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Expedicionários da Saúde montam centro cirúrgico provisório e de última geração para operar quem vive em áreas onde não há nem farmácia

Pacientes em fila, à espera da cirurgia, na sala de pré-operatório improvisada dentro da igreja
Guilherme Carvalho/Expedicionários
Pacientes em fila, à espera da cirurgia, na sala de pré-operatório improvisada dentro da igreja

Roupas leves, repelente, canivete, lanterna, oito toneladas de equipamentos hospitalares de última geração. O check-list da bagagem da equipe convocada para levar saúde às áreas onde nem as farmácias chegam mistura o mínimo e o máximo.

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Na mesma mochila, é preciso carregar pequenos acessórios que garantem a sobrevivência pessoal dos profissionais voluntários participantes da missão. Ao mesmo tempo, não há como poupar espaço para as peças gigantes que, feito um quebra-cabeça, serão transformadas no centro cirúrgico de ponta provisoriamente instalado no meio da selva amazônica.

Desde 2003, os Expedicionários da Saúde – organização não governamental sustentada por doações e pela força de trabalho voluntária de profissionais de todo País – percorrem locais encravados nas mais inóspitas regiões no Brasil.

Levando atenção em saúde a áreas onde médicos, enfermeiros ou farmacêuticos não chegam, eles agem de forma complementar aos programas governamentais de saúde indígena e ribeirinha “para evitar a necessidade de deslocamento, custoso e traumático, do doente e da família até os centros urbanos”, explica uma das coordenadoras da entidade, a pedagoga Márcia Abdala.

Essas missões salvam vidas. Devolvem a visão e cuidam as dores e doenças dos que residem às margens dos rios brasileiros e também às margens dos cuidados clínicos básicos. No total, já foram realizadas 22 expedições que sanaram cataratas, hérnias, cáries, problemas cardíacos, de pele e respiratórios de brasileiros que chegam a passar décadas sem ver um médico.

O iG Saúde acompanhou a 23º empreitada, desta vez alojada em Mentai, comunidade distante 150 quilômetros de Santarém (Pará). Parece perto? Não é. O trajeto até o povoado só pode ser feito pela água, percorrendo o rio Arapiuns. São 14 horas de barco até o local.

Na série de reportagens publicada hoje estão as histórias por trás dos números da expedição: 32 médicos, enfermeiros, engenheiros e logísticos que oferecem a própria mochila para carregar o centro cirúrgico provisório. Em 10 dias de mutirões de cirurgia, foram 175 operações e 791 atendimentos clínicos realizados na população de 10 mil ribeirinhos, moradores de oito comunidades no entorno de Mentai.

O nome do povoado, aliás, tem uma história curiosa: é uma homenagem ao solo, bom para plantar pimenta. Por conta das plantações, era comum a pergunta, feita aos gritos por que passava de barco: “Tem pimenta aí?”. A frase foi rapidamente reduzida para “Menta aí?”, e assim nasceu a pequena Mentai.

Já no 1º dia de funcionamento do hospital provisório, os voluntários chegaram instantes depois do coração de Maria Izaneide, 52 anos, parar de bater. Bastaram 12 minutos para a equipe salvar a primeira paciente da expedição, em uma sincronia de massagens reanimadoras, feitas por mãos de pessoas que deixaram suas famílias, empregos e férias para entrar na história de quem – na ausência de doutores com diploma – cura todo e qualquer mal com caju, araçá e macaxeira.

Leia a história de Maria Izaneide

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