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Choque entre duas motocicletas exige improviso de médicos voluntários em missão na selva amazônica

Em uma área que conta com apenas 50 habitantes, 16 casas e duas motos, um morador está entre os 35 mil acidentes com veículos registrados por ano no País.

O motoboy de Nazário, comunidade ribeirinha distante 180 quilômetros de Santarém (PA), entrou para a epidemia de acidentados no trânsito brasileiro e para o grupo de pacientes atendidos por médicos voluntários que estavam em missão no meio da floresta amazônica.

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Desde 2003, a equipe do Expedicionários da Saúde carrega um hospital de última geração na bagagem para realizar um mutirão de cirurgias de hérnia e catarata, além de atendimentos clínicos, em regiões da selva afastadas de cuidados médicos. Na 23ª missão do grupo, acompanhada pelo iG Saúde, o destino era Mentai – vizinha de Nazário. O planejamento era, entre outras coisas, socorrer eventuais doentes de malária, pessoas picadas por cobras e desidratados do sol.

No quinto dia de atendimento, no entanto, um ponto fora da curva foi parar nas mãos dos Expedicionários. Moisés Silva, 23 anos, perdeu o controle da moto que pilotava e chocou de frente com outra motocicleta. Assim, as duas únicas motos de Nazário protagonizaram o primeiro acidente automobilístico da comunidade.

Há 3 anos, contam os habitantes locais, as “rápidas motos” substituíram as lentas carroças para fazer o transporte de produtos agrícolas entre as hortas caseiras e a margem do rio Arapiuns. Por ele navegam os barcos que fazem o socorro de urgência (as Ambulanchas), levando pacientes até o hospital municipal de Santarém, em trajetos que demoram 4 horas em média.

Silva, que transportava mandioca na garupa da moto, foi vítima do excesso de velocidade que tanto coloca em risco os entregadores de fast-food das grandes cidades do Brasil. Também confirmou o perfil de 80% dos acidentados nas metrópoles: homem, jovem e machucado no horário do expediente.

O primeiro acidente automobilístico da história de Nazário exigiu improvisação. A pediatra Cibele Coelho virou socorrista especializada em trauma. A lancha de transporte escolar fez as vezes de posto de atendimento móvel – o barco resgatou o motociclista em Nazário e, sabendo da presença dos Expedicionários em Mentai, parou no local para que a vítima fosse atendida mais rápido. Na falta de um colar cervical que imobilizasse o rapaz, com sinais clássicos de traumatismo craniano e uma fratura na perna esquerda, uma caixa de papelão imobilizou o pescoço e garantiu que ele fosse transportado até Santarém com menos risco de ficar paraplégico. Estabilizado, medicado e imobilizado, Silva foi levado a Santarém na mesma lancha escolar.

Às 16h15, os primeiros-socorros da primeira vítima do trânsito de Nazário foram concluídos. Os Expedicionários da Saúde voltaram, então, às cataratas, verminoses, hérnias e pterígios que estavam previstos para o dia. A jornada só terminaria cinco dias depois, com o saldo de 175 cirurgias realizadas e mais de 700 atendimentos clínicos, cinco deles emergenciais, como o do motociclista que faz delivery de macaxeira.

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