Roberta Nuñez

Procedimentos estéticos exigem cuidados além da aparência

Dra. Adriana Gois Machado explica os riscos envolvidos nos tratamentos e a importância da avaliação médica e da qualificação profissional

Procedimentos estéticos exigem cuidados além da aparência
Foto: Acervo Pessoal / Divulgação
Procedimentos estéticos exigem cuidados além da aparência

A popularização dos procedimentos estéticos e a influência das redes sociais têm ampliado o interesse por tratamentos que prometem melhorar a aparência, suavizar sinais de envelhecimento e modificar características faciais. Entretanto, por trás de técnicas frequentemente apresentadas como simples e rápidas, existem riscos que precisam ser considerados antes de qualquer intervenção.

Preenchimentos, aplicação de toxina botulínica e outros procedimentos minimamente invasivos exigem conhecimento anatômico, avaliação individualizada e cuidados específicos.  Embora muitos tratamentos sejam realizados em consultórios e permitam o retorno relativamente rápido às atividades cotidianas, isso não significa que estejam livres de complicações.

A médica brasileira Dra. Adriana Gois Machado, com trajetória profissional no Brasil e atuação na área de medicina estética no Canadá, chama atenção para a necessidade de compreender os aspectos clínicos envolvidos nessas intervenções. Segundo a especialista, a segurança começa antes da realização do procedimento, com a identificação de riscos, contraindicações e condições de saúde que possam interferir nos resultados.

Por que a avaliação antes do procedimento é importante?
Cada organismo apresenta características próprias, e nem todos os tratamentos são indicados para todas as pessoas. Doenças preexistentes, uso de medicamentos, histórico de alergias, infecções e particularidades anatômicas podem influenciar a escolha da técnica e os cuidados necessários.

Por isso, a avaliação clínica não deve se limitar à região do corpo ou do rosto que o paciente deseja modificar. É necessário compreender seu histórico de saúde, suas expectativas e as possíveis consequências da intervenção.

A Dra. Adriana destaca a importância de reconhecer situações nas quais o procedimento precisa ser adiado, adaptado ou contraindicado. A decisão de não realizar determinada intervenção também faz parte de uma assistência responsável.

Outro ponto importante é o alinhamento das expectativas. Fotografias divulgadas nas redes sociais nem sempre representam resultados que podem ser reproduzidos em outras pessoas, especialmente porque fatores individuais influenciam a resposta aos tratamentos.

Quais são os principais riscos dos tratamentos estéticos?
Mesmo procedimentos considerados minimamente invasivos podem provocar reações adversas. Entre as possíveis complicações estão infecções, hematomas, assimetrias, reações inflamatórias e alterações relacionadas à aplicação de determinadas substâncias.

Nos preenchimentos realizados com materiais injetáveis, uma das complicações mais graves é a obstrução de vasos sanguíneos, que pode comprometer a circulação local e provocar lesões nos tecidos. Em determinadas regiões da face, também existem riscos raros, mas graves, que podem afetar a visão.

Dor intensa ou progressiva, alterações incomuns na coloração da pele e mudanças visuais após procedimentos injetáveis são sinais que exigem avaliação médica imediata.

O reconhecimento precoce dessas manifestações é fundamental para possibilitar uma intervenção adequada e reduzir a possibilidade de danos permanentes.

Nesse contexto, a qualificação profissional envolve não apenas o domínio da técnica, mas também a capacidade de identificar complicações, adotar medidas de segurança e orientar o paciente diante de intercorrências.

Redes sociais podem influenciar decisões sobre a saúde
A divulgação de resultados estéticos nas plataformas digitais contribui para apresentar novas possibilidades de tratamento, mas também pode favorecer expectativas irreais.

Vídeos curtos, fotografias de antes e depois e relatos de influenciadores nem sempre oferecem informações suficientes sobre contraindicações, limitações e possíveis efeitos adversos.

Além disso, resultados obtidos em uma pessoa não garantem respostas semelhantes em outras. Características da pele, idade, anatomia, condições clínicas e técnicas utilizadas podem modificar os efeitos de cada intervenção.

Antes de escolher um tratamento, é importante buscar informações em fontes confiáveis e compreender que procedimentos estéticos não devem ser avaliados exclusivamente pela aparência do resultado divulgado.

Como identificar um profissional qualificado?
A escolha de um profissional legalmente habilitado para realizar o procedimento é uma das principais medidas preventivas.

O paciente deve verificar o registro profissional, a formação compatível com a técnica oferecida e as condições do estabelecimento em que o atendimento será realizado.

Também é importante esclarecer quais produtos serão utilizados, conhecer seus possíveis efeitos adversos e compreender como será realizado o acompanhamento após a intervenção.

A existência de protocolos para atendimento de complicações e a orientação sobre sinais de alerta são aspectos relevantes na avaliação da segurança.

Formação clínica e conhecimento científico fazem diferença
Graduada em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com residência em Cirurgia Geral e pós-graduações em Terapia Intensiva e Dermatologia Avançada, a Dra. Adriana Gois Machado ressalta, em sua abordagem profissional, a importância da formação clínica e da atualização científica.

Sua experiência também inclui atividades de educação profissional, avaliação de trabalhos científicos e revisão de artigos para periódico médico internacional.

A combinação entre conhecimento técnico, compreensão da anatomia e capacidade de reconhecer condições clínicas de risco contribui para decisões mais seguras e individualizadas.

A atualização profissional também é relevante diante do desenvolvimento de novas tecnologias, técnicas e materiais utilizados na medicina estética.

O que perguntar antes de realizar um procedimento?
Antes de iniciar qualquer tratamento, o paciente deve esclarecer qual é a indicação da técnica, quais resultados podem ser esperados, quanto tempo duram seus efeitos e quais complicações podem ocorrer.

Também é importante compreender se haverá necessidade de sessões adicionais, quais cuidados deverão ser adotados após o atendimento e como procurar assistência caso surjam sintomas inesperados.

O consentimento informado deve fazer parte desse processo, permitindo que a pessoa tome sua decisão com conhecimento dos benefícios, riscos e alternativas disponíveis.

Em um cenário de crescente interesse por tratamentos estéticos, a avaliação individualizada, a qualificação profissional e a prevenção de complicações devem permanecer no centro das decisões.

Mais do que alcançar determinado padrão de beleza, realizar um procedimento estético exige compreender que qualquer intervenção no organismo envolve responsabilidades relacionadas à saúde e à segurança do paciente.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG