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Material disponível em Porto Alegre é suficiente para atender um só queimado do incêndio de Santa Maria. Doações começam a chegar de outros países

A tragédia de Santa Maria ainda constitui um dos principais desafios no atendimento das vítimas de queimadura no País: os bancos de pele brasileiros agonizam com a escassez de tecido doado, material imprescindível para tratar os pacientes queimados e que precisam de enxerto, uma espécide de transplante cutâneo.

Agora, para atender os sobreviventes do incêndio da boate Kiss – eles estão espalhados em 41 hospitais da região Sul – o governo federal precisou mobilizar as centrais de transplante nacionais de toda a América Latina.

LEIA A COBERTURA COMPLETA DO INCÊNDIO EM SANTA MARIA

As doações vindas de São Paulo, Pernambuco, Uruguai, Argentina e Equador já começaram a chegar à Central de Transplante do Rio Grande do Sul, responsável por reunir e contabilizar os pacientes que precisam da pele doada para sanar as sequelas profundas e perigosas, resultantes do contato com o fogo.

Resgaste de sobrevivente do incêndio que matou mais de 200 jovens na boate Kiss, em Santa Maria
Ricardo Giusti/O Dia
Resgaste de sobrevivente do incêndio que matou mais de 200 jovens na boate Kiss, em Santa Maria

“Essa tragédia, infelizmente, nos pegou com um estoque de pele muito baixo”, lamentou a coordenadora da Central de Transplante do Rio Grande do Sul, Rosana Nothen.

“Embora tenhamos vários tecidos sendo processados – é preciso uma triagem minuciosa para garantir a qualidade do tratamento –, temos apenas mil centímetros quadrados de material pronto para ser utilizado. A quantidade do nosso banco é suficiente para atender somente um adulto”, afirmou Rosana Nothen.

Assim como fígado, rim, coração e córneas, a pele doada a ser utilizada no tratamento de saúde também deve ser retirada de pessoas com quadro de morte encefálica (em que os órgãos continuam funcionando, mas não há mais resposta do cérebro).

Veja no infográfico: Os números de transplantes no Brasil

A família do doador é quem pode autorizar a retirada do tecido. No ano passado, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), apenas 18 doações de pele puderam ser aproveitadas em todo território nacional. Para comparar, foram 11.744 córneas doadas no mesmo período. "É importante esclarecer que a pele doada não mutila o doador. A expessura da pele retira é de milímetros, mais fina do que uma folha de papel e em uma área que não fica exposta, como tronco e pernas", explica Eduardo Chem, coordenador dos bancos de pele da ABTO.

Levantamento

A situação do banco de pele do Rio Grande do Sul exigiu a participação de outras instituições do Brasil e do Exterior para possibilitar o tratamento dos sobreviventes do incêndio de Santa Maria. Segundo Rosana Nothen, Pernambuco e São Paulo enviaram, juntos, 10,5 mil centímetros quadrados de pele. O banco da Argentina também disponibilizou 10 mil centímetros e o Uruguai se comprometeu com outros 2 mil centímetros de pele.

Estes cerca de 20 mil centímetros quadrados doados de outras intuições, informa Chem, são suficientes para atender em média sete pacientes adultos com queimaduras de grande porte pelo corpo. 

As autoridades do Rio Grande do Sul ainda contabilizam quantas vítimas de Santa Maria vão necessitar de enxertos realizados por meio do banco de pele. A prioridade inicial é tratar as sequelas respiratórias dos pacientes, a principal ameaça à sobrevivência.

“Só depois de estabilizados clinicamente, eles podem ser submetidos às cirurgias plásticas reparadoras, fundamentais também para evitar infecções generalizadas, a desidratação profunda e a perda de nutrientes essenciais”, alerta o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), José Horácio Aboudib.

Além da Argentina e do Uruguai, o Equador também deve enviar pele ao Rio Grande do Sul.

“Esperamos ainda que, com uma tragédia desta proporção, as pessoas se solidarizem e aumentem a autorização de doação de pele de seus familiares aptos a serem doadores de órgãos e tecidos”, completa Rosana Nothen.

Exigências e controles

Doar pele ainda é tabu. Mas diferentemente do imaginário popular, apenas uma camada muito fina do tecido é retirada do doador cadáver, ficando imperceptível aos olhos dos outros durante os rituais como velório, por exemplo. Além disso, os critérios para a doação deste tipo de tecido são muito mais rígidos quando comparados à doação de córneas ou ossos.

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O doador precisa ter entre 12 e 70 anos e, caso tenha tido câncer ou qualquer outra doença infecciosa durante a vida, a doação de pele é inviabilizada. O material coletado precisa ficar armazenado em condições rigorosas de temperatura e não pode ter contato com nenhum germe (vírus e bactérias), o que é muito difícil em ambientes hospitalares.

Curativos provisórios

Segundo o presidente da SBCP, a pele doada é utilizada como uma espécie de curativo biológico e provisório.

“É feita uma preparação com antibióticos no tecido antes de ser usado no paciente”, explica o cirurgião.

Os tecidos doados, em geral, são usados em acidentados de carro, moto e nas vítimas de queimadura.

“Quando não há condições de fazer enxerto usando a própria pele do paciente, recorremos ao banco. O material doado é provisório e, em questão de duas semanas, é rejeitado pelo receptor”, explica.

“Mas neste período, conseguimos estabilizar o paciente, evitar mortes e permitir que ele tenha acesso a outros procedimentos médicos”, afirma José Horácio Aboudid.

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