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Índio vive há quatro anos no perímetro de SP dominado pelo crack e, mesmo sem perceber, transformou o lixo das ruas em uma galeria de arte

Incontáveis pares de chinelo foram gastos no trajeto, feito a pé. Entre Petrolina (Pernambuco) e o local em que “se sente em casa”, Cícero Rodrigues, 37 anos, cruzou quatro fronteiras brasileiras em 52 dias.

Dormiu em acampamento de sem-terra, passou fome, frio, sede. Conheceu e se separou de dois amores. Acabou sozinho na Cracolândia, perímetro urbano de São Paulo em que as pitadas no cachimbo são feitas a plenos pulmões. Com o coração doente, “batendo fraco de solidão”, ele tropeçou nas pedras do crack. Sobreviveu do lixo e, agora – duas décadas depois do início da jornada – bateu de frente com a arte.

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A veia artística que pulsa no andarilho, carroceiro e morador de rua foi descoberta por Zezão, renomado grafiteiro paulistano, conhecido por fazer obras nos esgotos que renderam exposições em museus do mundo todo.

“Há quatro meses, decidi montar um ateliê na Cracolândia, com a proposta de contribuir para a revitalização da área. Pedi ajuda aos frequentadores do local para limpar o prédio onde aluguei o espaço. Um deles era o Índio, apelido do Cícero. Um cabra batalhador que me emocionou com o talento”, define Zezão, enquanto mostra o mural artístico feito pelo novo ajudante.

A história de Índio começa aos 12 anos, quando ele saiu de casa a convite da bebedeira violenta do pai. Deixou para trás sete irmãos e três irmãs. Não levou documento e só reconhecia as consoantes e vogais do nome batismo, as mesmas que indicavam a direção da estrada.

“Sabia ler pouco. Daí pensei : se sei reconhecer o C e o O, que fazem parte do meu nome, vai dar para juntar a letras e ler as placas. Não fico tão perdido pelas andanças”, recorda.

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Sem certidão de batismo ou RG, Cícero já foi “Negão” pelos municípios baianos onde morou. Também atendeu por “Coisa” nas estradas mineiras em que pediu carona. Em São Paulo, ganhou o codinome Índio “por causa da cara que herdei da Brasilina, minha avó cabocla”.

As placas de rua inutilizadas vão para dentro de casa e viram instalação
Fernanda Aranda/ iG São Paulo
As placas de rua inutilizadas vão para dentro de casa e viram instalação

Se depender de Zezão, a identidade assumida por Cícero em solo paulista será definitiva – e reconhecida.

“Índio, não tenho dúvidas, pode assinar uma exposição de arte urbana”, avalia.

Riqueza descartada

A matéria-prima utilizada por Índio, de forma autodidata e sem pretensão de ser vista por nenhum frequentador de galerias, vem das esquinas das ruas que enquadram a Cracolândia.

Desde que fincou os pés na região – já descalços após perder a última sandália de dedo – ele diz ter encontrado a maior riqueza que já viu na vida.

"Riqueza descartada" misturada "aos nóias descartados", como chama os “irmãos” que dividem a calçada com ele, nas duas únicas horas de sono por noite. No lixo, o pernambucano encontrou um canto para dormir, comida para encher o estômago, uma pedra e outra para fumar e “coisas ricas. Muito ricas”.

“Só achei estranho porque na minha terra, quem recolhe entulho é agente ambiental. Aqui, quem mexe com lixo é lixo também. As pessoas têm medo. Pensam que sou um monstro”, diz, lamentando os olhares assustados, constantes e exclusivos.

“Mal sabem que eu tenho mais medo deles do que eles de mim.”

Instalação

Talvez por temer os olhares dos outros, Índio é relutante em reconhecer beleza no que faz. Fica tímido quando é admirado, com vergonha semelhante à que lhe enrubesce o rosto quando ele fala sobre o crack. Índio não gosta de declarar uso. Diz que já foram 10 pedras por dia e hoje, no máximo uma – reforçando que sua vida é maior do que a droga.

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O fato é que, no entulho retirado do futuro ateliê de Zezão em troca de alguns trocados, Índio viu potencial decorativo e informativo. O homem que há 20 anos não tinha casa, enfeitou as paredes do prédio abandonado com o lixo, com a ideia de que representassem a “alma paulistana”. Ele criou uma linguagem própria na instalação.

“Quando vi o que o Índio tinha feito aqui, fiquei surpreso. Era rico. Criamos uma identificação, confiança mútua. Índio ganhou a chave do ateliê, passou a dormir aqui e todo dia traz alguma coisa da rua", diz Zezão. As pessoas que conhecem o grafiteiro, os estudantes de arte e os entusiastas de arte urbana que visitam o futuro ateliê, testemunhou a reportagem, ficam admirados com o que veem.

A instalação de Índio se transforma diariamente. É composta de brinquedos, DVDs, relógios, tapetes, lustres, sofás, orações, gibis, cimento, placas, tudo que ele encontra descartado pelo chão. Em 37 anos de vida, Índio nunca foi ao teatro, cinema ou museu. Mas sente lá no peito que a arte “e não o sanatório” podem transformar a Cracolândia.

As mãos de Índio ganharam função artística.
Fernanda Aranda/ iG São Paulo
As mãos de Índio ganharam função artística. "Você quer tirar uma foto delas?"

“Artista eu não sou. Eu sou eu mesmo. Mas sou ser humano, assim como os nóias. E muita gente não sabe disso.”

Digitais

O “projeto Índio” ainda está só no começo, mas “o cabra é esforçado, não nega trabalho, produz o dia todo”, diz o grafiteiro.

As mãos que diminuíram o uso de crack e agora trabalham com arte já convenceram Zezão do talento que têm.

A repórter então pede para fotografar os dedos que fazem arte com o lixo da cracolândia. Índio deixa, mas cai na gargalhada. Lembra da vez em que foi  levado para a delegacia, o policial insistindo que ele era um bandido perigoso.

"Ele quis puxar minha ficha, mesmo eu falando um milhão de vezes que nunca tinha roubado, matado ou feito coisa ruim. Na hora de tirar as digitais, ele ficou assustado com a minha mão, disse que era horrorosa. E agora você, pedindo para tirar uma foto dela. É engraçado.”

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