Roberta Nuñez

Implantes e scanners mudam tratamentos dentários; entenda

Paulo Henrique Pergher explica como novas tecnologias transformam a odontologia e por que avaliação clínica continua essencial para o tratamento

Paulo Henrique Pergher
Foto: Divulgação
Paulo Henrique Pergher

Scanners capazes de criar modelos digitais da boca, softwares utilizados no planejamento e avanços nos implantes estão modificando diferentes etapas dos tratamentos odontológicos.

Os novos recursos podem reduzir procedimentos, ampliar informações disponíveis ao dentista e contribuir para o planejamento, mas não eliminam a necessidade de avaliação clínica.

A transformação ocorre em um cenário no qual os problemas de saúde bucal ainda atingem uma parcela expressiva da população.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que doenças orais afetem cerca de 3,5 bilhões de pessoas no mundo.

Para o dentista Paulo Henrique Pergher, com cerca de 20 anos de atuação, a chegada de novas ferramentas trouxe possibilidades importantes, mas também aumentou a necessidade de entender quando cada tecnologia realmente oferece benefícios ao paciente.

“A odontologia mudou muito em duas décadas. Hoje temos mais recursos de diagnóstico, planejamento, materiais e fluxos digitais, mas isso também aumenta a responsabilidade de saber interpretar evidências e entender onde cada tecnologia realmente agrega valor”, afirma Paulo.

O que os scanners mudaram no tratamento?

Uma das transformações mais visíveis ocorreu na digitalização de etapas que tradicionalmente dependiam de procedimentos manuais.

O escaneamento intraoral permite registrar digitalmente estruturas da boca e produzir informações que podem ser utilizadas no planejamento de determinados tratamentos.

Dependendo do caso, esses dados também podem ser integrados a outras ferramentas e etapas de produção.

Estudos apontam vantagens dos fluxos digitais em determinadas situações.

Uma revisão publicada em 2023 identificou, nos trabalhos analisados, redução média de 8,59 minutos no procedimento de impressões digitais de implantes em arco completo em comparação às impressões convencionais.

Isso não significa, entretanto, que o método digital seja automaticamente superior em qualquer situação.

Fatores como extensão do arco, estratégia utilizada durante o escaneamento, posição dos implantes e características do equipamento podem interferir na precisão.

“O digital é uma ferramenta extraordinária quando bem indicado. O risco é imaginar que o software tomou a decisão clínica pelo profissional. A qualidade continua dependendo da aquisição dos dados, do planejamento e da capacidade de reconhecer os limites do método”, diz Paulo.

Quanto tempo pode durar um implante?

Os implantes dentários também estão entre os recursos que ganharam espaço na reabilitação oral.

Uma dúvida recorrente dos pacientes, porém, envolve a durabilidade do tratamento.

Revisões científicas citadas no material apontam índices elevados de sobrevida.

Uma delas estimou taxa de 96,4% para implantes acompanhados por dez anos.

Outra análise de próteses fixas implanto-suportadas encontrou sobrevida estimada dos implantes de 95,6% em cinco anos e 93,1% em dez anos.

Os números precisam ser interpretados com cautela.

A permanência do implante em função não significa necessariamente ausência de intercorrências durante todo o período.

Complicações técnicas ou biológicas podem surgir e exigir acompanhamento e manutenção.

“Quando se fala em taxa de sucesso, é importante explicar o que está sendo medido. Sobrevida do implante, saúde dos tecidos, integridade da prótese e satisfação do paciente são resultados diferentes. Formação de qualidade precisa ensinar o profissional a ler esses números com contexto.”

Tecnologia substitui a avaliação do dentista?

Apesar da evolução de scanners, softwares e materiais, as ferramentas digitais não substituem o diagnóstico e o planejamento realizados pelo profissional.

Informações obtidas por diferentes métodos precisam ser interpretadas considerando as condições de saúde bucal, necessidades e características de cada paciente.

A rapidez com que novas tecnologias chegam ao mercado também cria um desafio.

Enquanto equipamentos e softwares podem ganhar novas versões em períodos relativamente curtos, estudos capazes de avaliar resultados clínicos de longo prazo precisam acompanhar pacientes durante anos.

Essa diferença de velocidade torna importante separar novidade tecnológica de benefício clínico comprovado.

Para Paulo, incorporar uma ferramenta à rotina não deve depender apenas de ela ser mais recente, mas da existência de indicação e conhecimento sobre suas possibilidades e limitações.

Saúde bucal ainda representa desafio

Os avanços tecnológicos convivem com problemas básicos de saúde bucal que permanecem frequentes.

Além da estimativa global da OMS, dados do CDC citados no material apontam que aproximadamente 21% dos adultos de 20 a 64 anos nos Estados Unidos apresentam ao menos uma cárie não tratada.

Ao mesmo tempo, o setor odontológico norte-americano movimenta valores expressivos.

Em 2024, os gastos odontológicos chegaram a US$ 189 bilhões nos Estados Unidos, equivalentes a 3,6% das despesas nacionais com saúde, segundo análise do Health Policy Institute da American Dental Association com dados federais.

O cenário reúne, portanto, duas realidades: tecnologias cada vez mais sofisticadas e uma demanda ainda significativa por prevenção e tratamento de doenças bucais.

Atualização também interfere no atendimento

Graduado em Odontologia em 2005, Paulo possui formação em Prótese Dentária e Ortodontia e, em 2026, iniciou formação em Implantodontia.

Para ele, a integração entre diferentes áreas se torna relevante principalmente em tratamentos mais complexos, nos quais posição dos dentes, planejamento protético, condições dos tecidos e possibilidades de reabilitação precisam ser avaliados em conjunto.

O dentista também estrutura nos Estados Unidos uma atuação não clínica voltada à educação continuada, com produção técnica, cursos teóricos e compartilhamento de conhecimento com profissionais e instituições.

“Conhecimento clínico ganha alcance quando deixa de ficar restrito à experiência individual e passa a ser documentado, discutido e ensinado de forma responsável”, conclui Paulo.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG