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Casada com o líder sul-africano, ativista recebe homenagem da USP em seu nome e diz que a África ‘está mudando para melhor’

A ativista de direitos humanos moçambicana Graça Machel, de 65 anos, recebeu nesta quarta-feira uma homenagem da Universidade de São Paulo (USP) em nome do marido, o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela (1994-1999). O líder foi reconhecido com o título de Doutor Honoris Causa, maior homenagem concedida a alguém que não fez carreira na USP.

Em seu discurso de agradecimento, Graça disse “thank you very much” imitando a voz grossa do marido. Depois da brincadeira, afirmou estar emocionada e justificou a ausência de Mandela, de 92 anos, dizendo que ele se retirou da vida pública e não faz mais viagens internacionais.

Graça garantiu que ele receberá o título com “grande honra” por causa da participação das universidades na formação dos jovens. “A lei da natureza implica que ele poderá não apenas se retirar da vida pública, mas também deixar este mundo”, afirmou. “Seu maior desejo é sentir que as instituições e a juventude, em particular do Hemisfério Sul, continuarão as lutas justas e criarão um mundo de igualdade para todos.”

Fernando Henrique Cardoso e Graça Machel durante seminário do Centro Ruth Cardoso na USP
Luísa Pécora
Fernando Henrique Cardoso e Graça Machel durante seminário do Centro Ruth Cardoso na USP

A moçambicana fez a palestra de abertura do 1º Seminário Internacional do Centro Ruth Cardoso, que discute democracia, empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável. Ao encontrar o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), ela lhe entregou um presente enviado por Mandela: uma cópia em inglês de seu mais recente livro, “Conversas que Tive Comigo”.

Graça é a terceira mulher de Mandela. O líder foi casado com Evelyn Ntoko Mase por mais de uma década até 1955, quando o divórcio foi oficializado. Em 1968 ele se casou com Winifred Nomzamo Zanyiwe Madikizela, conhecida como Winnie, de quem se divorciou em 1992.

Mandela assumiu o relacionamento com Graça Machel em 1996 e oficializou a união dois anos depois, no dia de seu aniversário de 80 anos. Desde então, a moçambicana passou a acompanhar o sul-africano em viagens humanitárias e se tornou sua grande companheira. Hoje, os dois vivem em Johanesburgo.

Graça também já havia sido casada antes, com o ex-presidente de Moçambique Samora Machel, morto em um acidente de avião em 1986. Em uma entrevista ao jornal "The Washington Post", ela disse que era "muito fácil" amar Mandela. "A parte mais maravilhosa da nossa história é o fato de termos passado por experiências dolorosas, para então nos conhecermos", afirmou.

Mudança

No seminário, Graça falou com otimismo sobre o futuro do continente africano, apesar dos desafios sociais “enormes”. “A África está mudando para melhor”, afirmou. “Nunca houve tanta esperança quanto agora.”

Com trabalho direcionado principalmente aos direitos das mulheres, ela comemorou o aumento da participação política das africanas que, disse, “pagam o preço mais caro da injustiça social”. Graça considera importante a recomendação da União Africana, feita em declaração solene aprovada em 2007, para que os 53 países-membros tenham pelo menos 50% dos cargos do Parlamento e do governo ocupados por mulheres.

Nelson Mandela e Graça Machel, em foto de julho de 2010
Getty Images
Nelson Mandela e Graça Machel, em foto de julho de 2010

Segundo Graça, Ruanda já superou a meta, tendo 56% de mulheres no Parlamento e 50% no governo. Outros países, porém, ainda não ultrapassaram 30%. “A implementação desse tipo de política não ocorre de forma uniforme, pois cada país tem uma dinâmica”, explicou. “Mas, em geral, há um esforço para aumentar a participação feminina nos órgãos centrais.”

Atualmente, a ativista se concentra em projetos que buscam ampliar o acesso da mulher a recursos financeiros, para que possam deixar o setor informal e abrir seu próprio negócio.

Aids na África

No combate à aids na África, os avanços são poucos, ainda que alguns países observem a diminuição no índice de contaminação entre jovens e nos casos de transmissão de mãe para filho, enquanto outros ampliam o acesso da população ao tratamento. “Há um grande esforço em termos de políticas e programas, mas não podemos dizer que algum país africano esteja realmente conseguindo conter a doença”, disse.

Os índices de contaminação em todas as faixas etárias continuam sendo mais altos entre as mulheres. Segundo Graça, as políticas de saúde direcionadas especificamente às africanas conseguem poucos resultados, porque seu “poder de decisão” é pequeno.

Graça Machel fez a palestra de abertura do seminário
Luísa Pécora
Graça Machel fez a palestra de abertura do seminário
“Hoje os programas buscam incluir os homens, principalmente os mais jovens, para que mudem de atitude e entendam que a luta contra aids têm de ser feita pelos dois”, afirmou, ressaltando que aspectos culturais estão no centro da questão.

“Há o conceito de que o homem africano é aquele que continua a linhagem da família. Precisamos confrontar isso e mostrar que, para continuar a linhagem, o homem precisa proteger a si mesmo e à sua mulher.”

Trajetória

A ativista afirmou que seu envolvimento com a luta pelos direitos de mulheres e crianças não foi uma “escolha intelectual”, mas, sim, um “compromisso de vida” motivado principalmente por experiências pessoais. Por ter perdido o pai antes mesmo de nascer, Graça cresceu tendo como referência duas mulheres: a mãe e a irmã mais velha. Apesar das difíceis condições econômicas, Graça e os cinco irmãos foram incentivados pela mãe a estudar. “Ela me ensinou que a origem social não determina quem você é e quem você pode ser”, disse Graça. “Cresci com a orientação de que não havia limites para o que eu poderia realizar.”

Em sua trajetória, ela destaca dois momentos: a atuação na Frente de Libertação de Moçambique, movimento fundado em 1962 que lutou pela independência do país, e a participação na elaboração de um relatório da ONU de 1990 sobre o impacto dos conflitos armados na infância. Em viagens a países tão diversos quanto Colômbia e Líbano, ela se emocionou com a realidade de mães e seus filhos. “Até hoje me lembro dos olhos daquelas crianças”, afirmou.

Bacharel em Filologia da Língua Alemã pela Universidade de Lisboa, durante 14 anos Graça foi ministra da Educação e da Cultura de Moçambique. Hoje, lidera a organização sem fins lucrativos Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, cujo objetivo é promover a justiça social no país com participação ativa da população.

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