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Técnica que envia pulsos de radiofrequência de energia aos nervos renais tem reduzido a pressão alta em pessoas que não respondem aos tratamentos padrão

Hipertensão: cirurgia experimental tem reduzido a pressão alta em pessoas resistentes aos tratamentos padrão
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Hipertensão: cirurgia experimental tem reduzido a pressão alta em pessoas resistentes aos tratamentos padrão

Nas últimas décadas, não têm aparecido novos tratamentos para pessoas com pressão arterial alta persistente.

Exercícios e uma dieta baixa em sódio, juntamente com drogas como diuréticos, inibidores da ECA e betabloqueadores, tornaram-se tratamentos-padrão.

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No entanto, essas medidas falham em um número surpreendente de pacientes.

Mesmo tomando três ou mais medicamentos, muitos ainda sofrem de hipertensão não controlada e com ela um risco elevado de ataque cardíaco e acidente vascular cerebral (AVC).

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Agora, os médicos estão fazendo experimentos com uma abordagem inovadora, mas drástica, que pode ajudar a diminuir o perigo para as pessoas nas quais nada mais funciona. Durante o procedimento, chamado denervação renal, o médico introduz um cateter nas artérias que se ligam ao rim e em seguida envia pulsos de radiofrequência de energia que interrompem a sinalização dos nervos que vêm dos rins e dos que vão para os rins. O dano aos nervos é provavelmente permanente, embora ninguém saiba ao certo.

Pesquisa:  Quase 25% da população sofre de hipertensão

Pequenos estudos clínicos realizados principalmente fora dos Estados Unidos têm sugerido que, em combinação com drogas, a denervação renal pode ajudar a reduzir a pressão arterial elevada em pacientes com a chamada hipertensão resistente ao tratamento. O tratamento já está disponível na Austrália e na Europa.

O maior estudo aleatório controlado até hoje já está em andamento nos Estados Unidos e é patrocinado pela Medtronic, que espera ganhar a aprovação da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) para um cateter especializado a ser utilizado no procedimento.

“Acho que isso tem o potencial de mudar a forma como a hipertensão é administrada no país e no mundo”, afirma Gordon Tomaselli, cardiologista da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e presidente da Associação Cardiológica Americana, que não está envolvido na pesquisa.

“Esse é potencialmente um dos maiores avanços no campo da hipertensão em décadas”, avalia Charanjit Rihal, presidente da divisão de doenças cardiovasculares na Clínica Mayo, em Rochester, Minnesota. Mesmo assim, ele acrescenta que há uma série de incertezas.

Mesmo que a denervação renal se revele eficaz em um grande estudo, aparentemente não substitui inteiramente as drogas usadas para combater a doença.

“Muita gente já viu isso superficialmente como uma cura para a hipertensão, e não é”, argumenta George Bakris, diretor do centro de hipertensão do centro médico da Universidade de Chicago e autor principal da pesquisa.

“Mas pode permitir que algumas pessoas tomem menos medicamentos ou doses menores deles”, acrescentou.

O rim desempenha um papel crucial na regulação da pressão arterial. Ele controla a excreção de sal e água do corpo, o que afeta o volume de sangue e a pressão sanguínea. O órgão também se comunica com o cérebro , o que ajuda a regular a pressão arterial ao estreitar os vasos sanguíneos ou aumentar a ação de bombeamento cardíaco.

As numerosas drogas utilizadas para tratar a hipertensão interrompem esses ciclos de várias maneiras: elas dilatam os vasos sanguíneos, por exemplo, ou reduzem o volume de sangue. No entanto, mais da metade de cerca de 70 milhões de americanos com hipertensão não são adequadamente tratados, ou seja, têm pressão arterial constantemente acima do normal. De 10% a 20% não conseguem controlar a hipertensão, mesmo com múltiplas drogas, diz Tomaselli.

Além disso, medicamentos para pressão arterial podem às vezes causar efeitos colaterais, como inchaço nos tornozelos, sonolência e depressão . Novos tratamentos são imprescindíveis, afirma o médico.

Décadas atrás, as pesquisas em animais mostraram que a destruição dos nervos que se ligam aos rins, seja cirurgicamente ou com produtos químicos, por vezes preveniu ou reverteu a hipertensão. Mas os pesquisadores não sabiam se o mesmo ocorreria em seres humanos ou como isso seria.

Em 2007, uma equipe da empresa Ardian, sediada na Califórnia, realizou a primeira denervação renal em um paciente australiano com hipertensão resistente ao tratamento. Em 2010, um estudo clínico aleatório financiado pela empresa e publicado no periódico The Lancet monitorou os efeitos da denervação renal em cerca de 50 pacientes com hipertensão resistente ao tratamento na Austrália, Nova Zelândia e Europa.

Após seis meses, a redução média da pressão arterial foi de 32/12 milímetros de mercúrio entre os pacientes que receberam denervação renal, o que significa um decréscimo de 32 pontos na pressão sistólica e uma diminuição de 12 pontos na pressão diastólica. Entre o grupo-controle, em média, não houve redução sistólica nem diastólica da pressão arterial.

O mecanismo por trás dessa estratégia de tratamento não é completamente compreendido. Sinais nervosos do cérebro para o rim tendem a aumentar a pressão arterial, em parte por estimular a produção da enzima renina, que inicia uma cascata hormonal que leva direta e indiretamente ao estreitamento das artérias, e diminui a excreção de sal e água. Quando o rim não consegue “ouvir” o sinal do cérebro, a pressão arterial parece cair. Até agora, a interrupção da sinalização para o rim parece não causar outros problemas ao corganismo.

Até hoje, as principais complicações do processo, aparentemente, estão ligadas à própria cateterização. Um pequeno número de doentes, por exemplo, apresentou hemorragia na virilha ou danos na artéria femoral, onde o cateter é inserido. Mas os efeitos em longo prazo não foram totalmente avaliados, pondera Tomaselli.

Um risco teórico é que os pacientes que perderam a sinalização normal para o rim possam ter dificuldade em manter a circulação adequada em resposta a uma rápida perda de volume de sangue – por exemplo, a partir de um sangramento gastrointestinal, um trauma por arma de fogo ou mesmo em função de muita atividade física no calor, afirma Suzanne Oparil, cardiologista da Universidade de Alabama em Birmingham e consultora da Medtronic.

O novo estudo está recrutando mais de 500 pacientes com hipertensão resistente ao tratamento e irá incluir um procedimento simulado para pacientes do grupo-controle. Os pesquisadores farão monitorização ambulativa da pressão, isto é, medição ao longo do dia, além de medir a pressão em consultório. Isso é importante porque o efeito sobre a pressão arterial ambulativa parece ser menos drásticos, de acordo com Oparil. Os resultados são esperados para 2013, caso se mostrem promissores.

“Espero que sejam elaborados estudos para testar como as pessoas que sofrem de hipertensão comum poderiam se beneficiar, e não só os pacientes com hipertensão resistente ao tratamento”, diz Tomaselli.

* Por Amanda Schaffer

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