Médicos de SP dão nota 4,7 a convênios brasileiros

Para especialistas, interferência das operadoras na conduta médica gera queda na qualidade dos atendimentos

Júnior Milério, iG São Paulo | 23/09/2010 19:31

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A Associação Paulista de Medicina (APM) apresentou hoje (23) o resultado de uma pesquisa realizada pelo Datafolha para conhecer a opinião dos médicos em atividade no Estado sobre a atuação das empresas de saúde suplementar. Em uma escala de 0 a 10, planos médicos do Brasil receberam nota 4,7.

Para os especialistas, a postura das operadoras de planos de saúde é a principal causa da queda na qualidade do atendimento prestado à população, o que pode colocar em risco a vida dos pacientes. “Isso pode refletir em todo o país”, afirmou Jorge Machado Curi, presidente da associação, sobre os resultados da avaliação.

A pesquisa foi realizada entre 23 de junho e 18 agosto deste ano e foram ouvidos 403 médicos em atividade no estado de São Paulo e cadastrados no Conselho Federal de Medicina (CFM). A margem de erro da pesquisa, para mais ou para menos, é de 5 pontos percentuais, considerando um nível de confiança de 95%.

Menos autonomia

Pelo menos 93% dos médicos de São Paulo já tiveram sua autonomia técnica profissional diminuída ao sofrerem pressão das operadoras de planos de saúde. Entre as interferências mais comuns, está o ato de solicitar explicações ao profissional sobre procedimentos ou medidas terapêuticas adotadas no decorrer do tratamento, sendo que três em cada 10 médicos já receberam esse tipo de questionamento.

Além disso, o tempo de internação dos pacientes e a prescrição de medicamentos de alto custo são outros dois alvos recorrentes de questionamento por parte das operadoras.

“Isso deve ser discutido mais profundamente. São aspectos de um problema que interfere na relação do paciente com o médico, resultando na diminuição da qualidade do atendimento, e não é isso que pretendemos”, afirma Curi.

Carlos Grandini Izzo, representante do Conselho Fiscal da Federação Nacional dos Médicos (FENAM), afirma que as informações apresentadas pelos médicos devem ser objeto de reflexão por toda a sociedade. Ele acrescentou ainda que os honorários da classe médica estão defasados.

“Com os valores repassados hoje aos médicos é impossível a manutenção de um consultório”, exemplifica o secretário do CFM, Desiré Carlos Callegari.

ANS de mãos atadas

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), criada em janeiro de 2000, alega não dispor de dispositivos legais para intervir na relação dos médicos com as operadoras de saúde. Curi rebate o argumento da agência.

“A regulamentação deve ser revista pelo governo, pois o que se percebe é uma atuação livre por parte das operadoras em um mercado que envolve a saúde da sociedade.”

A avaliação

Entre os planos avaliados pelos médicos paulistas, há empate. Em primeiro lugar, com a pior avaliação, estão Medial e Intermédica e em segundo, Sul América Saúde e Cassi (Banco do Brasil). Os planos considerados mais burocráticos foram Sul América Saúde, Cassi (Banco do Brasil) e AMIL.

Para Frederico de Almeida, advogado da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Pro Teste), os dados da pesquisa vão possibilitar um melhor entendimento das queixas realizadas por consumidores, auxiliando a identificar a atuação das operadoras no estado.

As operadoras

A Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), representante das operadoras AMIL, Intermédica e Sul América Saúde, informou que suas operadoras afiliadas consideram o médico como soberano na sua conduta profissional e que não restringem aos pacientes o acesso a serviços, desde que previstos nas coberturas contratuais e nas diretrizes determinadas pela ANS.

A Cassi (Banco do Brasil) disse desconhecer os critérios da pesquisa do Datafolha. A operadora afirmou que explicações são solicitadas aos médicos quando os procedimentos profissionais não estão de acordo com o padrão definido pela empresa. Em relação à burocracia, a empresa afirmou ainda que entre 2008 e 2009 a quantidade de usuários se manteve estável e a liberação de procedimentos aumentou em 8,5%, passando de 24,1 para 26,1 milhões. Ainda esclareceu que o índice de permanência dos seus clientes é próximo de 98% nos planos contratados e que houve aumento de 3 mil prestadores de serviços desde 2009.
 

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