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No Brasil, doença é líder em causas de internação e de mortes evitáveis em crianças e idosos

Depois da poliomielite (paralisia infantil), do sarampo , do tétano e da rubéola, a pneumonia e as outras doenças provocadas pela bactéria pneumococo ( meningite e otites engrossam a lista) foram escolhidas como alvo das campanhas globais de prevenção e de redução de mortalidade por meio das vacinas.

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A comunidade médica da América Latina está focada em criar estratégias para que os governos dos países envolvidos implantem a vacinação em massa e, assim, consigam conter as vítimas fatais da doença – hoje responsável por 6% das mortes no planeta, informou o último relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Nas projeções otimistas dos pesquisadores, adotar as doses preventivas via injeção em larga escala pode erradicar do cenário mundial a forma mais grave da pneumonia – êxito já conseguido com a pólio e ainda em curso para a rubéola e sarampo.

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As crianças menores de 5 anos e os adultos maiores de 60 dão face à maioria dos atendimentos clínicos resultantes das pneumonias e também lideram as mortes provocadas por este tipo de infecção – são 2 óbitos por hora na América Latina, de acordo com levantamento feito pela Organização Panamericana de Saúde (Opas).

No Brasil, são acumuladas 800 mil internações hospitalares anuais por pneumonia e outras doenças pneumocócicas. Só nos três primeiros meses de 2012, foram computados 121 mil casos, segundo levantamento do iG Saúde feito no banco de dados virtual do Ministério da Saúde. A média de 1.344 casos por dia se repete há, pelo menos, 10 anos e representa o motivo que mais leva a população aos hospitais.

Para aumentar a pressão nos sistemas públicos de saúde latinoamaricanos,  460 especialistas da região estão reunidos em Bogotá (Colômbia) até o final da semana, em um evento organizado por universidades e uma farmacêutica produtora da imunização contra o pneumococo.

“Conhecemos a gravidade da pneumonia há muitos anos, mas só mais recentemente concluímos os dados que comprovam o perigo, os impactos e a incidência na América Latina, Ásia e Índia, as recordistas em infecção e mortalidade”, afirmou o professor de pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Costa Rica, Adriano Arguedas, um dos principais pesquisadores mundiais sobre o tema.

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“Também é mais recente a conquista de mecanismos eficientes para modificar estes contextos, que são as vacinas mais completas e funcionais. Por isso, agora é a vez da pneumonia ocupar destaque nos pedidos de campanhas de vacinação em massa. Este é um pedido urgente em todo mundo.”

Família de 94 membros

Desde 1993, já existe no mercado a vacina contra o pneumococo, mas alguns complicadores atrasaram a implantação das doses nos sistemas públicos de saúde, em especial nos países mais vulneráveis. O principal deles é que as pneumonias, a meningites e as otites bacterianas são provocadas por uma “família” de 94 tipos diferentes da mesma bactéria. Cada país tem uma incidência específica de subtipos e, para avaliar o custo-benefício da adoção de um novo medicamento distribuído na rede pública era preciso de munição estatística e de grandes estudos – uma das deficiências justamente das nações em desenvolvimento.

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Além disso, a indústria farmacêutica como um todo precisava produzir doses mais completas – uma injeção única contra o maior número possível de tipos do pneumococo – para facilitar a aplicação e reduzir os custos. Estas soluções foram aparecendo paulatinamente.

Primeiro, explica o infectologista da Universidade de Medicina de Buenos Aires e pesquisador do pneumococo na América Latina, Alejandro Cone, foram feitos estudos epidemiológicos em países-chave. Depois, surgiu no mercado uma vacina contra 7 tipos da bactéria – as mais incidentes, mas que ainda se mostrava “incompleta” para a saúde pública, avalia Cane.

Em 2010, foi lançada uma dose contra 10 tipos do pneumococo, ano em que o Brasil passou a oferecer esta proteção “10 em 1” gratuitamente para todas as crianças menores de 2 anos.

O resistente 19A

Porém, explica Cane, o uso indiscriminado de antibióticos e também a mutação natural das bactérias fez com que, em 2011, o subtipo 19A da bactéria pneumococo se transformasse “em um desafio mundial”.

“Este subtipo, até então nada incidente, começou a ser líder de infecção nos Estados Unidos, depois no México, na América Latina e agora está em todo planeta”, disse.

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Além de não ser contemplado pela vacina “10 em 1”, o 19A também é multirresistente aos medicamentos, não reagindo bem às terapêuticas existentes, o que aumenta a letalidade.

A resposta dos cientistas veio em 2011 mesmo, com o lançamento de uma vacina 13 em 1 que é capaz de vencer o 19A e abriga mais anticorpos contra mais tipos da bactéria da pneumonia. Por ora, oferecem esta proteção países como Colombia, Nicaragua e Honduras. No Brasil, ainda está em curso a aprovação da comercialização desta vacina e, provavelmente, após o aval a dose só estar é em clínicas particulares.

Vacinas para adultos

Além de dar conta dos vários tipos da bactéria da pneumonia – alguns deles realmente poderosos –, as vacinas também esbarraram em outro degrau para ter a erradicação da doença como uma meta possível. A maior parte dos testes foi feita em crianças, deixando descobertos os idosos outras vítimas muito frequentes do pneumococo.

“O problema é que a pneumonia tem um comportamento no idoso muito parecido com os danos registrados em crianças”, afirmou Raul Istúriz, fundador da Sociedade Venezuela de Infectologia e ex-presidente da Associação Panamericana de Infectologia.  Três em dez casos brasileiros de internação por pneumonia são de pacientes com mais de 50 anos, por exemplo.

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“Sabemos ainda que 14% destes pacientes morrem no primeiro ano após a internação e que a doença pneumocócica amplia o risco de infarto e de outras doenças circulatórias, também muito comuns nesta faixa-etária”, completou Istúriz que estuda a vacinação em adultos.

Por isso, mais pesquisas e testes na população maior de 60 anos estão na lista de pedidos urgentes dos médicos participantes do evento da América Latina. A nova imunização 13 em 1 já foi testada com êxito nesta população, mas os órgãos reguladores ainda avaliam a aplicação dela para toda a terceira idade.

“Para desfrutar do aumento da expectativa de vida, é fundamental que os idosos também sejam vacinados. É isso que precisamos disseminar”, acredita o pesquisador da Venezuela.

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* A repórter viajou a convite da Pfizer

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