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Mulheres que nunca fizeram o pré-natal são atendidas em mutirão de consultas na floresta amazônica

Pré-natal na selva: 20 gestantes foram atendidas no mutirão de consultas ginecológicas
Fernanda Aranda/ iG São Paulo
Pré-natal na selva: 20 gestantes foram atendidas no mutirão de consultas ginecológicas

As carreiras da parteira Marinalva Santos de Souza e da ginecologista e obstetra Ana Paula Pina começaram de forma parecida. A primeira estreou na função há 30 anos trazendo ao mundo dois filhotes de uma cadela.

“Deu tudo certo com os cachorrinhos e fiquei confiante. Por sugestão do meu marido, comecei a fazer parto em gente”, diz ela que, na memória, contabiliza 520 crianças trazidas ao mundo na comunidade ribeirinha Mentai, distante 150 quilômetros de Santarém (Pará).

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Já Ana Paula Pina, antes mesmo de pensar em cursar medicina, fez o parto da gata de estimação, quando ainda era menina, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo.

“Decidi ali a minha profissão”, lembra a médica, que já perdeu as contas dos partos normais e cesarianas em que atuou.

Os caminhos trilhados por Marinalva e Ana Paula, a Pina, se cruzaram na segunda semana de agosto, durante a 23ª missão da ONG Expedicionários da Saúde, acompanhada pela reportagem. O grupo formado por médicos voluntários recrutados em todo País tem a missão de levar atendimento clínico e cirúrgico às zonas na selva amazônica com dificuldade de acesso à medicina devido à distância – são, em média, 10 horas de barco até o hospital mais próximo.

Para dar suporte aos ribeirinhos, os Expedicionários levam oito toneladas de equipamentos cirúrgicos na bagagem, que se transformam em um hospital provisório e de ponta, instalado dentro de uma estrutura de lona.

O grande objetivo é fazer operações de hérnia e catarata na população, que pode amargar anos na fila de espera do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas além das cirurgias, o grupo faz mutirão de consultas de ginecologia, pediatria, odontologia e clínica geral. Foi para esta função que Pina se candidatou.

Diagnóstico precoce

Instalada dentro do barco “Abaré Saúde na Floresta” (cedido pela prefeitura de Santarém), Pina cuidou da saúde das pacientes de Mentai e arredores, atendidas nos dez dias de expedição. As consultas mudaram o destino das grávidas da floresta.

Em algumas delas, o ultrassom mostrou a gravidez de alto risco que só seria descoberta na hora do parto feito por Marinalva
Fernanda Aranda/ iG São Paulo
Em algumas delas, o ultrassom mostrou a gravidez de alto risco que só seria descoberta na hora do parto feito por Marinalva

Sem acesso ao pré-natal considerado ideal pelo Ministério da Saúde – sete consultas, no mínimo – e com média de seis filhos, algumas foram informadas pela ginecologista que enfrentavam gestações de risco absoluto.

Entre as 20 gestantes atendidas, uma malformação congênita do feto e um bebê atravessado no útero despontaram no visor do ultrassom portátil levado a Mentai. Os diagnósticos anteciparam problemas graves, que provavelmente acabariam nas mãos da parteira Marinalva, em partos caseiros, sem estrutura para garantir a sobrevivência das mães e dos bebês.

Estatísticas

O barco que faz o transporte dos casos de urgência de saúde entre Mentai e Santarém é chamado de Ambulancha. Com ela, o socorro demora, em média, 4 horas, para chegar. A espera pode ser fatal para grávidas de risco. Foi o que ocorreu com as quatro mulheres que morreram no parto em Mentai, entre 2010 e 2012, nas contas do agente de saúde local, Valter Ferreira Macedo.

Macedo é a figura mais próxima de um médico nas comunidades ribeirinhas do entorno de Mentai. Ele serve de ponte entre os moradores e os distantes serviços de saúde. O agente sabe de cor o nome, o sobrenome e o endereço dos habitantes diabéticos, hipertensos e gestantes do local. No mapa mental que guarda a memória das doenças da comunidade, os casos fatais por causa da maternidade são, para ele, os mais tristes.

“Daqueles que doem só de lembrar”, conta.

A menina de 17 anos, grávida de sete meses, fez ultrassom pela primeira vez e ficou sabendo na 23ª missão dos Expedicionários da Saúde que estava com o bebê atravessado no útero. Já a mulher de 36, gestante pela nona vez, descobriu por meio do exame – inédito para ela – que a criança tinha a cabeça três vezes maior do que o corpo, uma deformidade que arriscaria a vida de mãe e bebê no caso de um parto normal, feito em casa.

Após o atendimento clínico feito por Pina, as duas foram encaminhadas à Santarém. Vão terminar o acompanhamento na Casa da Gestante, com médicos especializados. Não usarão os serviços da parteira Marinalva. Mas, se tudo der certo, não estarão nas estatísticas tristes que o agente Valter Macedo nem gosta nem de lembrar.

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