
O câncer de próstata está entre os principais desafios da saúde masculina no Brasil.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a doença é uma das mais frequentes entre os homens, desconsiderando os tumores de pele não melanoma.
Embora o diagnóstico precoce e o acompanhamento médico continuem fundamentais, os avanços tecnológicos têm permitido identificar a extensão da doença com maior precisão e ampliar as possibilidades terapêuticas em situações específicas.
Entre essas mudanças está o desenvolvimento da medicina nuclear, especialidade que utiliza pequenas quantidades de substâncias radioativas para obter imagens do funcionamento do organismo e, em determinadas situações, tratar doenças.
Um dos principais recursos é o PET/CT com PSMA, exame que combina imagens metabólicas e anatômicas para identificar regiões com maior expressão do antígeno de membrana específico da próstata, conhecido pela sigla PSMA.
Essa proteína está presente em níveis elevados na maioria dos tumores prostáticos, permitindo que substâncias desenvolvidas para reconhecer esse alvo ajudem a localizar possíveis focos da doença.
Na prática, o exame pode auxiliar os médicos a identificar a localização e a extensão do câncer, especialmente em situações como a investigação de recidivas, quando há suspeita de retorno da doença após o tratamento e no estadiamento de pacientes selecionados.
A médica nuclear Dra. Cristina Matushita acompanha essa evolução há anos.
Em 2018, concluiu na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) sua dissertação de mestrado sobre o uso do PET/CT com PSMA no câncer de próstata.
Também participou de trabalhos científicos relacionados ao tema, incluindo uma revisão sistemática e meta-análise com dados de milhares de pacientes.
“Quando começamos a trabalhar com PET/CT com PSMA, o grande ganho foi perceber o quanto a imagem molecular poderia acrescentar às informações que já tínhamos sobre a doença. Hoje conseguimos localizar melhor onde ela está e avaliar sua extensão em situações clínicas específicas. Isso pode mudar a forma como aquele paciente será conduz”, explica Cristina.
Quando o diagnóstico também orienta o tratamento
O PSMA também está relacionado a uma das abordagens mais relevantes da medicina nuclear moderna, conhecida como teranóstico.
O conceito combina diagnóstico e terapia a partir de um mesmo alvo molecular, permitindo identificar determinadas características do tumor e avaliar a possibilidade de utilizar um tratamento direcionado a elas.
É o caso das terapias com lutécio-177, um elemento radioativo que pode ser ligado a moléculas capazes de reconhecer o PSMA.
Após a administração, o radiofármaco circula pelo organismo e se concentra em regiões que expressam esse alvo, emitindo radiação que pode danificar as células tumorais.
O PET/CT com PSMA tem uma função importante nesse processo, pois ajuda a verificar se o tumor apresenta expressão suficiente do alvo para que a terapia seja considerada.
“Essa é uma das coisas mais interessantes do teranóstico. Nós conseguimos primeiro enxergar o alvo e, a partir dessa informação, avaliar se faz sentido utilizar uma terapia dirigida a ele. Não significa que todos os pacientes com câncer de próstata terão indicação, mas nos dá uma ferramenta a mais para escolher melhor o tratamento para determinados pacientes”, afirma Cristina.
Entre os medicamentos desenvolvidos com esse princípio está o Pluvicto (lutécio-177 vipivotida tetraxetana, também conhecido como ¹⁷⁷Lu-PSMA-617), indicado em contextos específicos do câncer de próstata metastático resistente à castração e com expressão de PSMA.

Em abril de 2025, o Instituto do Cérebro (InsCer), da PUCRS, realizou sua primeira administração do medicamento. Cristina participou da implementação da terapia na instituição e acompanhou o primeiro paciente tratado.
Para a especialista, a incorporação dessas tecnologias exige conhecimento técnico, infraestrutura adequada e integração entre profissionais de diferentes especialidades.
“Não basta ter um novo radiofármaco disponível. É preciso selecionar corretamente o paciente, avaliar os exames, conhecer os tratamentos que ele já recebeu e discutir o caso com a equipe que o acompanha. A medicina nuclear passa a participar cada vez mais dessa decisão terapêutica junto com a oncologia e a urologia”, explica.
Avanços não significam indicação para todos os pacientes
Apesar dos resultados promissores, nem todos os homens diagnosticados com câncer de próstata precisam realizar PET/CT com PSMA ou receber tratamentos com radiofármacos.
A indicação depende de fatores como estágio da doença, extensão do tumor, tratamentos anteriores, condições clínicas e características identificadas nos exames.
O PET/CT com PSMA também não substitui os métodos habituais de avaliação inicial, como o PSA, o exame clínico e a biópsia quando indicada.
Seu papel é complementar a investigação em situações nas quais as informações obtidas podem modificar a conduta médica.
No caso das terapias com lutécio-177, também é necessário considerar possíveis efeitos adversos, como fadiga, náuseas, alterações nas células sanguíneas e comprometimento de glândulas salivares ou da função renal.
Por isso, o acompanhamento especializado é indispensável.
“Estamos vivendo uma fase muito interessante da medicina nuclear. Durante muito tempo, ela foi lembrada principalmente pelos exames diagnósticos. Hoje continuamos fazendo diagnóstico, mas também participamos diretamente do tratamento. E acredito que essa integração entre imagem e terapia ainda vai crescer muito nos próximos anos”, conclui Cristina.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG