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Incêndio em boate do RS desperta sensação de “luto coletivo no País”, explica uma das principais estudiosas da morte no Brasil. Leia a entrevista

PM deposita flores em homenagem aos mais de 230 mortos na calçada da boate Kiss, no centro
Reuters
PM deposita flores em homenagem aos mais de 230 mortos na calçada da boate Kiss, no centro

O pingado e o sanduíche de queijo branco permaneceram intactos na mesa da padaria na Vila Madalena, zona oeste da capital de São Paulo. Mesmo distante 1.259 quilômetros de Santa Maria (RS), a mulher de aparência de 50 e poucos anos parecia sentir, de alguma forma, as sequelas do incêndio que matou, até agora, 235 pessoas na cidade gaúcha no último final de semana. A inapetência para finalizar o café da manhã era justificada pela conversa feita ao celular e aos prantos.

“Estou em choque. Tenho filhos jovens, eles saem quase todo final de semana, poderiam estar entre as vítimas. Eu poderia ser uma dessas mães”, dizia ela, enquanto não tirava os olhos da televisão, com transmissão em tempo real do velório coletivo.

LEIA A COBERTURA COMPLETA DO INCÊNDIO EM SANTA MARIA

A mesma tragédia que matou os frequentadores de um show na boate Kiss e deixou outros 129 feridos, 76 em estado grave – a maioria universitários – fez o aposentado Osório Gonçalves Dias, 59 anos, manter o televisor e a internet desligados em Joinville, Santa Catarina. As notícias, conta ele, podem reabrir as feridas internas, lentamente cicatrizadas ao longo dos últimos 39 anos.

Em 1974, Osório sobreviveu às labaredas de fogo que destruíram o edifício Joelma em São Paulo, deixando 187 mortos, 30 deles amigos próximos do aposentado. Ele tinha 20 anos, a mesma faixa etária da maior parte das vítimas de Santa Maria.

“Prefiro não assistir nada. Não por indiferença, ao contrário. Eu sinto a dor. É uma identificação muito dolorida”, contou.

A mãe que tentava tomar café na capital paulista e o aposentado Osório que não leu o jornal nesta segunda-feira (28) não conheciam nenhum dos mortos do segundo maior incêndio brasileiro. Mas fazem parte dos 190 milhões de moradores do País agora vulneráveis ao que a psicóloga e professora da PUC de São Paulo, Maria Helena Pereira Franco, chama de “luto coletivo”.

Maria Helena é uma das principais estudiosas do Brasil sobre a morte e seus impactos, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC e co-fundadora do Instituto 4 estações. Em entrevista ao iG , ela conta por que uma tragédia deste porte é tão sentida e tão vivenciada até por quem não tem nenhuma relação com as vítimas.

A dor solidária, afirma a especialista, precisa de atenção de psicólogos, psiquiatras, familiares e de toda rede de saúde do País.

iG: Pela reação das pessoas, de todos os cantos do País, a sensação é de que o Brasil todo foi afetado pelo incêndio de Santa Maria. É uma percepção correta?

Maria Helena Pereira Franco: Sim, não é uma percepção exagerada. É o que chamamos de luto coletivo, um fenômeno que existe e é muito forte. Esta solidariedade que aparece nos momentos de dor é o que promove a mobilização em massa, o número expressivo de voluntários dispostos a ajudar e de pessoas impactadas, ainda que sem relação alguma com as vítimas. Os efeitos chegam muito perto de toda a população porque a tragédia se deu em uma situação corriqueira.

São muitas perguntas não respondidas: por que meu filho estava naquela festa? Como uma classe inteira de uma faculdade vai voltar às aulas após tantos alunos mortos?

Neste caso de Santa Maria, por exemplo, todo mundo vai ou já foi a festas no final de semana, tem filhos ou amigos que frequentam estes ambientes. Há uma projeção de que poderia ter acontecido com qualquer um. A dor é projetada.

iG: Esta dor projetada pela dor do outro pode ser sentida de fato? Pode ser gatilho para despertar depressão ou ansiedade mesmo nos espectadores da tragédia?

Maria Helena: Não necessariamente, mas pode sim. Se por exemplo você foi um sobrevivente de um acidente de grande porte que aconteceu há muito tempo ou perdeu alguém em uma situação de tragédia, os efeitos no espectador podem ser mais intensos. Podem fazer reviver a sensação de impotência, da impossibilidade total de fazer algo. Se não há esta relação tão íntima com as perdas em tragédias, as sequelas podem ser mais amenas. Mas tudo depende de como as perdas ao longo da vida foram enfrentadas e agora são canalizadas nesta projeção.

iG: Alguns estudos realizados em regiões que viveram grandes tragédias, (como o tsunami na Indonésia e o atentado às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos) mostraram que anos depois o número de casos de depressão e outros transtornos de comportamento se multiplicaram. Por quê?

Maria Helena: Porque as tragédias deixam um campo fértil para os transtornos depressivos, as crises de ansiedade, o abuso de substâncias químicas. E tudo isso, não necessariamente, é desencadeado imediatamente. Sem banalizar a dor imediata, é esperado que nos primeiros 30 dias os envolvidos experimentem um estresse agudo. São muitas perguntas não respondidas: por que meu filho estava naquela festa? Como uma classe inteira de uma faculdade vai voltar às aulas após tantos alunos mortos? Se existir um bom trabalho com este público, aos poucos, as pessoas retomam a vida. Mas, além do atendimento imediato, estas situações requerem cuidados contínuos. Para evitar que os problemas depressivos se cronifiquem com o tempo ou apareçam tardiamente.

iG: Estes transtornos depressivos podem ser desencadeados como uma reação em cadeia?

Maria Helena: Pode ser generalizado, porque a rede afetada e participante é muito ampla. É a mãe da vítima, o amigo, os familiares distantes, os socorristas, os profissionais que atuam nesta tragédia, as autoridades que precisam tomar decisões rápidas, as pessoas que assistem pela televisão. Ainda que haja uma hierarquia de envolvimento diferente, os afetados são inúmeros. Por isso, os cuidados devem ser generalizados.

iG: A senhora costuma dizer que é preciso ter uma educação para a morte. Esta educação é válida até para situações de tragédia como esta, em que a morte, de forma mais latente, não é esperada?

Maria Helena: Sem dúvida. Não gostamos de falar em morte e não fazemos isso ao longo da vida. Mas precisamos incluir a educação para a morte em nossa rotina, permitir que as pessoas falem sobre o tema, exponham suas emoções, sem julgamentos e sem teorias prontas. Educar para a morte é um recurso, inclusive, para prevenir o adoecimento tardio resultante de uma tragédia como esta de Santa Maria.

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Assista à reporter Fernanda Aranda falando sobre esta reportagem no Papo na Redação:


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