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Em duas décadas de uso, ecocardiograma fetal permitiu a sobrevivência de crianças como Vanessa e Caio. Conheça as histórias

Todo ano, 24 mil crianças nascem com problemas cardíacos. 30% deles podem ser identificados no pré-natal
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Todo ano, 24 mil crianças nascem com problemas cardíacos. 30% deles podem ser identificados no pré-natal

O ecocardiograma fetal ‘nasceu’ no Brasil em 1992, bem na época em que Mariade Fátima Chiesa esperava a primeira filha, a Vanessa.

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O exame passou a ser usado nas maternidades brasileiras e mudou o destino dos recém-nascidos, afirmam os pediatras e cardiologistas.

Trata-se de uma técnica simples, parecida com o ultrassom , capaz de identificar problemas cardíacos nos bebês ainda na barriga da mãe.

Com ele, as intervenções cirúrgicas podem ser planejadas e realizadas antes mesmo do nascimento. Ate então, só quando as crianças chegavam ao mundo sem força nem para chorar – e roxas por falta de ar motivada pelas falhas no coração – os médicos pensavam em cirurgias de risco para evitar a morte prematura dos pacientes.

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Não raro, eles nasciam mortos ou sobreviviam somente algumas horas fora do útero materno, engrossando os índices de mortalidade infantil.

“No início da década de 90 voltei dos Estados Unidos com especialização em um exame que ainda não fazia parte da rotina do pré-natal no Brasil. Ninguém entedia a minha função”, lembra a Lilian Lopes, cardiologista do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo e uma das primeiras a disseminar o uso do ecocardiograma fetal no País.

“Aos poucos, a técnica foi popularizada e hoje, principalmente perto da 26ª semana de gestação, já é possível identificar se o feto tem alguma malformação congênita no coração”, complementa Lilian.

“Se o resultado for positivo, há uma reprogramação das consultas do pré-natal e do parto.”

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Maria de Fátima foi uma das primeiras gestantes submetidas ao ecocardiogramafetal, enquanto fazia o pré-natal nos anos 90. Era a primeira gestação e ela acabara de descobrir estar grávida de uma menina.

Maria de Fátima descobriu há 20 anos que esperava um bebê com cardiopatia. Vanessa nasceu e cresceu saudável. Elas foram uma das primeiras a passarem por um ecofetal
Divulgação
Maria de Fátima descobriu há 20 anos que esperava um bebê com cardiopatia. Vanessa nasceu e cresceu saudável. Elas foram uma das primeiras a passarem por um ecofetal

Em meio a decisão se o nome da criança seria Vanessa – por sugestão do padre d eSanta Isabel, cidade onde mora (região metropolitana de São Paulo) – o obstetra desconfiou dos batimentos cardíacos da bebê.

“Estavam fora do ritmo”, lembra a mãe. Maria de Fátima, encaminhada à Beneficência, fez o até então desconhecido ecocardiograma fetal e confirmou: Vanessa estava entre os 24 mil que, todos os anos, nascem com problemas no coração, informa a Sociedade Brasileira de Cardiologia.

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Sobrevivência

Pelos dados brasileiros, 30% destes 24 mil recém-nascidos cardiopatas apresentam anomalias que podem ser identificadas já no pré-natal caso tenham acesso ao ecocardiograma. O exame é indicado para as mães que estão no grupo de risco, sendo elas as grávidas diabéticas, hipertensas, com mais de 35 anos ou que já tiveram algum filho com cardiopatia.

Simone Pedra, cardiologista pediátrica do Hospital do Coração (HCor), diz que a realização da técnica é indicada também quando o ultrassom comum mostra alguma alteração cardíaca no bebê sem explicação clínica, como um coração maior ou menor do que o tamanho previsto para a idade do feto.

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“Em 80% dos casos, não há razão médica – doença materna por exemplo – para as crianças apresentarem este problema durante o desenvolvimento. Acontece por fatores ainda não explicados pela ciência”, diz a médica.

Josane Alves, por exemplo, saudável, 29 anos, estava grávida pela primeira vez no ano passado. Na 27ª semana da gestação, foi identificado que o coração de Caio tinha o lado esquerdo atrofiado na imagem mostrada no ecocardiograma, uma condição incompatível com a vida.

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Mas o destino de Caio foi alterado. Os pesquisadores acreditam que este exame abriu as portas dos avanços registrados nas últimas duas décadas na área da cardiologia neonatal e “mudaram o curso natural das doenças cardíacas”, afirma Simone Pedra.

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Caio foi operado quando ainda estava dentro da barriga da mãe Josane, após o exame mostrar doença cardíaca
Bruno Zanardo/Fotoarena
Caio foi operado quando ainda estava dentro da barriga da mãe Josane, após o exame mostrar doença cardíaca

“Como os diagnósticos de fetos com alterações cardíacas aumentaram consideravelmente com o ecocardiograma fetal, a indústria foi provocada a apresentar soluções”, afirma o cirurgião da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular e médico do Hospital da Luz, Ivo Richter.

“Os aparelhos cirúrgicos ficaram menores para poder operar os corações pequenos, as técnicas ficaram mais precisas e seguras. Tudo isso permitiu que bebês que nascem com metade do coração atrofiado possam ser operados. Uma boa parte dos procedimentos é feita quando as crianças estão no útero. E contrariando os casos do passado, hoje eles sobrevivem.”

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Foi o que aconteceu com Caio. Ainda na barriga da mãe, o menino foi operado pela equipe do HCor para a desobstrução da válvula cardíaca, que não permitia a circulação sanguínea. Continuou se desenvolvendo no útero materno e três semanas depois os Alves foram à maternidade.

“Assim que nasceu, o Caio precisou ser operado outra vez”, lembra Josane.

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Um stent foi colocado no peito do menino para evitar que o sangue invadisse o pulmão . Ele teve alta da UTI dois dias depois e uma semana após a cirurgia estava no quarto.

“Eu que pensei nunca poder amamentar meu filho, fiquei emocionada quando ele pegou o peito e parou de chorar. Amamento até hoje. O Caio é faminto”, conta a mãe.

Aniversários

Para o aniversário de 20 anos do ecocardiograma fetal, os médicos esperam que ele se torne mais acessível e democrático no Brasil. Ainda hoje, o procedimento não é contemplado por todos os hospitais públicos e nem é coberto por todos os planos de saúde.

Caio está prestes a completar 1 ano de vida e os pais ensinam o garoto a cantar parabéns. Após a cirurgia, menino tem coração e pulmão saudáveis
Bruno Zanardo/Fotoarena
Caio está prestes a completar 1 ano de vida e os pais ensinam o garoto a cantar parabéns. Após a cirurgia, menino tem coração e pulmão saudáveis

“A maioria dos aparelhos e dos cirurgiões de bebês recém-nascidos está concentrada nos grandes centros urbanos e hospitais universitários”, lamenta Ivo Richter.

As diferenças regionais na especialidade podem ser evidenciadas pelos números de cirurgias cardíacas feitas em crianças com menos de 1 ano.

Em Rondônia, no ano passado, 17 nesta faixa etária foram internadas por problemas cardíacos, segundo levantamento feito pela reportagem nas planilhas do Ministério da Saúde. Em São Paulo, em igual período, o número foi 48 vezes maior, 810 internações.

Na casa de Josane, o fato de Caio estar nestas estatísticas faz com que o clima seja comemoração absoluta. O menino está cheio de fôlego para apagar a primeira vela no bolo de aniversário.

“Ele não teve mais nenhum problema e nunca mais ficou internado. Coração e pulmão estão inteirinhos, uma beleza”, diz a mãe.

Já Maria de Fátima acredita que a coincidência temporal da gravidez de Vanessa com o nascimento do ecocardiograma, foi o que permitiu a filha nem ter tempo de pensar no vigésimo aniversário.

A jovem justifica: “Estou no primeiro ano da faculdade de odontologia, em meio as provas e entrega de trabalhos. Nem pensei em comemoração", diz Vanessa que, vez ou outra tem taquicarda, mas não por doença.

Os batimentos acelerados, acredita ela, são resultantes da ansiedade, típica dos sagitarianos nascidos no fim de novembro.

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