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Procedimento tem alto risco e custo elevado, mas pode ser a única possibilidade para alguns pacientes

Viviane e o marido:
Bia Alves / Fotoarena
Viviane e o marido: "depois do transplante, nossa relação se intensificou"
Nos últimos três anos, Felipe, marido de Viviane Mann Rechtman salvou a vida dela duas vezes. A primeira ao levá-la, depois de muita insistência, ao hospital.

Há dias a empresária tinha febre, dores de garganta e no corpo. Apareceram manchas na pele, mas ela achava que era apenas um resfriado comum .

Acabou diagnosticada com meningococcemia, uma infecção generalizada grave e fatal em 40% dos casos.

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Viviane ficou um mês em coma, precisou de transfusões de sangue, teve necrose nos dois pés e perdeu as funções do rim. Ainda no hospital, passou a fazer hemodiálise peritoneal, tratamento que continuou depois que finalmente foi para casa.

“Eu tinha a máquina no quarto e fazia à noite, diariamente. A filtragem do sangue durava nove horas. Era sofrido. Estava fraca e me sentia muito mal”, relembra. A única chance para sair desse quadro era um transplante.

A opção inicial de Viviane foi buscar um doador na família. Os pais, no entanto, estavam descartados devido à idade. Os dois filhos mais velhos e a irmã, assim como os demais parentes mais próximos, não tinham compatibilidade sanguínea. A a extensa fila de transplantes  e a falta de expectativa a deixavam apreensiva.

“Hoje, uma pessoa que nunca fez transfusão, nem transplante, nem teve gestação, espera por um órgão por dois anos, em média”, afirma Maria Cristina Ribeiro de Castro, médica assistente do serviço de transplante do Hospital das Clínicas e do Samaritano. Foi o médico que a atendia no Rio de Janeiro que mencionou um procedimento capaz de reduzir as defesas do corpo contra um novo órgão, realizado em São Paulo.

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No dia 7 de fevereiro de 2009, Viviane foi internada para começar a dessensibilização, processo semelhante a uma limpeza do sangue, eliminando anticorpos que podem levar à rejeição do rim. Quarenta e três dias depois, Felipe e Viviane entravam na sala de cirurgia para o transplante.

“Ele foi o primeiro a fazer o teste de compatibilidade e o primeiro a ser descartado. Mas quando soubemos do tratamento, já estava predeterminado na cabeça dele: ele seria o doador. Eu fiquei muito emocionada”, conta.

A técnica

A dessensibilização já é utilizada nos Estados Unidos desde 2008 e há quase dois anos passou a ser realizada também no Brasil.

“Quem fez muitas transfusões, ou teve várias gestações ou realizou transplantes anteriores teve contato com antígenos de outras pessoas, criando anticorpos. É como se ela fosse vacinada contra outras pessoas”, explica Maria Cristina Ribeiro de Castro, pioneira no tratamento da dessensibilização no Brasil.

Esse quadro torna mais difícil a realização de um transplante, já que a pessoa apresenta anticorpos contra grande parte da população e encontrar um órgão compatível se torna tarefa quase impossível. São os chamados “hipersensibilizados”, por serem sensíveis a 80% da população ou mais.

“Ela pode esperar a vida inteira por um transplante e nunca conseguir”, diz a médica. Só em São Paulo, segundo dados da Secretaria de Saúde do estado, pelo menos 15% da lista de espera por um rim está nessa situação.

“Esses pacientes vão ficando em uma situação dramática, passam 10, 12 anos em hemodiálise e têm anticorpos contra grande parte dos doadores”, explica Maria Cristina.

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"Muitos anos de hemodiálise podem enfraquecer a saúde cardiovascular do indivíduo além de comprometer a parte óssea. Com o tratamento, eles ganham tempo e qualidade de vida", completa.

Hoje existem no País 91.314 pessoas fazendo hemodiálise segundo dados do censo 2011 da Sociedade Brasileira de Nefrologia.

Viviane e o marido: um ano após tratamento e transplante, a vida vai voltando ao normal
Bia Alves / Fotoarena
Viviane e o marido: um ano após tratamento e transplante, a vida vai voltando ao normal
Existem duas técnicas de dessensibilização: a primeira é a aplicação de altas doses de imunoglobulina humana, um soro derivado de amostras de sangue de centenas de doadores, uma vez por mês, durante a hemodiálise. Essas proteínas conseguem bloquear os anticorpos. A outra opção é a plasmaferese.

“O procedimento filtra o sangue, remove os anticorpos e repõe no sangue um anticorpos farmaceuticamente manipulados”, explica Lucio Roberto Requião Moura, membro da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) que realiza o método no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Com o tratamento, diz o médico, as chances de transplante de uma pessoa hipersensível passam de 20% para 80% ou 90%.

Segundo Maria Cristina, metade dos pacientes, se já tiverem um doador vivo, consegue transplantar em até seis meses. Em torno de 25% deles não consegue realizar a operação.

“Se compararmos um grupo de pacientes que ficou em hemodiálise, com outro que passou pelo procedimento e realizou o transplante, os dados internacionais demonstram que em cinco anos aqueles que ficaram em hemodiálise morreram duas vezes mais do que o segundo grupo”, diz a médica.

A técnica é contraindicada para pessoas acima dos 70 anos, ou que tenham processos infecciosos ou ainda que estejam com o sistema imunológico debilitado. O custo do tratamento varia em torno de R$30 mil, o que também impossibilita amplo acesso.

O presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), José Medina, alerta que o procedimento não é assim tão isento de riscos. “A imunossupressão é intensa, pode haver infecção. As pessoas me procuram sempre pensando que é um milagre. Se o paciente estiver bem de saúde fazendo hemodiálise, em comparação com o risco que esse tratamento representa, eu aconselho a ficar em diálise”, enfatiza.

Final feliz

Um ano e três meses depois do transplante, apenas os remédios diários e a baixa imunidade relembram Viviane do susto passado. A relação entre ela e o marido se intensificou.

“Nós nos conhecemos desde os 11 anos de idade, mas só começamos a namorar aos 20. Foi uma amizade que se transformou em amor, foi uma relação construída aos poucos. Se antes do transplante nós já éramos muito ligados um ao outro, hoje somos ainda mais unidos. Ele me deu a vida de novo”, conta.

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A empresária adquiriu também um novo hábito. “Antes da insuficiência renal eu não me dava conta da necessidade de beber água. Preferia refrigerantes, chás, mas dificilmente água. Hoje ando com uma garrafa a tiracolo e tenho prazer em beber quanto de água quiser”, ri.

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