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Pesquisa mostra que idade média para início do tratamento caiu de 56 para 45 anos; “trintões” já são 30% do grupo

Pessoas com 30 anos hoje somam 30% dos pacientes em tratamento para largar p fumo; em 1997, eles eram 2%
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Pessoas com 30 anos hoje somam 30% dos pacientes em tratamento para largar p fumo; em 1997, eles eram 2%
Ricardo Castilho Gandarez procurou ajuda médica para vencer o cigarro aos 33 anos. Há três meses, ele é apresentado aos colegas como “não fumante”. Um estudo que acaba de ser divulgado mostra que esta mudança precoce de categoria está mais comum.

Apesar de ainda não serem maioria, os “trintões” como Ricardo Gandarez estão mais presentes entre os números dos que buscam ajuda para largar o cigarro. Eles eram 2% do grupo em 1997 e hoje já somam 30% dos interessados em parar de fumar.

Em média, a população busca auxílio especializado contra o vício do tabaco aos 45 anos. Há 12 anos, os fumantes esperavam o 56º aniversário para investir no tratamento.

O levantamento sobre o perfil de quem recorre ao tratamento médico para abandonar o fumo foi feito pelo Hospital AC. Camargo e publicado com exclusividade pelo iG. Foram analisados os dados de 6 mil pacientes que, no período, já passaram pelas consultas especializadas da unidade.

“Não precisa de muito tempo para o corpo mostrar como é ruim fumar. Além disso, com as muitas informações disponíveis hoje, é possível fazer uma ligação mais direta entre cigarro e malefícios à saúde”, afirma Ricardo Gandarez, confirmando a teoria dos especialistas que relacionam o rejuvenescimento da procura por ajuda clínica à maior consciência sobre os impactos negativos do tabagismo.

Os motivos

A antecipação em 12 anos da idade média para parar de fumar fez com que os pulmões de Gandarez fossem poupados de 87.600 mil cigarros. Isso porque, ele costumava tragar 20 bastões de nicotina por dia. Apesar disso, não é a subtração pura e simples de substâncias tóxicas que convence os mais jovens a tentar parar de fumar mais cedo, como explica a psiquiatra Célia Lídia da Costa, coordenadora do grupo de apoio ao tabagista do A.C Camargo.

“Antes o que levava as pessoas ao tratamento era uma doença, uma obrigação. Hoje são outras motivações. Como são mais jovens, pensam em qualidade de vida. Citam por exemplo que prejudicam terceiros. Há dez anos o fumo passivo nem era citado. Os conjugues não fumantes também aparecem como uma alavanca para abandonar o hábito”, afirma a coordenadora. “Hoje o propósito da procura é mais preventivo. Antigamente, o foco era curativo.”

Silvia Cury, médica e coordenadora do setor de tabagismo do Hospital do Coração (HCor) avalia que as leis restritivas ao uso do cigarro em bares, restaurantes e casas noturnas, já em vigência em São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Brasília e vários outros locais do País, também contribuíram para impulsionar os mais jovens ao tratamento antifumo.

A explicação é que a “complicação” para fumar – deixar amigos, paqueras e familiares para fumar lá fora – deu um maior peso negativo ao cigarro e o jovem passou a enxergar com mais restrição o tabagismo. Por isso, procurou ajuda. No HCor, diz Silvia Cury, a faixa etária que agora predomina é entre 30 e 50 anos.

Mistura

Ricardo Castilho Gandarez realmente é um legítimo representante dos fumantes mais jovens que param de fumar. Ele abandonou o hábito que o acompanhava desde os 16 anos depois que a namorada deixou o fumo, percebeu que poderia ter problemas de saúde mais sérios futuros se continuasse fumando e que teria muito mais “trabalho” para fumar com a lei antifumo. Ao mesmo tempo, ele também aponta os mesmos motivos que levam as pessoas mais velhas a deixarem o cigarro. Descobriu um câncer de intestino no final do ano passado, que agora já está controlado.

“A saúde, de fato, é o grande incentivo para as pessoas pararem de fumar. E a curiosidade ainda é a grande responsável para as pessoas começarem no vício”, diz ele, que já havia tentado largar o tabaco “umas seis ou sete vezes” e agora, três meses completos sem nenhuma recaída, já começa a acreditar que não vai mesmo voltar a fumar.

Diversas pesquisas internacionais já constataram que o cigarro vicia mais do que outras drogas, em comparação com a maconha e o álcool, como retratou, por exemplo, a publicação de 300 páginas Cannabis Police, produzido pelas autoridades de saúde dos Estados Unidos.

Por este motivo, ao mesmo tempo em que os especialistas comemoram as informações sobre a procura mais precoce dos fumantes pelo tratamento para parar de fumar, há preocupação também com a experiência antecipada dos adolescentes com o fumo.

Segundo estudo divulgado em novembro pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Brasil, a idade média para começar a fumar é 15 anos. Em alguns locais, o início é ainda mais cedo, como mostrou levantamento do Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod) feito na cidade de São Paulo.

Na capital paulista, 13 anos é a idade média que os fumantes “conhecem” o cigarro. Tanto o Inca como a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) têm mais cautela com as meninas. Antes dos 18 anos, elas fumam mais do que os garotos. Justamente o sexo feminino é o que apresenta mais dificuldade em parar de fumar.

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