Tamanho do texto

Representantes de entidades médicas aconselham cautela e alertam para os possíveis riscos de usar o produto sem indicação

A ex-BBB Monique fez bioplastia nos glúteos e no nariz
Reprodução
A ex-BBB Monique fez bioplastia nos glúteos e no nariz
A bioplastia ganhou popularidade ao prometer uma cirurgia plástica sem cortes, com anestesia local, sem internação, com menos risco, simples e rápida. O que parecia um milagre da medicina estética moderna, porém, tem se revelado um pesadelo para muitos pacientes.

Siga o iG Saúde no Twitter

O procedimento de preenchimento de sulcos, rugas e partes do corpo consiste na injeção de uma substância não biodegradável e permanente. O mais utilizado é o polimetilmetacrilato (mais conhecido pela sigla PMMA), microgrãos de acrílico originalmente empregados na fabricação de próteses ortopédicas e ortodônticas, e aplicados no rosto, nos glúteos e na panturrilha.

Ainda não existem dados que registrem quantas pessoas utilizaram esse método desde 2006, quando ele começou a ser difundido no Brasil. No entanto, já se sabe que uma parte daqueles que se submetem à aplicação enfrenta sérias complicações, muitas delas sem solução adequada.

Entre os problemas mais comuns estão a absorção do PMMA pelo organismo, a inflamação do tecido no local da aplicação, a formação de grânulos em volta do material aplicado ou a necrose (morte do tecido).

“Se houver a injeção dentro de um vaso, o produto vai caminhar e entupir o caminho de irrigação de todo o tecido, levando-o à morte”, alerta Carlos Alberto Komatsu, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Se aplicado nos glúteos, por exemplo, é capaz de comprometer toda a região, destruindo inclusive os músculos essenciais para a locomoção. Em 2009, a Miss Argentina 1994 Solange Magnano morreu três dias após realizar a aplicação para aumento do bumbum. Por ser uma substância sintética e estranha ao organismo, a reação alérgica ao produto também é muito frequente, causando inchaço, dor, pus e vermelhidão.

“O produto também pode migrar para outras partes do corpo e causar deformações”, alerta Claudio Cardoso de Castro, cirurgião plástico e professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

“Pode acontecer da pessoa receber a substância no nariz e ela descer para o queixo. Ou nos glúteos e descer para coxa. A aplicação do PMMA para fins estéticos é um absurdo e deveria ser totalmente proibida”, afirma o médico, que conduziu um estudo para avaliar o resultado do emprego da substância em tecidos moles.

A decisão de pesquisar o tema foi tomada em vista da quantidade de pacientes que procuravam o Hospital Pedro Ernesto, da UERJ, com complicações decorrentes do procedimento. Para o estudo, 21 pessoas receberam injeções de PMMA, retirado seis meses depois.

Do total de participantes, 20 tiveram infiltrações do produto, 19 tiveram formação de cápsula fibrosa e 18 apresentaram degeneração celular. A pesquisa "Efeitos do polimetilmetacrilato na cartilagem humana" foi publicada na revista internacional Aesthetic Plastic Surgery.

Outro estudo semelhante – conduzido pela pesquisadora Simone Rosa, da Universidade de Brasília (UnB) – e realizado com ratos, detectou que a substância entra na corrente sanguínea dos animais e atinge diversas partes do corpo.

O perigo dos possíveis efeitos adversos está também na falta de um tratamento adequado. Se houver qualquer complicação, o que os médicos podem fazer é retirar o produto e cuidar para que o quadro não evolua, mas não sem evitar prejuízo para o paciente.

“O problema nunca será 100% resolvido. A pessoa precisará de altas doses de corticoides. Além disso, é preciso retirar o PMMA e boa parte do tecido que estiver em volta. É preciso passar por cirurgias para reconstruir a área afetada”, esclarece Komatsu.

“É muito difícil, porque não dá para saber o que é tecido normal e o que não é. O médico pode fazer uma operação e ainda precisar fazer outras para retirar novas partes comprometidas”, diz Castro.

Apesar de todos os riscos, a aplicação é realizada por alguns médicos e existem até casos em que é indicada. “Para portadores do vírus HIV com lipodistrofia facial (que perdem tecido muscular em especial na face) essa é uma boa terapia, porque a substância, devido a sua consistência sólida, funciona melhor próximo aos ossos do que quando utilizada em tecidos moles”, explica Wanda Elizabeth, membro da Câmara Técnica do Conselho Federal de Medicina (CFM) que trata do assunto e da diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Para outros fins, no entanto, a aplicação é perigosa. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica não recomenda a utilização desse tipo de material para procedimentos estéticos. Para Bruna Felix Vasco, coordenadora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o paciente tem que ser bem esclarecido sobre o que irá fazer.

“É um tratamento estético com riscos de complicação. Riscos que não superam os benefícios, já que estamos falando em melhorar a autoestima ou a estética e não em saúde”, afirma.

O Conselho Federal de Medicina pede cautela pois o uso é “(...) extremamente limitado e, quando em grandes quantidades, não seguro e de resultados imprevisíveis a longo prazo. É um material não absorvível, portanto de caráter definitivo”, alerta parecer do órgão de 2010, publicado site da entidade.

“Nossa posição continua a mesma”, afirma Wanda Elizabeth. A médica alerta também sobre o comportamento a longo prazo desse produto, principalmente em grandes volumes e aplicado em região intramuscular.

Há opção mais segura para a realização de preenchimentos. O tratamento de ponta para esse fim é a injeção de ácido hialurônico. No entanto, o custo inviabiliza a utilização em larga escala.

“Ele chega ser 100 vezes mais caro do que o PMMA. Infelizmente ainda não existe um produto acessível e seguro, principalmente para grandes áreas, como nos glúteos”, afirma Bruna Bravo.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.