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Governo oferece suporte desde 2005, mas poucas unidades básicas de saúde fazem atendimento

O Brasil conta com 30.135 mil unidades básicas de saúde em todo o País. Menos de mil delas oferecem tratamento especializado ao fumante.

Há cinco anos, o Ministério da Saúde criou um programa de apoio ao tabagista, com critérios delineados: capacitação de profissionais, grupos de apoio, cartilhas e medicamentos entregues trimestralmente às unidades autorizadas. A idéia é oferecer suporte clínico e medicamentoso àqueles que desejam se tornar ex-fumantes.

Entretanto, além do gargalo estrutural – a contradição óbvia entre o número de UBS existentes e a parcela mínima que está credenciada para tratar o tabagismo – encontrar informações sobre o programa e identificar as redes participantes parece uma tarefa tão difícil quanto abandonar o vício.

Se ao decidir parar de fumar o cidadão optar pela ajuda oferecida no Disque Saúde (0800 61 1997) ou buscar informações sobre as possibilidades do tratamento na página do Ministério da Saúde, destinada ao tabagista, não encontrará nenhum dado sobre o atendimento médico nos postos de saúde, tampouco conseguirá encontrar qual unidade, no seu estado, oferece o serviço. Um passo a passo simples, com dicas, e uma espécie de auto-ajuda virtual é o máximo que a página ou o serviço telefônico oferecem.

Tratamento: demanda muito além das poucas unidades públicas capacitadas
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Tratamento: demanda muito além das poucas unidades públicas capacitadas
Ricardo Henrique Meirelles, pneumologista da Divisão de Controle de Tabagismo do Inca, instituição responsável pelo desenvolvimento do programa, reconhece que há uma lacuna absoluta no acesso à informação e na divulgação do atendimento à população.

“Há essa falha. Queremos que os dois serviços, tanto virtual quanto o telefônico, informem por região as unidades básicas que podem dar suporte aos fumantes, mas isso ainda é um plano futuro.”

Hoje, cabe aos estados e municípios o papel de divulgação da rede credenciada na região. A forma como o programa foi estruturado, segundo o médico, divide a responsabilidade de propaagação do serviço e justifica o baixo número de unidades participantes.

Meirelles explica que o programa não é imposto a nenhum estado. O interesse deve partir dos secretários de Saúde. É papel de cada município informar ao Ministério da Saúde a necessidade de atendimento ao fumante. A partir daí, o Governo oferece a capacitação dos profissionais, material (cartilhas de apoio) e medicamentos. A distribuição é feita trimestralmente.

“Se os secretários municipais não tiverem interesse, não entenderem a importância desse atendimento ambulatorial para a saúde pública, não temos como impor que esse serviço exista. A carência continuará existindo.”

A estrutura do programa dá liberdade aos estados, mas provoca um grande gargalo no atendimento ao fumante no País. Até o final de 2010, Meirelles acredita que o número de Unidades participantes triplique, ultrapassando três mil postos. A expectativa é que o serviço seja oferecido em 3313 unidades em todo o Brasil. Na avaliação do médico, encarar o tabagismo como uma doença é uma realidade da medicina moderna, que vem sendo incorporada pelos órgãos públicos e privados nos últimos anos.

O Hospital do Coração, assim como a grande maioria de dos hospitais particulares, oferece um tratamento específico ao fumante. Os custos, porém, são elevados. Silvia Cury, pneumologista da Instituição, revela que em oito semanas de tratamento, o paciente gastará, em média, R$ 1.500. O valor inclui acompanhamento de um terapeuta e medicação. No HCor, o fumante recebe um tratamento individualizado, com auxilio nutricional, psicológico, além de exames e avaliação clínica.

Defasagem

Nas unidades básicas, o tratamento tem duração de um ano. Os remédios (adesivo de nicotina, goma ou pastilhas, antidepressivos ou medicamentos que cortam o prazer dado pela nicotina) só podem ser prescritos por médicos especializados, mas o atendimento ao fumante é feito por qualquer profissional de saúde capacitado pelo Inca. O programa oferece um grupo de apoio ao tabagista. No primeiro mês, as reuniões são semanais, no segundo, quinzenais e após o terceiro mês, o paciente passa a receber um acompanhamento mensal.

A metodologia tende a ser semelhante à usada em redes privadas. Meirelles explica que é impossível ter psicólogos e nutricionistas em todas as redes, principalmente nas unidades mais afastadas, como no nordeste e no norte do País.

“Oferecemos um serviço de massa, não temos como elitizar esse atendimento. Mas há capacitação e qualidade. É fundamental que o fumante tenha auxilio e o tabagismo seja tratado como uma doença.”

Em 2008, as unidades de saúde atenderam 67 mil fumantes. Apenas no primeiro semestre de 2009, 43 mil pessoas já participaram do programa. No Hcor, em São Paulo, 500 pessoas por ano participam do tratamento e tentam deixar o vício. O custo, para a instituição, gira em torno de 700 mil reais por ano. A procura por auxílio, segundo os especialistas, cresce a cada ano.

Para Meirelles, tratar um fumante em Unidades Básicas ou iniciativas privadas de apoio, representa um custo expressivamente menor comparado aos impactos das doenças causadas pelo fumo à saude pública.

“Os gastos são infinitamente menores. É um problema sério deixar para tratar o fumante quando os danos e impactos são, muitas vezes, irreversíveis. É preciso dar apoio, estímulo para que o vício seja cortado o quanto antes.”

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