limites e acompanhar os primeiros casos. É assim que uma inovação deixa de ser pontual e passa a fazer parte de uma prática médica mais consistente”, afirma.
O cirurgião também levou parte dessa experiência para a produção acadêmica. É coautor de capítulos médicos relacionados ao uso de plugs e coils em embolização, técnicas de ablação térmica para doença das veias safenas e critérios de acompanhamento por Duplex Scan após procedimentos de ablação térmica.
A combinação entre assistência, incorporação de técnicas e formação de profissionais fez com que o ensino deixasse de ocupar um espaço paralelo em sua carreira e passasse a funcionar como uma forma de ampliar o alcance do conhecimento acumulado na atividade clínica.
Qual é o papel dos protocolos?
Na ecografia vascular, protocolos ajudam a estabelecer uma sequência de investigação, padronizar etapas e reduzir o risco de omissões. Entidades especializadas, como a Society for Vascular Ultrasound, publicam recomendações de desempenho para diferentes exames vasculares que servem de referência para profissionais e serviços.
Padronizar, entretanto, não significa transformar o exame em uma operação automática. Características anatômicas, condições clínicas, limitações técnicas e achados identificados durante a investigação podem exigir adaptações.
Para Majdalani, essa é uma das diferenças entre conhecer um protocolo e dominar a técnica.
“O aluno percebe quando aquilo que está sendo explicado vem de uma situação que o professor já precisou resolver na prática. Os casos reais trazem nuances que dificilmente cabem integralmente em uma apresentação. Meu objetivo é fazer com que o profissional desenvolva segurança sem perder o senso crítico”, diz.
Equipamentos modernos resolvem tudo?
A evolução tecnológica ampliou as possibilidades da ultrassonografia, mas não eliminou a participação humana na qualidade da aquisição. Características do paciente, limitações de janela acústica, configurações do aparelho e decisões realizadas durante a investigação continuam interferindo no resultado.
“Quanto melhor fica a tecnologia, maior é a tentação de acreditar que ela resolve tudo sozinha. Não resolve. Um equipamento moderno amplia possibilidades, mas ainda precisamos formar pessoas capazes de reconhecer um exame tecnicamente inadequado, corrigir a aquisição e relacionar a imagem com o quadro do paciente”, afirma Majdalani.
A discussão se torna especialmente relevante à medida que novos equipamentos e recursos passam a fazer parte da rotina médica. Para o cirurgião, a incorporação tecnológica precisa ser acompanhada pela qualificação de quem utilizará essas ferramentas.
Depois de mais de 17 anos de atuação na área vascular, conciliando cirurgia, ecografia e formação de profissionais, Majdalani começa a levar parte dessa experiência para os Estados Unidos. Em Connecticut, estrutura a M4USA, iniciativa voltada à educação continuada, com cursos, treinamentos e atividades relacionadas à ecografia vascular e ao diagnóstico por imagem.
O projeto dá continuidade à vertente de ensino desenvolvida pelo médico no Brasil, agora direcionada à formação e ao intercâmbio de conhecimento entre profissionais de saúde.
“Mudar de país não muda o princípio. O conhecimento médico precisa circular. Se a experiência acumulada durante anos puder ajudar outro profissional a executar um exame melhor, tomar uma decisão mais segura ou compreender algo que antes parecia difícil, ela deixa de pertencer apenas à trajetória de uma pessoa”, conclui.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG