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Pesquisadores deste parente do "efeito placebo" apontam: médicos precisam aprender a explorar melhor o poder das palavras em benefício de seus pacientes

Autossugestão: efeito nocebo faz com que a pessoa experimente sintomas apenas por ter lido ou ouvido sobre eles
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Autossugestão: efeito nocebo faz com que a pessoa experimente sintomas apenas por ter lido ou ouvido sobre eles

Algumas pessoas se sentem melhor depois de tomar um remédio, mesmo que a droga não faça absolutamente nada para tratar a doença ou condição que suscitou a procura pelo serviço de saúde. É o chamado “efeito placebo”.

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Existe, no entanto, um lado menos conhecido do poder da sugestão: quando a pessoa desenvolve os sintomas e efeitos colaterais da doença ou do tratamento simplesmente porque leu ou ouviu falar deles, num fenômeno conhecido como "efeito nocebo".

Um novo estudo analisou o “efeito nocebo” e sugere que os médicos aprendam a melhor forma de explorar o “poder das palavras” para o benefício de seus pacientes.

“Não é apenas o poder das palavras negativas – a maior parte dita involuntariamente – de médicos e enfermeiros que conta, mas também o poder dos medos e das expectativas e experiências negativas dos próprios pacientes”, diz Winfried Hauser, autor do estudo e professor-associado de medicina psicossomática na Saarbrucken Klinikum, na Alemanha.

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O estudo, publicado recentemente na revista científica Deutsches Arzteblatt International, analisou diversas pesquisas feitas sobre o efeito nocebo e descobriu que cientistas e médicos passaram muito pouco tempo tentando entendê-lo. Cerca de 2.200 estudos examinaram o efeito placebo, mas apenas algumas dezenas exploraram o efeito nocebo.

Em um estudo, os pesquisadores dividiram aleatoriamente em dois grupos 50 pacientes com dor crônica nas costas: a um deles foi dito que um teste de flexão da perna poderia aumentar um pouco a dor que sentiam. Ao outro, foi dito que o exercício não iria afetar a dor nas costas. Os que foram avisados sobre a dor relataram ter sentido mais dor e não realizaram o exercício tão bem quanto os que não foram avisados.

A pesquisa mostrou também que pessoas que pensavam ter recebido um remédio podiam desenvolver os efeitos colaterais da droga sem que ela fosse de fato administrada. O que dizem médicos e enfermeiros também pode afetar os pacientes de forma negativa.

“Os pacientes são altamente receptivos à sugestão negativa, particularmente em situações percebidas como existencialmente ameaçadoras, como uma cirurgia iminente, uma doença aguda grave ou um acidente”, escreveram os pesquisadores.

“Muitas vezes, pessoas em situações extremas ficam em um estado de transe natural e, portanto, altamente sugestionável. Esse estado de consciência as deixa suscetíveis a mal-entendidos decorrentes de interpretações literais, ambiguidades e da sugestão negativa.”

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Membros da equipe médica podem desencadear problemas, enfatizando o negativo (“você é um paciente de alto risco”), sendo incertos (“este medicamento talvez ajude”), focando a atenção em condições como dor e náusea (“nos avise se você sentir dor”) e banalizando a situação vivida pelo paciente (“você não precisa se preocupar”), observou o estudo.

Os pesquisadores ainda estão tentando descobrir que tipo de pessoas são mais suscetíveis à sugestão e por quê. Então, o que pode ser feito?

Hauser afirmou que médicos e enfermeiros devem receber treinamento em como se comunicar melhor com os pacientes, para evitar incutir sugestões negativas. Hauser também fez uma sugestão com implicações éticas: talvez os pacientes não necessitem de tantas informações sobre todas as coisas ruins que podem acontecer a eles.

“É preciso considerar a redução da quantidade de informações negativas dadas aos pacientes sobre os potenciais efeitos, assim como detalhes da prescrição”, defende Hauser.

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Ted Kaptchuk, professor-associado da Faculdade de Medicina de Harvard (EUA), que estuda o efeito placebo, elogiou o estudo, mas disse que a sugestão sobre o fornecimento de menos informação levanta questões éticas.

“Se não contamos aos pacientes dos efeitos adversos, além de sermos antiéticos e pouco transparentes, não estamos fornecendo a possibilidade do pleno consentimento informado”, argumenta ele.

“Por outro lado, se contamos tudo às pessoas, isso realmente pode produzir dano. Trata-se de uma questão fundamental nos cuidados de saúde: honestidade versus dano”.

Mas, o que os próprios pacientes podem fazer a respeito do efeito nocebo?

“Eles deveriam estar cientes do poder de suas expectativas e crenças em um tratamento médico”, sugere Hauser.

“Se você decidir se submeter a um tratamento médico, acredite que ele vai funcionar.”

* Por Randy Dotinga

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