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Segundo ONG, 70% das mortes maternas se registram onde se produz 40% do total de nascimentos

Duas de cada três mortes de mulheres por causas relacionadas à maternidade não são registradas como tais nos hospitais de Buenos Aires, algo "muito preocupante" que ocorre nas regiões mais pobres da Argentina, segundo especialistas consultados pela Agência Efe.

Uma recente pesquisa da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Buenos Aires (Sogiba) baseada em 400 histórias clínicas adverte sobre o registro paralelo das mortes de mulheres por causas relacionadas à gestação, como o aborto, que é o principal motivo de mortalidade materna no país.

"Por cada morte de mulheres em idade reprodutiva por causa materna, havia mais duas mortes pelos mesmos motivos que não foram registradas como tais", se explica no estudo.

Esses resultados fazem crer que a mortalidade materna na Argentina "seria muito maior" do que mostram as estatísticas oficiais, segundo as quais há 40 mortes para cada 100 mil nascidos vivos (300 mortes anuais), segundo o diretor do Centro Rosarino de Estudos Perinatais (Crep), Guillermo Carroli. "E se em um lugar como Buenos Aires - onde as taxas são menores que em outras províncias - nos deparamos com esta realidade, imaginemos o que acontece em regiões do país com mais carências, que têm registros menos confiáveis", indicou.

Para Natalia Gherardi, diretora-executiva da ONG Equipe Latino-Americana de Justiça e Gênero (ELA), a mortalidade materna é alarmante "quando se olha para o interior do país" porque "Buenos Aires não tem nada a ver" com o empobrecido norte argentino. Enquanto as estatísticas oficiais mostram na capital argentina uma taxa duas vezes menor à média nacional (18 para cada 100 mil), em províncias nortistas como Jujuy se quadruplica a média (160 para cada 100 mil).

Segundo Gherardi, "70% das mortes maternas se registram onde se produz 40% do total de nascimentos. E não duvidamos que exista um registro paralelo, pois há mulheres que não tem acesso aos sistemas de saúde". Já de acordo com Carroli, o registro paralelo também ocorre porque as certidões de óbito não se completam de forma correta porque muitas vezes "não há acompanhamento de pacientes que dão à luz em um hospital, que talvez não tem as facilidades para tratá-las, e são transferidas a outro onde acabam morrendo, mas o médico não o vê como uma morte materna".

"Quando um médico completa o relatório estatístico de óbito, com frequência ignora sua utilidade e, temendo implicações legais, não especifica a causa da morte da paciente", argumenta o presidente da Sogiba, Jorge Vinacur. Segundo o Observatório de Saúde Sexual e Reprodutiva (OSSyR), grupo integrado por três instituições acadêmicas argentinas, incluído o Crep, a situação "é muito preocupante" pela "persistência de altas taxas e de fortes desigualdades regionais e sociais, somada à evidência de falhas estruturais do sistema de saúde".

As mortes maternas "não deveriam ocorrer" porque "são evitáveis" e "porque nosso país possui os meios necessários para enfrentar eficazmente este problema", mas "se não o alcançamos até agora é porque foi uma tragédia descuidada", denuncia o OSSyR em um recente documento. Por outro lado, um relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) apresentado em março adverte que os índices de mortalidade materna e os 500 mil abortos que se registram por ano, entre outras realidades, refletem as claras desigualdades do país.

Dado que o aborto induzido é ilegal na Argentina, "sua magnitude só pode ser estimada por meios indiretos", segundo os quais as interrupções voluntárias de gravidez oscilam entre 372 mil e 522 mil por ano, afirma o texto do UNFPA. Nesse sentido, Gherardi considerou que "no número de abortos também há elevados registros paralelos e a taxa é altíssima em relação aos países desenvolvidos nos quais o aborto é permitido".

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