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Esforços estão focados em produzir anticorpos que ataquem todas as versões do vírus influenza, o causador da infecção

Vacina da gripe: cientistas concentram esforços em várias linhas de pesquisa para criar uma imunização que dure mais
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Vacina da gripe: cientistas concentram esforços em várias linhas de pesquisa para criar uma imunização que dure mais

Enquanto a temporada de gripe deste ano no hemisfério Norte ganha forças, médicos e farmacêuticos têm um novo estoque de vacinas para oferecer a seus pacientes. Estas imunizações geralmente fornecem uma proteção forte contra o vírus, mas apenas por algum tempo. Vacinas para outras doenças geralmente agem por anos ou décadas. Com a gripe, porém, o outono seguinte será sempre a época de receber outra dose.

"Na história da vacinologia, ela é a única que nós atualizamos a cada ano", disse Gary J. Nabel, diretor do Centro de Pesquisa de Vacinas do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas.

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Esse tem sido o caso desde que a vacina da gripe foi introduzida, na década de 1950. Mas uma onda de estudos recentes sobre o vírus trouxe alguma esperança de mudança. Nabel e outros especialistas em gripe preveem um tempo em que vacinas sazonais contra a gripe serão coisa do passado, sendo substituídas por vacinas de longa duração.

"Esse é o objetivo: duas doses quando se é jovem, e depois um reforço em uma fase mais avançada da vida. É aí que nós gostaríamos de chegar", disse Nabel. Ele previu que os cientistas poderiam atingir essa meta antes do esperado – "ainda durante a nossa vida, com certeza, a menos que você tenha 90 anos de idade", disse ele.

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Tal vacina seria uma grande ajuda na luta contra surtos sazonais de gripe, que matam cerca de 500.000 pessoas por ano. Mas, em uma revisão que será publicada no periódico Influenza and Other Respiratory Viruses, Sarah Gilbert, da Universidade de Oxford, argumenta que poderá haver um benefício ainda maior.

Periodicamente, um tipo radicalmente novo de gripe evolui e rapidamente se espalha pelo mundo. Estima-se que uma pandemia em 1918 tenha matado 50 milhões de pessoas. Com a tecnologia atual, os cientistas podem não ter uma vacina para a nova cepa pandêmica até que o surto seja controlado. Uma vacina eficaz contra a gripe universal já seria capaz de combatê-lo.

"A vacinação universal com vacinas universais poria fim à ameaça de desastres globais que a pandemia da gripe pode causar", escreveu Gilbert.

As vacinas agem aumentando a proteção que o sistema imunológico já fornece. Na batalha contra a gripe, dois conjuntos de células do sistema imunológico fazem a maioria do trabalho.

Um conjunto chamado células B produz anticorpos que podem se agarrar aos vírus flutuantes. Sobrecarregados por esses anticorpos, os vírus não podem entrar nas células.

Uma vez que os vírus da gripe entram nas células, o corpo recorre a uma segunda linha de defesa. As células infectadas reúnem algumas das proteínas do vírus e as colocam em sua superfície. Células do sistema imunológico conhecidas como células T passam pelos vírus e, se os seus receptores se ligam às proteínas do vírus, reconhecem que a célula está infectada e então as células T liberam moléculas que rompem as células, matando-as.

Esse mecanismo de defesa funciona muito bem, permitindo que muitas pessoas combatam o vírus sem nunca se sentirem doentes. Mas há também uma falha embutida: o sistema imunológico tem que encontrar um tipo particular de vírus da gripe para desenvolver uma resposta eficaz contra ela.

Leva tempo para que as células B desenvolvam anticorpos apropriados. As células T também precisam de tempo para ajustar sua bioquímica para gerar receptores que possam bloquear rapidamente uma certa proteína da gripe. Enquanto o sistema imunológico se educa, um vírus da gripe desconhecido pode culminar em uma doença.

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As vacinas atuais da gripe protegem as pessoas contra o vírus, permitindo-lhes produzir anticorpos com antecedência. A vacina contém fragmentos da extremidade de uma proteína da superfície do vírus chamada hemaglutinina. Células B que encontram fragmentos de vacinas aprendem a produzir anticorpos contra eles. Quando as pessoas vacinadas são infectadas, as células B podem rapidamente liberar anticorpos contra o vírus.

Infelizmente, uma vacina tradicional contra a gripe pode proteger contra o vírus da gripe apenas com uma proteína hemaglutinina correspondente. Se um vírus se desenvolve de uma forma diferente, os anticorpos não podem se acoplar, e ele escapa da destruição.

A incessante evolução da Influenza obriga os cientistas a reconfigurar a vacina todos os anos. Poucos meses antes da temporada de gripe, eles precisam adivinhar quais cepas serão dominantes. Os produtores de vacinas em seguida combinam fragmentos de proteínas dessas cepas para criar uma nova vacina.

Os cientistas há muito tempo se perguntam se é possível escapar desse ciclo evolutivo com uma vacina que possa funcionar contra qualquer tipo de gripe. Essa vacina universal contra a gripe teria que atacar uma parte do vírus que muda pouco de ano para ano.

Gilbert e seus colegas da Universidade de Oxford estão tentando construir uma vacina com base em células T, que poderiam encontrar esse alvo. Os cientistas descobriram que quando as células T aprendem a reconhecer as proteínas de um tipo de vírus, elas podem atacar muitos outros tipos também. Ao que parece, as proteínas da gripe que as células infectadas selecionam para expor evoluem muito pouco.

Os cientistas estão testando uma vacina que prepara as células T para montarem um forte ataque contra o vírus da gripe. Eles sintetizaram um vírus que pode infectar as células, mas que não pode se replicar. Como resultado, as células infectadas expõem as proteínas, mas as pessoas que recebem a vacina não ficam doentes.

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Em um estudo clínico relatado no início deste semestre, os cientistas descobriram que as pessoas que receberam a vacina desenvolveram uma forte resposta das células T.

"Podemos levar essa resposta a níveis muito mais elevados com uma única injeção", disse Gilbert, o principal autor do estudo.

Depois que os cientistas vacinaram 11 indivíduos, eles os expuseram à gripe. Ao mesmo tempo, também expuseram 11 voluntários não vacinados. Duas pessoas vacinadas ficaram doentes, enquanto cinco não vacinadas desenvolveram a doença.

Enquanto os pesquisadores de Oxford focaram em vacinas de células T, outros estão desenvolvendo vacinas que podem gerar anticorpos eficazes contra muitos vírus da gripe – ou talvez todos eles.

Com base nessas descobertas, vários grupos já desenvolveram vacinas que geram alguns destes anticorpos em humanos. Agora eles estão tentando descobrir como fazer com que o corpo produza muitos desses anticorpos.

* Por Carl Zimmer

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